quarta-feira, 21 jan. 2026

Direitos humanos por conveniência

Estamos perante um ataque a uma democracia de estilo ocidental por parte de um grupo terrorista que está para os direitos humanos como a água está para o azeite

As cruzadas pelos direitos humanos não são novas. Mas tampouco são assim tão antigas. Podemos regressar à segunda metade do século XVIII, com as grandes revoluções da modernidade em França e nos Estados Unidos, que, independentemente das diferenças abissais em muitos vetores, colocaram a questão dos direitos do Homem em cima da mesa.

Mas foi principalmente na década de 1960 que as preocupações se transformaram numa cruzada decisiva. Uma luta existencial entre o bem e o mal, o certo e o errado, o moral e o imoral, os opressores e os oprimidos. Uma breve análise permite-nos aferir que os cavaleiros mais ferozes dos direitos humanos eram, e continuam a ser, sobretudo os autoproclamados pacifistas. 

Em 1961, o recém-eleito Presidente John F. Kennedy, no seu famoso discurso inaugural, reavivou e aprofundou o idealismo wilsoniano: «Pagaremos qualquer preço, suportaremos qualquer fardo (...) para garantir a sobrevivência e o sucesso da liberdade». Aqui estavam os EUA a solidificar o seu estatuto de líder do mundo livre. No entanto, para os pacifistas, as palavras não são mais que um instrumento retórico utilizado mediante as necessidades ideológicas. Porque, no momento da verdade, são os primeiros a criticar veemente as ações que se afiguram necessárias para cumprir a causa da liberdade. 

Nos anos 60 foi o Vietname, onde a preocupação pelos direitos humanos dos vietnamitas subjugados por um regime cruel deu lugar a um ativismo profundamente antiamericano. A solidariedade foi a mesma para com os povos do leste europeu, espezinhados pela pesada bota soviética, ou pelo povo iraniano que, nos anos 70, se livrou de um regime autoritário apenas para cair nas mãos de uma ditadura religiosa nefasta (uma revolução apoiada por Foucault e pelos seus fiéis correligionários).

Não obstante a abstração do conceito de direitos humanos e a clara diferença entre a sua proclamação e aplicabilidade real, as pretensões de solidariedade e ativismo para com os oprimidos deste mundo acaba por se revelar não só incipiente, como também hipócrita. De forma curta, estas cruzadas funcionam como um mecanismo para destilar ódio contra o Ocidente. 

E porque importa isto agora? Porque, tal como nos anos 60, levantam-se hoje os pacifistas para denunciar a viva voz Israel, os EUA e qualquer país que não vergue perante a sua verdade universal. Com isto, o objetivo não é branquear as ações mais perversas do atual governo de Israel. A questão é diferente. Estamos perante um ataque a uma democracia de estilo ocidental – por sinal, sem paralelo na região – por parte de um grupo terrorista que está para os direitos humanos como a água está para o azeite. Ou seja, são imiscíveis. E, sem qualquer pudor em utilizar o povo palestiniano como escudo, o Hamas vai ganhando a guerra propagandística.

A verdade é que a segurança de Israel foi, está e estará sempre ameaçada enquanto o Hamas existir. E desde 7 de outubro de 2023 que os israelitas se dedicaram a aniquilá-lo. É também inegável que as imagens que nos chegam de Gaza são horríveis. A guerra é um inferno, principalmente quanto se encontram crianças entre as vítimas. Mas a política internacional não é um mar de rosas. Porque o Homem não é perfeito. 

Como notava William F. Buckley, Jr., em 1984, «como se espera que alguém aja quando um agressor, sem respeitar qualquer lei, qualquer código, invade [a expressão usada no texto original em inglês foi dreadnoughting] o seu jardim da liberdade?». Buckley não escrevia sobre este conflito, naturalmente. Mas dificilmente a questão poderia encaixar melhor. Foi precisamente isto que aconteceu há dois anos, quando o Hamas entrou de forma bárbara em território israelita (as imagens são chocantes, mas menos vistas, vá-se lá saber porquê, aqui pelo Ocidente).

E passados dois anos, onde está a preocupação com os direitos humanos dos israelitas assassinados, dos reféns ainda em cativeiro, e dos palestinianos que sofrem às mãos do Hamas há quase vinte anos? Talvez sejam questões que não consigam mobilizar flotilhas, manifestações ou reações nas redes sociais. Mas são as questões que realmente importam.