Entre as peripécias da flotilha, os chamados clássicos do futebol português e as suas estéreis polémicas e uma desinteressante campanha autárquica, o caso passou mais ou menos despercebido. Gouveia e Melo revelou esta semana que lhe foi dada a oportunidade de atingir o topo da carreira militar como Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA) no final do seu mandato como chefe do Estado-Maior da Armada. O objetivo, diz sem dúvidas, visava travar a sua candidatura a Presidente da República.
Este facto é contado no livro Henrique Gouveia e Melo - Um Retrato Biográfico, da autoria do jornalista Gustavo Sampaio. «(…) achei que as razões não eram as melhores e, portanto, abandonei logo essa ideia», acentua Gouveia e Melo no livro.
Importa lembrar que é Governo, através do primeiro-ministro e do ministro da Defesa Nacional, que propõe ao Presidente da República a nomeação dos chefes militares de topo, bem como o CEMGFA. O Conselho de Chefes de Estado-Maior deve ser ouvido neste processo de nomeação, e o nome aprovado pelo Conselho de Ministros é então proposto ao Presidente.
Tendo a certeza que Gouveia e Melo não inventaria um facto de tal gravidade e que não o revelaria se quem lho sugeriu não estivesse no círculo que leva à nomeação final, isto revela como alguns eleitos se veem não como servidores do Estado e dos portugueses, mas como quem se pode servir do Estado para os seus interesses políticos e pessoais.
Ainda a propósito desta desonestidade Gouveia e Melo salientou que o sistema político «tem coisas apodrecidas». Tem toda a razão. Ainda há muitas maças podres no Estado português que precisam de ser denunciadas e banidas da vida pública. Talvez um dia, ainda a tempo de serem corridos sem deixar saudades, Gouveia e Melo possa denunciar estes farsantes.
Menos despercebido, mas ainda sem que causasse o abalo merecido, foi o caso do processo crime e diversos inquéritos abertos ao juiz Ivo Rosa com base numa ridícula denuncia anónima em 2021, meses antes deste anunciar a decisão instrutória do processo Operação Marquês.
Nessa decisão, o juiz deixou cair a maioria dos crimes que constavam na acusação do Ministério Público, tendo o Tribunal da Relação de Lisboa revertido mais tarde a decisão. Conhecidos agora os ditos inquéritos, em segredo durante três anos e, entretanto, arquivados, várias vozes ligadas à justiça e não só, vieram a público alertar para a gravidade para o Estado de direito o facto um juiz ter visto o seu sigilo bancário e a localização do telemóvel violadas, além de os seus movimentos terem sido monitorizados. Foram pedias explicações ao Ministério Público (MP) por suspeitas de perseguição endivida que, uma semana mais tarde, emitiu um comunicado em que nada dizia além de confirmar o que tinha sido avançado pela investigação da TVI/CNN.
O Presidente da República e os dirigentes de diversos partidos, nomeadamente dos que Governam o país, limitaram-se a soltar meia dúzia de banalidades. Uma espécie de ‘não se passa nada’ que é sempre a serventia da casa quando alguma coisa lhe queima as mãos.
Entretanto, o caso Spinumviva, que lança suspeitas de irregulares cometidas pelo primeiro-ministro e que está em banho-maria no MP há meses, voltou à tona de água com novos dados. Mais uma vez, segundo fontes dos próprio MP, parece que ainda faltam novas explicações por parte de Montenegro.
O primeiro-ministro irritou-se, no ar ficaram suspeitas de o caso vir sempre à tona em véspera de eleições, o MP emitiu novo comunicado com mais banalidades e todos seguiram em frente com falsos sorrisos na cara como se nada passasse.
Vai mesmo por aí muita podridão.
*…se fosses só três sílabas de plástico, que era mais barato! (do poema Portugal de Alexandre O’Neill)
Jornalista