1.Há dias, a TVI entrevistou o motorista da Carris queimado gravemente por um ataque com cocktails Molotov, lançados por terroristas suburbanos contra o seu autocarro. Os atacantes protestavam contra a ação policial que matou Odair Moniz, na Cova da Moura. Ainda longe de recuperar, o motorista não quis dar a cara por medo. Já os terroristas estão soltos. A vítima queixou-se de abandono flagrante, depois de, nos primeiros dias, altos dirigentes lhe terem prometido apoios permanentes que nunca vieram. Simultaneamente, fez um mês a tragédia do elevador da Glória. E tudo se encaminha para uma repetição. Está aberta a via do esquecimento. Há vítimas sem solução pós-hospitalar e outras que se queixam de falta do prometido apoio permanente. Se é da câmara, da Carris ou da seguradora que fala em necessidade de avaliar mais adiante os problemas permanentes de cada vítima, interessa pouco. A situação faz-nos coletivamente corar de vergonha. Quanto às causas do acidente é o que se vê. Ou melhor, o que não se vê. Multiplicam-se entrevistas e debates com especialistas e técnicos cheios de diplomas e explicações. Mas o que já está provado é que a segurança/manutenção estava desorganizada, dispersa e ninguém era plenamente responsável. O facto de a lei ter sido feita de forma incompetente não é desculpa para tantos ‘expertos passivos’ que, afinal, já tinham dado pelos problemas. Faltou-lhes coragem e cidadania. O mais certo é ficar tudo em águas de bacalhau, a culpa ser repartida e irmos esquecendo o sofrimento humano, apesar das declarações compungidas e das lágrimas de circunstância vertidas no momento. Depois do choque inicial e traumático de um acidente, os responsáveis têm de estar à altura. Não podem delegar. Têm de resolver. Situações destas são inúmeras em Portugal. Basta revisitar casos de bombeiros, polícias, militares feridos, sem falar de casos que afetaram gravemente particulares. Só as mais mediáticas é que são sinalizadas em datas redondas. Quase não há reparações por falhas do INEM, dos hospitais, dos pisos das estradas, dos passeios deficientes, de muitos erros grosseiros e ainda mais por não cumprimento de sentenças em que o Estado (através de uma qualquer das suas múltiplas facetas) é culpado, aproveitando sempre para recorrer e chutar para as calendas gregas. Este estado de coisas não é de hoje nem de ontem. Em maio de 1963, desabou a cobertura da estação do Cais do Sodré. Morreram 49 pessoas e 69 ficaram feridas. A exploração da linha era na altura privada. Foram acordadas indemnizações. Também acudiram dirigentes cheios de promessas. Anos depois do 25 de Abril ainda a imprensa reportava que o caso se arrastava. Não há que saber. Somos assim. É o nosso ADN e, pelos vistos, não são as modificações democráticas, sociológicas e a miscigenação que nos transformam.
2. O caso da agressão de Valongo é um paradigma. Treze homens de etnia cigana agrediram selvaticamente um casal depois de uma discussão por causa de um lugar numa fila de supermercado. Já fora, o marido foi desfeito à pancada perante uma filha de dois anos que estava no carro. Vai levar meses ou anos a recuperar. O caso não deu origem a manifestações solidárias, nem a lenços ao pescoço. Um mês depois dos factos os criminosos identificados foram presentes a tribunal. Em poucas horas, um juiz mandou todos em liberdade. Lá andam à vontadinha. A vítima, tal como o motorista da Carris, não vai querer dar a cara por medo de represálias. Se quiser um mínimo de segurança ou se cala ou muda de país. Ambas as vítimas têm razão. Sabem que nas ruas mandam os delinquentes e não o Estado. É isso que, seguramente, também explica certas escolhas eleitorais. No domingo, talvez valha a pena olhar para os resultados de Valongo e da Amadora à luz de determinados factos.