Onde começam as maravilhas

Nada no Porto é simples ou sereno, dada a natureza burguesa, liberal e irresoluta da cidade. O portuense distingue-se por esse traço de caráter, que espero do meu sucessor.

'O Porto é o lugar onde para mim começam as maravilhas e todas as angústias'
Sophia de Mello Breyner Andersen

Domingo chega ao fim o meu 3.º mandato como presidente da Câmara do Porto. Para trás ficam 12 anos de dedicação ao projeto de cidade que apresentei aos portuenses. Agradeço a quem confiou em mim e acreditou que era possível implementar um projeto político à medida das nossas ambições, bem como a todos os que comigo trabalharam: eleitos, dirigentes e funcionários. Não me compete apresentar um balanço. É prematuro fazê-lo, e nunca serei a pessoa certa para isso.

Para mim, foi uma história de amor. Inevitavelmente, como sucede nas relações amorosas, nem tudo correu na perfeição e não pude concretizar tudo o que pretendia. Seria impossível agradar a todos, porque os interesses individuais dos meus concidadãos são muitas vezes divergentes.

Nesta campanha para as autárquicas, ouvimos propostas muito diferentes, que resultam de projetos alternativos, de ideias diferentes para a cidade. Houve quem tudo criticasse, e não faltou quem reclamasse para si a autoria e os louros pelo que correu bem. Da espuma dos dias, percebe-se que há projetos que só queremos desde que não nos causem incómodo. Os ingleses têm uma expressão para isso: not on my backyard, ou seja, ‘não nas minhas traseiras’.

Reapareceram os saudosistas. Derrotados em 2017 e 2021, espreitam uma nova oportunidade, e tentaram impregnar todas as candidaturas. Creio que não têm noção do ridículo mas, em qualquer caso, recuso a posologia que nos propõem, inspirada por obsessão e revanchismo. Não me parece, de resto, que a cidade esteja doente. A hipocondria política é a arma favorita da demagogia que glorifica tempos em que o Porto estava ‘ferido na asa’, em que, como escreveu Carlos Tê e cantou Rui Veloso, víamos a cidade «abandonada, nesse timbre pardacento, nesse (…) jeito fechado de quem mói um sentimento».

Abomino o bota abaixo, que resulta de falta de cosmopolitismo: o Porto é, mesmo com dores de crescimento, melhor do que as narrativas que tentam inspirar perceções negativas, seja por despeito ou para amansar frustrados. Às vezes, é o olhar de quem nos visita que nos dá alento. Teresa Patrício Gouveia, que foi ministra da Cultura e presidente de Serralves e visita o Porto com frequência, escrevia há dias: «Ia a dizer: bastava uma ida a qualquer cidade espanhola para ver a qualidade urbana do espaço, a civilidade da convivência de peões e trânsito, o desenho dos passeios, a arborização das ruas, a sinalética, etc., etc., etc. – e fazer igual. Mas corrijo: basta ir ao Porto e ver o que lá se faz e como, desde sempre, se trata o espaço público, onde usufruímos a mesma civilidade e a mesma qualidade urbana. Não voto no Porto, voto no Príncipe Real.»

Comprometido com a neutralidade, não posso, ainda assim, ficar indiferente a expressões populistas que nos apoucam. Porque por muito que nós, os políticos, tenhamos responsabilidade, a nossa influência é efémera: o destino da cidade será sempre obra da cidadania.

Nada no Porto é simples ou sereno, dada a natureza burguesa, liberal e irresoluta da cidade. O portuense distingue-se por esse traço de caráter, que espero do meu sucessor. Conto que nos saiba alistar para o seu projeto, que seja persistente no gozo da autoridade e liberdade que o voto dos portuenses lhe irá conferir. Não queiramos quem não gosta da cidade. Quem a quer irrelevante e obediente. Quem nos quer desmobilizar. Já experimentámos isso e foi uma tristeza. Votem na certeza de que, em qualquer caso, o vosso futuro será seguramente diferente, como será o meu amanhã.