quinta-feira, 21 mai. 2026

Linguagem para lamentar desvia atenções do essencial

De Natália Correia a Filipe Melo, o que mudou na oratória (e não só) da Assembleia da República nos últimos 50 anos
Linguagem para lamentar desvia atenções do essencial

Os eleitores têm todas as razões para estarem confusos. No limite, agarram-se ao que é mais simples, mais apreensível e, quer queiramos quer não, a linguagem de taberna continua a ser a mais acessível. Quem melhor a domina é André Ventura e o Chega.

Segunda-feira, dia 29, enquanto Hugo Soares, líder da bancada parlamentar do PSD, acusava num canal de notícias André Ventura e o Chega de mentira e manipulação, o grupo parlamentar que lidera negociava, noite dentro, com o Chega a aprovação da Lei dos Estrangeiros. 

Terça-feira, dia 30, logo às primeiras horas da manhã, o partido de André Ventura anunciava que o Chega e PSD tinham chegado a acordo, deixando para o presidente do PSD e primeiro-ministro, Luís Montenegro, em plena campanha autárquica, a incómoda tarefa de responder aos jornalistas sobre as contrapartidas do acordo. Montenegro não confirmou o acordo e não escondeu o desconforto sem nunca perder o sorriso – aquele sorriso quase permanente –, optando por falar de uma lei que, afirmou, serve acima de tudo «para as pessoas, para os portugueses e para os imigrantes que nos procuram para poderem ter condições de vida dignas». Tudo isto depois de, entre ‘morada’ e ‘porrada’, a Assembleia da República se ter quase transformado numa tasca de esquina. Não é certo que o eleitorado aprecie esta forma de fazer política. No entanto, em tempos de perceções, arriscamo-nos a dizer que o Chega soma e segue, sem perder eleitorado nem ganhar vergonha.

Culpar o Chega pela degradação da linguagem parlamentar pode ser uma tentação, mas talvez não seja completamente justo. O tom excessivo entre representantes do povo é, afinal, o sal e a pimenta dos regimes parlamentares, mais ou menos representativos.

Nas seculares Câmaras dos Lordes e dos Comuns, no Reino Unido, já se assistiu a quase tudo: ironia e sarcasmos históricos, linguagem agressiva, sessões caóticas. Aliás, o uso parlamentar de palavras como shit ou fuck banalizou-se nos últimos anos a tal ponto que se vê a linguagem inapropriada como tendência da política atual. Estas palavras são usadas em contexto parlamentar como citações, uma forma de evitar sanções diretas.

No Parlamento português, já tivemos o célebre poema satírico do Truca-Truca. Em março de 1982, Natália Correia, deputada do PPD, e João Morgado, deputado do CDS, foram protagonistas de um momento único, quando, em pleno debate sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG), a escritora e poetisa respondeu com um poema satírico à afirmação conservadora de Morgado de que «o ato sexual é para fazer filhos». O poema circulou rapidamente pelas bancadas, provocando riso e desassossego, e incluía estes versos: «Sendo pai só de um rebento,/lógica é a conclusão/de que o viril instrumento/só usou – parca ração! –/uma vez. E se a função/faz o órgão – diz o ditado –/consumada essa exceção,/ficou capado o Morgado».

«Manso é a tua tia, pá» é a expressão-chave de outro momento parlamentar, resultante da troca de farpas entre José Sócrates e Francisco Louçã. O debate era sobre os salários dos gestores públicos. Louçã comentou que Sócrates estava «um pouco mais manso» nas intervenções. Irritado, Sócrates respondeu: «Manso é a tua tia, pá». O som não foi totalmente audível, mas as câmaras do Parlamento captaram-no. Estávamos em abril de 2010 e, até então, este comentário inscrevia-se como um dos momentos mais tensos e memoráveis entre dois políticos, ainda que sem grandes consequências.

Poucos meses depois, em julho, Manuel Pinho, então ministro da Economia, fez um gesto taurino – uns ‘corninhos’ com as mãos junto à testa – a partir da bancada do Governo, dirigidos ao deputado Bernardino Soares, do PCP. Foi demitido de imediato.

Mas voltemos atrás, a 1987. Natália Correia, então eleita nas listas do PRD, recebeu nos Passos Perdidos a deputada do Partido Radical italiano Ilona Anna Staller, ex-atriz pornográfica conhecida como Cicciolina, que viera ao Parlamento a convite da Comissão da Condição Feminina. Sentada na tribuna reservada a visitas diplomáticas, Cicciolina, de vestido branco ‘cai-cai’, deixou cair o vestido e mostrou os seios ao hemiciclo, suscitando reações entre o incómodo e a indignação. O deputado Nogueira de Brito, do CDS, pediu a interrupção dos trabalhos, o que aconteceu. Presidindo à sessão estava uma mulher, Manuela Aguiar, deputada do PSD.

Um deputado ‘capado’ por um poema, um ministro demitido por ter feito um par de cornos, um primeiro-ministro que de manso não tinha nada, ou uma deputada radical italiana que mostra os seios numa reprodução quase literal do busto da República… a estes episódios podemos juntar ainda o incidente com o deputado socialista Ricardo Rodrigues, que certa vez confiscou o gravador de um jornalista porque não gostou da entrevista. São episódios dispersos da história do Parlamento português.

Até que chegou André Ventura – e, depois, mais 49 deputados. Ventura já admitiu que se vê como São Paulo, está ali para doutrinar, para que aqueles homens e mulheres se assemelhem, não a Deus (esse é o seu privilégio), mas a ele próprio, Ventura, o filho eleito por Deus para o Parlamento.

A troca de insultos entre Ventura, os deputados do Chega e os restantes partidos tem crescido sem que ninguém arrisque um limite. Com especial ênfase nos confrontos com deputados do BE, Livre e PS, Ventura não hesitou em chamar «ladrão» a governos do PS e do PSD, e «bandido» a Lula da Silva, Presidente do Brasil, em 2023, quando a Assembleia discutia o assalto às instituições em Brasília. Augusto Santos Silva, então presidente da Assembleia, tentou moderar a linguagem do líder do Chega. Tentou... e falhou.

Meses depois, durante o discurso de Lula na sessão solene de 25 de Abril, deputados do Chega ergueram cartazes com frases como «Lugar de ladrão é na prisão». Mais uma vez, Santos Silva reagiu, exasperado: «Chega de insultos, de degradarem as instituições, de porem vergonha no nome de Portugal». Mas é em nome de Portugal e dos portugueses que o Chega reivindica falar de vergonha.

Foi também sem pudor que Ventura afirmou, no Parlamento, que «os turcos não são propriamente conhecidos por ser o povo mais trabalhador do mundo», obrigando os media a procurar indicadores de produtividade turcos. De uma forma ou de outra, Ventura consegue sempre protagonismo. O caso do Bürgerfest é outro exemplo: acusou o Presidente da República de ter ido a um ‘festival de hambúrgueres’ em Berlim, confundindo o termo que designa ‘cidadãos’. Ventura reagiu como sempre: sem se deter em desculpas pelo que disse, avança para acusações que darão trabalho aos jornalistas e lhe garantem visibilidade todos os dias.

Ainda assim, Ventura alega ser o «líder mais insultado do Parlamento», dizendo já ter sido chamado de «aberração», «fascista», «racista» e «animal» em sessões oficiais. Admite que o ambiente parlamentar se tornou mais hostil com a chegada do Chega, mas nunca por causa do Chega.

Uma coisa é certa: o tom do debate parlamentar é hoje outro. A culpa é do Chega, mas também é reflexo da tendência da política atual.