Arranca a terceira edição da Semana da Mama. Quais são os principais objetivos?
Os objetivos de uma Semana da Mama são os objetivos quase internacionais de um mês rosa para chamar a atenção de doenças das mulheres, com especial foco no cancro da mama, porque é uma das doenças que afeta mais mulheres. Dizendo isto, 1% dos cancros da mama não são em mulheres e são em homens e, portanto, a nossa semana também tem isso em conta. Serve para chamar a atenção que ainda é um problema grave. Mulheres e homens devem estar atentos ao seu corpo e devem fazer todos os rastreios que são convidados a fazer que, para que a doença seja apanhada o mais cedo possível. Sabemos que a ciência e a medicina têm solução para 85% das mulheres, que são o cancro da mama primário. Não é preciso ter medo e as mulheres devem percebê-lo o mais cedo possível para termos uma maior probabilidade de se encontrar em fases em que todas as células tumorais ainda estão no tecido mamário. São removidas, são tratadas, há tratamentos, há muitos tumores diferentes, os tratamentos já são cada vez mais precisos, ou seja, evolui-se imenso em ciência.
Então a ciência tem solução.
Uma das mensagens que queremos passar é que a ciência arranjou imensas soluções ao longo das últimas décadas. Se há 40, 50 anos ter cancro da mama era uma sentença de morte, hoje em dia não é e para 85% há soluções. O problema são aqueles 15% para os quais não temos soluções e que os dois problemas principais – e que estão associados um ao outro – são o facto das células tumorais se metastizarem, ou seja, espalham-se para outros órgãos fora do tecido original, que era o tecido da mama e depois começamos a ter dificuldade em como combater isto, porque muitas vezes essas células cancerígenas que se espalharam para outros tecidos o que acontece é que têm resistência aos fármacos que são usados e portanto, com estas duas combinações temos um problema grave. Temos que ainda apoiar ciência, não podemos esquecer todas as mensagens que ficaram para trás nos últimos 20, 30 anos: rastreio, fazer mamografia na idade certa, simplesmente conhecer o seu corpo, fazer a palpação, todas essas mensagens estão lá, mas cada vez é mais importante a mensagem seguinte e a mensagem seguinte é temos que apoiar investigação para aqueles casos de que nós ainda não temos solução.
Os casos em que há metástases...
Sim, são os casos de cancro da mama metastático, e para o qual a ciência ainda precisa descobrir novas formas, novos fármacos, precisa descobrir como o detetar mais cedo. No fundo, a mesma lógica que nós tínhamos para fazer rastreios, mamografias, conhecer o corpo para encontrar o cancro da mama primário o mais depressa possível, temos que fazer um acompanhamento enorme das mulheres que tiveram um cancro da mama para descobrirmos o mais cedo possível aquelas que vão ter tumores que metastizaram, aquelas que vão ter células tumorais noutros tecidos. O objetivo é ter equipas de investigação, por um lado, que estudam os tumores primários e comecem a estudar as características deles para depois perceber no futuro por que razão uns metastizaram e outros não. Sabemos que eles não são todos iguais, mas queremos perceber e quanto mais cedo pudermos pensar, o tratamento já deve ser diferente. Temos que estar mais atentos a estas mulheres que a outras. Por outro lado, estarmos a desenhar formas de o detetar cada vez mais cedo, arranjar novos diagnósticos, que mulheres é que devemos acompanhar, que métodos é que temos para detetar. No fundo, é isto que é a mensagem principal: não podemos esquecer as mensagens que têm estado por trás, de campanhas de sensibilização para o cancro da mama, essas são importantes. Não é por ter deixado de ser uma sentença de morte que não devemos ligar, ela não é uma sentença de morte quando encontramos cedo e portanto é importante continuar a encontrar cedo, mas, no entanto, é preciso muito apoiar a investigação que é feita para encontrar novas soluções para aqueles casos que ainda não temos solução.
Há muitas mulheres que deixam passar...
Claro, e portanto essa mensagem tem de continuar lá. No entanto é verdade que estamos a focar muito numa mensagem de investigação porque os rastreios estão lá, estão à disposição das pessoas, cada vez mais mulheres fazem, portanto isso é ótimo. Mas não podemos sentar à sombra da bananeira para deixarem de fazer, têm de continuar a fazer, mas temos que agora estar preocupada com os outros 15% que ainda não temos solução para esses casos.
E este género de iniciativas também ajuda. Têm muita adesão?
Acho que tem alguma adesão, mas não tem a adesão que nós gostaríamos que tivesse, temos de ser completamente francos. E muitas vezes discutimos se a culpa não é das pessoas em aderir ou não, é se nós estamos a fazer as ações concretas. Temos palestras, workshops, cientistas a conversar com pessoas que já tiveram cancro, sessões em que estão médicos, cientistas e pacientes com cancro da mama e isso é interessante. Mas a verdade é que a nossa vida é provavelmente demasiado ocupada para disponibilizarmos tempo para ir ver um workshop se não tivermos uma amiga recentemente com cancro, ou a nossa mãe, ou seja o que for. Às vezes também temos de nos adaptar a uma forma de estar diferente e estamos num grande processo de discussão interna se o que estamos a fazer é o que chega a mais pessoas, porque o objetivo é chegar a mensagem às pessoas. O objetivo é realmente que as pessoas, uma vez por ano, se lembrem o que é que elas têm de fazer. A verdade é que o GIMM está sempre muito presente nestas ações, seja cancro da mama ou outros. Isto porque a Associação Laço, que no fundo foi a grande financiadora até para a Liga Portuguesa Contra o Cancro de grande parte das carrinhas que fazem rastreio do cancro da mama por todo o país, primeiro em 2013, mas depois em 2018 com mais força, veio ter connosco e disse 'porquê que vocês não tomam conta disto?', porque agora o rastreio está a andar, o que nós percebemos agora é de investigação e portanto vocês deviam até recolher os donativos que as pessoas fazem, etc, para a investigação. Portanto todos os donativos que nós recolhemos os usamos para dois aspetos, um para esta campanha de chegar às pessoas e por isso a nossa campanha tem de ser muito eficiente, para não gastarmos mal os fundos, é gastarmos em chegar ao maior número de pessoas, para continuar a lembrar os rastreios e ao mesmo tempo. Há um lado da nossa campanha, da nossa apresentação na sociedade que achamos que é mesmo importante passar a mensagem que é o porquê de ser tão importante ter ciência, desde a mais fundamental àquela que é aplicada e que parece que é aquela que dá mais.
Qual é a diferença?
Costumo dizer muitas vezes, e é uma coisa fácil para as pessoas perceberem: se eu for a casa de alguém e quiser levar algo, posso levar um ramo de flores ou posso levar um vaso com uma planta. Se eu levar um ramo de flores é provavelmente até muito mais bonito, mas é algo que vai demorar 48 horas, uma semana no máximo. Se eu der um vaso e se a pessoa for capaz de cuidar dele, esse vaso pode durar a vida toda da pessoa, até pode depois ser passado para um jardim da pessoa, para um vaso maior, e portanto pode durar a vida toda. No fundo é o que a ciência faz. A ciência, às vezes, vem com soluções rápidas que são as flores. Mas, no fundo, o que queremos é criar uma floresta inteira, criar exatamente todas aquelas plantas de raiz, plantá-las, criar algo que no futuro não é apenas uma coisa bonita que pomos numa jarra da nossa casa, mas é algo que crie todo um ambiente que é bom para nós, porque nos dá sombra e nos dá frutos, e conseguimos tratar as raízes. Às vezes nem vemos o que é que está debaixo da terra, mas sabemos que temos que tratar aquela terra para dar todas estas qualidades. É isso que a ciência faz e quando me perguntam o que é a mensagem da Semana da Mama, eu diria, há uma mensagem do passado para não esquecer, é de passado, mas é do presente e é do futuro, é a mensagem ‘conheçam o vosso corpo, sejam vigiados, façam os rastreios de cancro da mama nas idades que são indicadas, etc’. Tudo isso é mesmo muito importante, conhecer o seu corpo é também muito importante, principalmente por uma outra característica que está a acontecer agora, que é o surgimento de cancro em mulheres muito jovens, abaixo dos 40 anos. Não são cobertas pelo rastreio, não devem ser ainda. É que também há um perigo de fazer uma mamografia a uma idade muito jovem.
Mas devemos informar-nos disso.
É claro, todos podemos sempre perguntar tudo, ou seja, essa também é outra mensagem importante das ações do GIMM: não há perguntas estúpidas, as pessoas podem sempre perguntar tudo. Mas há, digamos, uma mensagem que já está na nossa sociedade há mais de 20 anos e que é bom que tenhamos uma altura do ano que todos nos lembramos da mesma mensagem: ‘Já apalpaste as tuas mamas? Achas que há algum nódulo na mama ou não?’. Se houver, é preciso ir ao médico. Se estiver na idade de fazer rastreio, deve fazer-se o rastreio todos os anos. A mensagem a seguir que temos que pensar é que há 20, 30 anos, o cancro era mesmo uma sentença de morte, deixou de o ser para 85% dos casos, mas há 15% para os quais ainda não temos solução. Está connosco, está com a sociedade, apoia-nos, porque nós precisamos de dar as respostas agora para o futuro. Por que é que alguns cancros metastizam e outros não, como é que os podemos detetar cedo? Todas estas perguntas estão a tentar ser respondidas aqui. Quer saber mais? Vem, contacta-nos, vem visitar-nos, vem saber nesta semana, faz perguntas, não há perguntas estúpidas, sente à vontade fazer isto.
O GIMM trabalha muitas áreas, não só o cancro da mama.
O GIMM trabalha em muitas áreas. É um instituto de ciências da vida. O que é a ciência da vida? É entender como é que a vida funciona, como é que um organismo, como é que um ser vivo, nasce, reproduz-se, cresce, desenvolve-se e morre. No fundo, isto faz parte de tudo da vida e o GIMM, digamos, tem toda esta componente. E percebemos como é que a vida humana funciona. Muitas vezes temos que perceber como é que outros organismos simples funcionam para percebermos a vida humana. Obviamente também todos nós sabemos, e isso é muito importante, que há mais células não humanas num corpo humano do que humanas. Estamos cheios de bactérias que são essenciais para sermos saudáveis, mas algumas vezes também nos causam doenças. No fundo queremos perceber tudo isto, como é que a fisiologia – não apenas de um ser humano – de um organismo funciona, que depois transportamos isto para a saúde humana. Queremos entender como é que um ser humano se desenvolve, cresce, reproduz, envelhece. E o envelhecer vai desde que nasceu até morrer, como é que envelhece de uma forma o mais saudável possível. Mas depois podemos sair do estado de não sermos saudáveis. Então há investigadores nossos, cientistas nossos que estudam a doença e tentam revertê-la, tentam estudá-la para saber como é que nós, depois de termos perdido um estado saudável, estamos num estado de doença e conseguimos voltar outra vez a um estado saudável. O GIMM é um instituto que engloba todas estas áreas. Se nos perguntarem o porquê de não nos forcarmos numa só coisa, respondo que favorecemos muito as pessoas, ou seja, favorecemos muito as pessoas com as boas ideias. Não queremos nenhuma coisa específica. Queremos pessoas que queiram entender a vida no estado saudável ou doente, queremos que entendam a vida e que tenham as melhores perguntas. Para isso o que é que olhamos? O que é que eles foram capazes de fazer até agora e o que é que eles nos propõem de fazer agora no futuro? No fundo, queremos esta ideia de ideias e as pessoas estarem ligadas a boas ideias. É isto que, no fundo, é a nossa instituição. E esperamos que este conceito seja ganhador para a sociedade toda.
Podemos então dizer que o GIMM já deu uma grande ajuda à medicina nacional e internacional...
Atenção, o GIMM tem um ano de existência. Faz agora a 1 de outubro. Mas não começou do zero. Teve, digamos, um pai e uma mãe, que são dois institutos, um mais velho, que na altura já tinha cerca de 60 anos de idade e o outro que tinha 20 anos de idade. Mas teve um legado reconstruído ao longo do tempo. No fundo, ganhou imenso dessa experiência. Mas quer criar algo diferente. E portanto, sim, acho que nós, todos os dias, contribuímos imenso para a sociedade e para a medicina. Há sempre novas descobertas. Claro que há descobertas enormes e há descobertas mais pequenas. Mas todos os dias há pequenos passos. Não é preciso dar logo o passo enorme. Além disso, estamos sempre a criar e a, no fundo, educar novas pessoas na ciência. Temos mais de 100 alunos de a fazer o doutoramento dentro desta casa. A educação pela ciência é uma educação em que é baseada no método, que se chama método científico, mas no fundo é baseada a fazer perguntas e a tentar encontrar a resposta para essas perguntas. Na maior parte das vezes, o caminho é tortuoso e não se encontra logo a resposta para aquela pergunta, mas encontram-se outras perguntas e vamos encontrando respostas. E isto é uma contribuição enorme para a sociedade. Termos uma sociedade que se consegue questionar e tentar encontrar as soluções de uma forma racional para as suas questões, para aquilo que são os seus problemas, é uma aprendizagem que eu diria que serve para tudo. Uma pessoa quando faz o doutoramento no GIMM, numa instituição científica boa, simplesmente é uma pessoa que deve estar preparada para ir trabalhar e para resolver problemas para qualquer setor.
O GIMM tem um biobanco. Como funciona?
No fundo começou por ser um armazém de amostras humanas. Digamos que a versão mais clássica de um biobanco é mesmo isso. É um local onde armazenamos amostras humanas com um valor e esse valor tem o valor de uma coleção. Imagine que há um cientista, juntamente com um médico estão envolvidos num projeto, numa pergunta. E, para isso, precisavam de ter amostras. Por exemplo, ainda hoje ouvimos falar de tumores cerebrais e até queremos metástases de outros tumores, do cancro da mama, por exemplo, que metastiza muito no cérebro e queremos saber, entender porquê que em algumas mulheres o cancro da mama metastiza no cérebro. Em muitas destas mulheres, se for um foco apenas no cérebro de uma metástase, é feita uma operação, uma cirurgia para retirar essa metástase. Essa metástase é guardada. À partida, se a mulher até já esteve no estudo, provavelmente já deu amostras desde a primeira vez que fez uma biópsia e se é que tinha desconfiança que poderia ser do cancro da mama, fez ao longo dos seus tratamentos, fez biópsias, deu sangue, etc. E agora temos uma metástase no cérebro. E isto é extremamente útil não apenas para aquele estudo que eles estão a fazer. Isto fica guardado e qualquer cientista do mundo inteiro pode ter acesso a isto. Como nós podemos ter a outros biobancos internacionais. Muitas vezes este estudo diz que consegue recolher no próximo ano 50 mulheres, mas, na verdade, para ter um poder estatístico, para ter a certeza daquilo que está a fazer, gostava de ter 150. Então, é bom ir buscar a outros locais. Às vezes até é bom ir buscar a outros locais por termos de diversidade, em termos genéticos, mulheres de diferentes sítios do mundo. No fundo, este é um biobanco do presente. No início era mesmo só armazenar amostras, quando nós começamos em 2012, depois já começou a fazer coleções longitudinais com interesse científico e com interesse que poderiam ser úteis para nós, mas para o resto do mundo. Já doámos amostras para os cinco continentes, mas agora estamos numa nova fase, que é o que nós queremos construir para o futuro: amostras longitudinais. O que gostaríamos de ter eram amostras – não vai ser nunca assim, mas digamos, num mundo ideal – de uma grande amostragem da população portuguesa. Desde que se tornam passíveis de poder dar, desde que vão fazer a primeira análise de sangue da vida, há um bocadinho de amostra que vai para o biobanco. E nós acompanhamos essa pessoa, o historial dessa pessoa, ao longo da sua vida. Esperemos que alguns deles, ou muitos deles, não desenvolvam qualquer tipo de doença ao longo da vida, mas mesmo que não desenvolvam doença, vão envelhecer. E temos grupos aqui que estudam o envelhecimento e querem saber porque é que umas pessoas envelhecem mais rapidamente que outras, como é que eram quando eram jovens, etc. Este estudo longitudinal é perfeito. E começam com saudáveis e, ao mesmo tempo, muitos deles vão ter doença. Estamos a passar à nova fase. Não queremos só ter lá as amostras. Queremos ter as amostras em que nós sequenciamos aqueles indivíduos. Depois, aqueles dados ficam ali, anónimos, só usados com a autorização da pessoa para determinado tipo de estudo. Nós chamamos banco porque, no fundo, funciona como um banco. É isto que gostaríamos de construir para o futuro. É extremamente útil. Nós temos um biobanco com milhares e milhares de amostras já, mas temos de passar a nova fase, que é essas amostras terem informação, que é para nós podermos obter o melhor e mais conhecimento que podemos obter com essas amostras.
Como é que as pessoas podem ter contacto com o biobanco?
Muitas vezes fazemos campanhas. Na Semana da Mama as pessoas podem ir, durante todo o dia, das 10h às 18h e passar a ser contribuidores para o biobanco. E podem fazê-lo mesmo sendo saudáveis. Uma das nossas melhores coleções é a coleção de saudáveis, e que é muito requisitada no mundo inteiro, porque temos de todas as idades. Um sonho que tenho é que toda a gente que vai dar sangue a qualquer laboratório de análise, seja membro do biobanco. Restos de sangue que não são usados para análise mas pode ser urina, fezes, saliva... Temos amostras de todas estas áreas dentro do biobanco. O biobanco passaria a ter sempre aquela pessoa ali. Ainda não estamos lá, ainda temos um caminho a fazer para termos a capacidade para fazer isto tudo. Isto tudo requer uma enorme capacidade também de financiamento.
Fazem falta mais apoios à ciência?
Muitos mais... Para que as pessoas possam perceber: os nossos cientistas, com os seus projetos, geralmente são eles próprios que escrevem projetos e que se financiam às mais diversas fontes de financiamento. E elas podem ser públicas, nacionais, da União Europeia, podem ser internacionais, mesmo públicas internacionais. Mas há também um lado que nós às vezes esquecemos, que é o envolvimento de todos nós. Fiz o meu doutoramento no Reino Unido e havia institutos maiores que o GIMM em que 95, 99% do financiamento era financiamento de indivíduos, através de campanhas de fundraising. Uma delas era o Imperial Cancer Research Fund, que agora já está no Cancer Research UK e que fundiu com outro instituto para formar o CRI, um bocado como o GIMM, um instituto grande. Quando eu estava lá chegava-nos um envelopezinho, tipo o CTT. Havia uma parceria entre os CTT locais e o Imperial Cancer Research Fund, e em todas as caixas de correio era posto o envelope. E o objetivo era que cada casa desse uma libra por pessoa que vivia em casa. Ora, na minha casa viviam duas pessoas, nós às vezes púnhamos dez libras ou vinte libras. O que pudéssemos, éramos estudantes na altura. Ninguém é obrigado a dar mas haveria com certeza pessoas que não dessem nada. Mas a verdade é que com isto financiavam todo um programa de investigação em campo incrível. Nós somos dez ou onze milhões de pessoas a viver em Portugal, portanto, isto faria imensa diferença a institutos de investigação em Portugal. O que eu estou a dizer é que eu acho que temos que também pensar que todos nós podemos participar e também podemos ajudar a que problemas que agora ainda não tenham solução, apostar na ciência para encontrar essa solução.
Numa entrevista que nos deu há 12 anos dizia que era muito nova e que não aguentava o ritmo. Parece-me que vai aguentar o ritmo.
Tento (risos). Ainda disse isto outro dia, que é: Se fosse há 10 anos, acho que não tinha... Por isso é que as pessoas têm de ter uma certa maturidade para fazer as coisas. Acho que tinha energia, acho que até tinha mais energia há 10 anos atrás do que tenho agora, obviamente. Mas acho que ia ficar tão stressada... O envelhecimento é um processo muito interessante, não é? Porque a pessoa perde energia, obviamente, não tem as mesmas capacidades. Mas ganha em capacidade até de resolução de problemas, com uma calma diferente. Nos últimos dois anos que começámos a fazer esta fusão e a criar o GIMM, acho que os problemas que eu tive, se tivessem sido há 10 anos atrás, já me tinha dado um ataque cardíaco várias vezes. E hoje em dia é muito engraçado porque penso: Calma. Vamos dormir sobre o assunto. Amanhã a solução aparece. Acho que há um lado racional da pessoa, que acho que sempre foi racional, porque obviamente fui treinada para ser cientista, portanto tenho um lado racional muito forte, mas também há um lado emocional que amadurece com a vida e que ajuda com o lado racional pense bem antes de tomar as decisões, etc. Não sei se aguenta ou não em termos de energia, tenta aguentar.
Apesar de ser CEO do GIMM, continua a trabalhar na malária. Como surgiu na sua vida?
Surgiu há muitos anos atrás e foi por uma coincidência. Estava a fazer o mestrado e todos sabiam o que queriam fazer. Já eram mais velhos, uns dois anos, mas nessas idades nota-se muito. Disseram-me que podia entrar se passasse os exames todos até o dia tal. Acabámos os exames e entrei. Era muito jovem e não fazia nenhuma ideia daquilo que queria fazer. Só que um dia, numa destas aulas, já estava a ficar um bocado aflita porque todos já sabiam o que queriam fazer e eu ainda não sabia. Já era abril e as aulas iam acabar em maio, junho. E, de repente, vi uma pessoa a trabalhar com uma imagem de um parasita que não era da malária, era da leishmania, que causa leishmaniose nos cães e nas pessoas também. Mas em Portugal as pessoas conhecem mais nos cães. E eu fiquei fascinada com aquilo porque é um parasita que escolheu uma sala do nosso sistema imune que foi criada e evoluiu para combater tudo que é estranho e o parasita é estranho a nós. E, no entanto, o parasita entra nela e consegue modificar a célula para ela não se aperceber que ela está lá dentro. E para viver bem com ele. E, portanto, esta ideia de que dois organismos evoluíram para aprenderem a viver um com o outro, para mim, fascinou-me. No dia seguinte, lembro-me perfeitamente do professor que veio dar reforço sobre a malária e, portanto, associando uma coisa à outra, vou trabalhar em malária. E foi uma coincidência na vida e acabei apostar sempre a trabalhar em malária.
E que já lhe valeu vários prémios.
Vamos fazendo o nosso melhor.