A ModaLisboa regressa à capital de 1 a 5 de outubro com a sua 65.ª edição, BASE, uma celebração da moda enquanto plataforma de diálogo.
Mais do que apenas um desfile de tendências, esta Lisboa Fashion Week desafia-se a repensar fórmulas, caminhos e propósito, mas também novas formas de estimular os negócios dos designers portugueses numa cidade cada vez mais global. Para esta edição, a VERSA falou com alguns dos talentos nacionais que vão apresentar as suas coleções primavera/verão 2026.
Gonçalo Peixoto: “O grande foco para os próximos anos será sempre a internacionalização e a expansão”
O designer português Gonçalo Peixoto está de regresso à ModaLisboa com uma coleção com referências “ao antigamente” e um estilo muito fresco para a primavera/verão 2026.
Gonçalo Peixoto tem sido presença assídua na Lisboa Fashion Week e um dos designers de eleição de atrizes como Margarida Corceiro ou Madalena Aragão e de digital influencers como Mariana Machado e Anita da Costa. À VERSA fala sobre o momento e os planos para o futuro da marca.
Nesta edição da ModaLisboa, o que podemos esperar da nova coleção?
Esta coleção vai ser versátil, divertida, com muita cor e padrões, mesmo à imagem daquilo que um look de verão pede.
Que inspirações principais guiaram o processo criativo desta temporada?
Esta temporada foi muito guiada por referências ligadas ao “antigamente”. Se tivéssemos de vestir a mulher dos anos 30 ou 40, como se vestiria em Gonçalo Peixoto? Procurámos cruzar este paralelismo temporal com um estilo de verão fresco, leve e divertido, com muita cor.
O seu trabalho é muitas vezes associado a uma estética jovem e irreverente. É possível equilibrar isso com a maturidade crescente da marca?
Sim, sem dúvida. A minha marca e coleções mudaram muito desde que comecei, há 10 anos. Ser irreverente é importante para mim, porque está na base daquilo que é a marca Gonçalo Peixoto, mas esta característica tem vindo a adaptar-se e tem trazido um equilíbrio com um mood mais sofisticado.
De que forma a ModaLisboa continua a ser relevante para si, enquanto designer português com uma marca já reconhecida internacionalmente?
A ModaLisboa é uma plataforma fundamental em Portugal. Foi muito importante para mim desde o início da minha carreira e tem sido aqui que partilho o meu trabalho com um público, há 7 anos, todas as temporadas. Será sempre um espaço de criatividade muito importante para a moda portuguesa e, para mim, é um orgulho estar presente há tantos anos.
O público e as redes sociais têm tido um papel importante no seu percurso. Isso tem tido impacto nas criações que tem vindo a apresentar?
Por norma, estou muito atento ao que as pessoas procuram. Perceber a forma como o público se veste e conjuga as peças influencia, naturalmente, o processo de criação. Queremos peças que não sejam apenas para desfile, mas que sejam também adequadas ao quotidiano da mulher que as veste.
Quais os próximos passos para a marca Gonçalo Peixoto?
O grande foco para os próximos anos será, sempre, a internacionalização e a expansão nesses mercados internacionais. Queremos, também, garantir que o nosso crescimento é responsável e consciente e reforçar a sustentabilidade do processo de produção. De resto, pretendemos manter o mesmo espírito inovador e autêntico tão característico da marca Gonçalo Peixoto.
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Gandaia: “É fundamental permanecer coerente para manter o nosso público e agregar valor à marca”
O que significa a expressão tão portuguesa “Volte Sempre” agora interpretada na coleção que a Gandaia leva à ModaLisboa? Os fundadores da marca (também tão portuguesa) respondem.
Primeiro, foi Mustique, agora é Gandaia. A marca fundada por dois amigos de infância, Vera Caldeira e Pedro Ferraz, é uma das presenças na 65.ª edição da ModaLisboa, que tem como tema “Base”. Já na base da nova coleção da Gandaia está uma expressão bem portuguesa, “Volte Sempre”, que pretende homenagear as nossas raízes ao trazer novos cortes e silhuetas, que vão ter lugar nos looks de primavera/verão 2026. A Gandaia é a versão mais madura da anterior Mustique, que tem como objetivo estabelecer-se em Portugal e além fronteiras, sem limites. No fim, a ideia é que todos reconheçam uma peça Gandaia, sem que seja preciso dizê-lo.
Da Mustique à Gandaia, o que motivou a mudança?
Queríamos crescer além dos limites e precisámos pensar como o poderíamos fazer. A Gandaia surgiu no processo criativo de expandir a Mustique. Dizemos que é a versão 2.0, mais madura, que bebe muito da nossa primeira marca, mas ganha vida com algumas novas características, a juntar aos padrões, temos agora opções mais clean e neutras.
Como foi esse processo de evolução?
Foi muito natural. À medida que fomos crescendo, a marca e nós, enquanto empreendedores, fomos construindo a nossa própria visão da moda. O mercado evolui e quisemos evoluir também. O tempo foi-nos dando as respostas que precisávamos e, achamos nós, no momento certo, fizemos a transição. A aceitação do nosso público tem sido muito positiva.
A Gandaia nasce com uma forte ligação à autenticidade e à liberdade. De que forma esses valores se refletem nas peças?
Nós procuramos inspiração nas coisas mais simples da vida: nas ruas que atravessamos várias vezes ao dia, nas pessoas que se cruzam connosco, nas várias cores do sol em Lisboa, nos azulejos mais antigos. A autenticidade e a liberdade das peças Gandaia são um espelho do que os nossos olhos veem e isso dá-lhe, no nosso entender, uma identidade muito própria.
A ModaLisboa é uma montra de grande visibilidade. Que mensagem pretendem transmitir ao público e à indústria com a nova coleção?
Já é a segunda vez que o fazemos. Sabemos que a ModaLisboa é uma montra de grande visibilidade, mas mais do que ser visto, queremos unir-nos a quem faz pela moda em Portugal. Ter uma marca, contribuir para a indústria, apostar em fábricas e mão de obra nacionais é o que nós já fazemos desde 2020 – momento que começámos a produzir exclusivamente em Portugal. Acreditamos que é necessário ir mais além, fazer parte da história, ter uma voz e fazer-nos ouvir. Fazer parte da ModaLisboa dá-nos uma nova dimensão e permite-nos contribuir de forma mais ativa para o setor.
“Volte Sempre” é uma expressão muito portuguesa. O que vos inspirou a transformá-la no fio condutor da coleção primavera/verão 2026?
Acreditamos muito no poder de uma boa expressão portuguesa. “Volte Sempre” traz a todos os portugueses a mesma sensação de pertença. Num restaurante, numa loja, habituámo-nos a ouvi-la. Queríamos homenagear as nossas raízes. A nova coleção de verão 2026, que agora apresentamos, traz novos cortes e silhuetas, e reforça a evolução da Gandaia – mais madura e elegante, mas sempre irreverente.
Como conciliam a identidade portuguesa da Gandaia com a ambição de conquistar mercados internacionais?
Precisamente para levar o que de melhor se faz em Portugal, além-fronteiras. As nossas lojas físicas recebem muitos turistas e online também vendemos muito para fora. Portanto, para nós, faz todo o sentido fazer este caminho. E mais do que falarmos outras línguas ou tentarmos adaptar-nos a outros mercados, queremos é que se aproximem da nossa identidade, da nossa cultura, do que nós somos.
A marca combina irreverência contemporânea com sofisticação clássica. Como equilibram essa dualidade sem perder a coerência estética?
Essa fusão acontece de forma muito natural. Procuramos elevar a qualidade das nossas peças, sempre em busca dos melhores tecidos e das técnicas de produção mais sustentáveis. E aliamos isso às cores, aos padrões e à criatividade que já faz parte do ADN Gandaia. Sabemos que é fundamental permanecer coerente para manter o nosso público e agregar valor à nossa marca.
Que papel gostariam que a marca desempenhasse no panorama da moda portuguesa e internacional nos próximos anos?
Queremos estabelecer a marca em Portugal e em mercados internacionais. Continuar a crescer, porque não temos limites. Sabemos que ter uma marca em Portugal é um desafio, por si só. Mas nós somos persistentes e acreditamos muito naquilo que estamos a construir. O nosso maior desejo é reconhecerem a marca, naturalmente, sem precisarmos dizer “é Gandaia”. Reconhecerem a qualidade nas nossas peças e uma imagem que seja tão nossa que se torne inquestionável.
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Roselyn Silva: “A moda lisboa é apenas o início de uma nova década de conquistas”
Falámos com Roselyn Silva sobre a sua grande estreia na ModaLisboa, as suas origens, a nova coleção e o futuro.
Roselyn Silva nasceu em São Tomé e Príncipe, mas, com apenas quatro anos, mudou-se para o nosso país à beira mar plantado. Nunca esqueceu as suas raízes e, em meados de 2015, ao criar a sua própria marca decidiu apostar (algo que continua a fazer) em criações que destacam os prints e tecidos de inspiração africana, conjugando-os com a energia cosmopolita de Lisboa.
E, agora, no ano em que a marca celebra o seu 10.º aniversário, integra, pela primeira vez, o calendário da ModaLisboa, momento para falarmos com a designer sobre as suas origens, a nova coleção e o futuro.
Como começou o caminho no design de moda?
Começou com a paixão pelos tecidos, pelas cores, pelos padrões que me ligam às minhas raízes africanas. Com o tempo, esse impulso inicial transformou-se numa linguagem própria que hoje define o ADN da Roselyn Silva.
O que sente ao viver a primeira experiência na ModaLisboa?
Sinto-me muito grata e emocionada. Este é o palco certo para celebrar uma década de percurso e mostrar ao público como a marca cresceu, amadureceu e continua a reinventar-se.
O que significa este momento, a nível pessoal e profissional?
É uma consagração. Pessoalmente é um orgulho trazer a minha identidade africana e lusófona para um evento de referência em Portugal. Profissionalmente, é um passo que marca esta nova fase da marca, em que celebramos 10 anos de história com uma coleção que olha para o futuro.
O que podemos esperar do desfile?
Podem esperar uma celebração. É a primeira vez que a marca sobe à passarela da ModaLisboa, e para mim é simbólico que aconteça no ano em que celebramos 10 anos de história. O público vai ver dez coordenados que transitam entre ousadia e sofisticação, sempre com o ADN da marca presente. Mas o especial estará no diálogo que criei: peças statement em afro e clássicos em tecidos lisos. É esse jogo inesperado que quero partilhar - tradição e inovação lado a lado, como um reflexo da minha própria jornada.
Que referências marcam mais o seu trabalho?
A cultura africana é a minha base, mas também Lisboa, a sua energia cosmopolita e a ligação entre mundos. Gosto de criar esse diálogo entre tradição e inovação, entre identidade e sofisticação contemporânea.
Podemos conhecer melhor esta nova coleção?
Chama-se “Legacy Part II”. É a continuidade de um percurso que revisita best-sellers da marca, dando-lhes novas proporções, volumes e tecidos. Trabalhei pele, veludo e novas texturas de seda, sem nunca deixar de lado o ADN da marca.
Porquê a necessidade de dar continuidade a esta coleção, a Legacy, e não em começar uma nova e diferente? Que best-sellers vamos (re)encontrar nesta Part II?
A “Legacy Part II” nasce de uma vontade de revisitar o caminho feito. Legacy representa maturidade, crescimento, transformação. Mais do que lançar algo totalmente novo, senti que era o momento de olhar para trás e reinterpretar best-sellers que marcaram a identidade da marca nestes 10 anos. Peças icónicas surgem agora com novas proporções, volumes e materiais. É uma forma de honrar o passado e ao mesmo tempo apontar para o futuro.
Que tipo de tecidos e técnicas vamos encontrar?
Nesta coleção trabalhei materiais que trazem novas linguagens - pele, veludo e diferentes texturas de seda. Eles convivem com os prints e tecidos de inspiração africana que são a essência da marca. Gosto de pensar no processo como uma fusão: técnicas de alfaiataria cuidadosa, que dão estrutura e elegância, misturadas com a ousadia dos padrões e a fluidez das texturas.
O que espera que o público leve consigo depois de ver o desfile?
Espero que sintam a força de uma mulher cosmopolita e internacional que pode usar estas peças em qualquer latitude. E que percebam que a marca é feita de identidade, mas também de evolução constante.
Como é ser designer de moda em Portugal? Que oportunidades e desafios tem sentido?
Portugal é fértil em criatividade e talento, mas também desafiante em termos de escala e projeção. É preciso criar oportunidades e sonhar além-fronteiras. Para mim, o desafio tornou-se motor de crescimento.
Que próximos passos estão pensados após esta estreia?
Quero expandir a marca internacionalmente, reforçando esta ponte entre África, Portugal e o mundo. A ModaLisboa é apenas o início de uma nova década de conquistas.
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Luís Carvalho: “Temos uma herança artesanal muito forte e isso permite-nos criar peças onde tradição e inovação caminham lado a lado”
Luís Carvalho tem sido presença assídua na ModaLisboa desde a sua estreia (em 2013). Falámos com o designer sobre a coleção que apresentou para a estação quente do próximo ano e os planos para o futuro da sua marca
Como nasceu a ideia do conceito desta nova coleção?
É uma coleção muito rica em texturas, movimento e mistura de cor. O conceito nasceu da ideia de criar uma nova base têxtil onde junto várias fitas acetinadas de cores e tamanhos diferentes que nos remetem a um dos tecidos utilizados na coleção. Surge aqui então a ideia de união, principalmente vivendo nós numa época marcada pela divisão e pela desarmonia, é quase como uma celebração evocativa do amor!
Que imagens, memórias ou referências serviram de inspiração?
Tive como referências várias imagens de obras de artistas plásticos, mas destaco alguns trabalhos do artista Ian Davenport, compostos por essa mistura de cores e quase de uma geometria orgânica que estará muito presente na coleção. Já a paleta une o verde, o amarelo mostarda, o roxo e o azul-petróleo que fluem como uma paisagem em transição, suavizada com a tonalidade do cru.
Que tipo de materiais escolheste?
As matérias-primas predominantes são definitivamente mais acetinados, como o jacquard de riscas que foi o ponto de partida para a seleção dos restantes materiais que tem esse aspeto mais brilhante e que me levou às fitas da construção da superfície têxtil que já referi, assim como os cetins utilizados na restante coleção.
Houve algum desafio técnico ou criativo marcante nesta temporada? Que peça ou coordenado consideras o coração da coleção?
O maior desafio foi a construção das peças que levam este trabalho mais artesanal, onde construímos o tecido cosendo cada fita individualmente, tendo que haver precisão para que todos os moldes batam certo. Por isso, sem duvida que todos os coordenado construídos com esta técnica são o coração da coleção.
Consegues descrever a coleção em poucas palavras?
Union atravessa dualidades de estilo: abertura e contenção, minimalismo e opulência, tradição e inovação. O resultado é uma espécie de geometria orgânica – formas que respiram, expandem e respondem ao movimento. Cada peça é uma proposta de coexistência.
Que tipo de pessoa veste Luís Carvalho?
Uma pessoa que veste LUÍS CARVALHO, é sem dúvida uma pessoa com personalidade, que gosta de arriscar, e que tem um estilo que mistura o casual com o mais formal.
Como vês a tua evolução desde as primeiras coleções até agora?
Vejo uma evolução positiva. As coleções têm muito mais consistência e qualidade. A parte da alfaiataria cresceu imenso e tornou-se um pouco o core do ADN da marca. A própria maneira como construo as coleções é diferente, são mais pensadas e de certa forma sinto que são mais harmoniosas de estação para estação.
Tens algum ritual ou rotina que ajudem a entrar no processo criativo?
Não há um ritual, mas já sei que não vale a pena forçar quando o processo não está a fluir, é preferível parar e deixar para outro dia para não criar frustrações. Mas sem dúvida que ver revistas, livros de moda, exposições, viagens, ouvir música é um bom ritual para entrar no processo criativo.
O que mais te entusiasma em trabalhar no mundo moda?
Sem dúvida que criar as coleções e ver o entusiasmo de um cliente a experimentar uma peça minha. O sorriso de entusiasmo é priceless!
É fácil em Portugal? Que desafios existem?
Trabalhar em moda em Portugal não é fácil. Há a questão da produção, apesar de termos uma indústria têxtil riquíssima, nem sempre é fácil conciliar a inovação com os custos de desenvolvimento. Mas acredito que é precisamente nesses obstáculos que reside o desafio: procurar caminhos, reinventar e resistir.
O que distingue a moda portuguesa?
Temos uma herança artesanal muito forte e isso permite-nos criar peças onde tradição e inovação caminham lado a lado. Além disso, sinto que existe uma autenticidade na moda portuguesa, uma vontade de contar histórias próprias sem perder a ligação.
Como imagina a moda nacional daqui a dez anos?
Imagino uma moda portuguesa cada vez mais afirmada a nível internacional, com mais espaço de visibilidade e reconhecimento. Vejo-a sustentável, não só em termos ambientais, mas também humanos, com marcas e criadores a valorizarem processos conscientes e transparentes.