Com tantos candidatos a ir a jogo para Belém, como pode alguém destacar-se dos outros? É um desafio enorme quando batemos o record do número de presentes nessa corrida. Luís Marques Mendes já orgulhosamente se posicionou como o homem do sistema, da racionalidade da democracia e do equilíbrio dos poderes. António José Seguro, que não se importaria nada que o PS não o apoiasse, pois conta com as maravilhas do apoio da máquina do partido no terreno e não precisa do PS com o qual cortou depois de ser derrotado por António Costa, sem esquecer que foi o único a rachar a herança do socratismo quando os outros camaradas fingiam que não viam nada, afirma-se apartidário. André Ventura, musculado pelo crescimento do Chega, quase um milagre em apenas seis anos, mantém a bitola de ser o homem antissistema.
O almirante Gouveia e Melo criou até agora o melhor soundbyte da campanha. Referiu que estas eleições presidenciais pareciam uma segunda volta das legislativas, derivado ao facto de praticamente todos os partidos terem a sua aposta própria. Algo inusitado, porque esta corrida assenta no afã de um homem e não dos caprichos das máquinas partidárias. Ora, o almirante acertou no leme que quer agarrar e de barcos percebe muito mais ele do que os outros rivais. Gouveia e Melo ousou avançar sem olhar a cores nem a vontades da classe política. Foi uma decisão unipessoal, exclusivamente fruto do seu pensamento e desejo. Com essa independência, irá navegar a onda de desconfiança dos portugueses nos partidos, algo que é gasolina em praticamente todos os regimes democráticos espalhados pelo mundo. É uma opção que não custa muito, aliada ao facto de por ser militar granjear uma aura de autoridade e respeito que um político comum não tem. E essa é uma sua inestimável marca de água.
O segundo pilar distintivo da sua candidatura é a face anti-Marcelo. Historicamente, os ciclos de poder ensinam-nos que depois de um perfil mais distendido e afetivo, surge a necessidade da comunidade de mudar para uma personalidade com mais ‘gravitas’ e rigor. Marcelo Rebelo de Sousa era um homem muito popular, robustecido por anos e anos de comentário televisivo simpático. Teve a sua coroa de glória após a tragédia de Pedrógão, quando os portugueses sentiram que aquela gente precisava de um abraço caloroso do inquilino de Belém.
Contudo, a sua atração fatal por microfones, levando-o a falar de tudo e de nada, o excesso de selfies e o caso das gémeas, que rompeu o elo que construiu com o País, esmagaram por completo a reputação de Belém. A verdade é granítica: Marcelo banalizou a sua função e a instituição que devia preservar. Shakespeare, que compreendia como ninguém o poder, refletia na sua brutal tragédia de ‘Tito Andrónico’: «As águias deixam que os passarinhos cantem, sem nenhuma preocupação com o seu trinado alegre, certas de que com a sombra das suas asas poderão reduzi-los ao silêncio». Marcelo Rebelo de Sousa, homem culto, conhece muito bem as obras do autor, contudo tem um problema inultrapassável: ele e o silêncio são incompatíveis. Gouveia e Melo é o contraste total com o professor. O silêncio será outra das características que quer impor, como corolário da sua marca anti-Marcelo.
Comentador CNN