Turismo. Tábua de salvação da economia portuguesa

Responsável por 12% do PIB e por mais de 400 mil empregos, o setor enfrenta sérios desafios: ‘qualidade, segmentação e melhor distribuição territorial’.
Turismo. Tábua de salvação da economia portuguesa

O peso do turismo na economia portuguesa é inegável: já vale perto de um quinto da economia e sustenta mais de 400 mil empregos. Os responsáveis do setor consideram que, apesar das críticas de uma excessiva dependência desta atividade económica, há espaço para continuar a crescer. E há quem defenda que a aposta terá de passar por um aumento em termos de valor e por uma maior descentralização.

«Além de ser um dos maiores contribuintes para o PIB nacional, com um peso de cerca de 12%, o turismo é também a principal atividade exportadora do país e gera oportunidades e cria dinâmicas que são vitais para a coesão social e territorial do país. É, pois, uma força positiva para o país, para a economia e para as pessoas», diz, ao nosso jornal, o porta-voz do Turismo de Portugal.

E reconhecendo que tem um maior impacto em setores como o alojamento, a restauração e as atividades culturais ou de animação, lembra que o turismo «tem o poder de impulsionar quase todos os setores. Desde o agroalimentar e derivados do setor primário, à indústria da construção e reabilitação urbana, apenas para dar um exemplo do setor secundário, até toda uma gama de produtos e serviços ligados às atividades do setor terciário».
Uma opinião partilhada por Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do banco Carregosa: «O turismo tem assumido um papel cada vez mais central na economia portuguesa, tendo-se tornado num dos principais motores de crescimento». De acordo com o INE, o setor representou cerca de 12% do PIB em 2024, cerca de 34 mil milhões de euros, o valor mais elevado de sempre. «Esta evolução tem sido acompanhada por um forte crescimento das exportações de serviços turísticos, que atingiram 27,7 mil milhões de euros em 2024, segundo o Banco de Portugal, ajudando a compensar o défice comercial de bens e a reforçar a balança corrente», nota o economista, chamando também a atenção para o impacto positivo no mercado de trabalho, correspondendo a aproximadamente 6,4% do emprego total no país.

No entanto, reconhece que este peso lança desafios. Nomeadamente a «dependência excessiva de um setor altamente volátil e sujeito a choques externos, como se verificou durante a pandemia». A estes riscos «acresce a pressão sobre a habitação e sobre o espaço urbano, sobretudo em Lisboa, Porto e no Algarve, onde o alojamento turístico compete com a habitação permanente e contribui para a subida dos preços. Há ainda a questão da sazonalidade, com uma concentração muito forte da procura nos meses de verão, o que limita a estabilidade do emprego e das receitas ao longo do ano», lembra ao Nascer do SOL.

Habitação penalizada
Muito se assume que os elevados preços da habitação em Portugal, principalmente nas grandes áreas de Lisboa e do Porto, têm uma ‘mãozinha’ do crescimento do turismo no país. Os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram mesmo que o preço das casas em Portugal aumentou 17,2% no segundo trimestre deste ano quando comparado com o mesmo período de 2024.

Paulo Monteiro Rosa avisa que «a inflação e o aumento do custo de vida em Portugal significam que a estadia no país pode ficar mais cara do que nos anos anteriores», detalhando que «o preço do alojamento, da restauração, dos transportes e até de atividades culturais ou de lazer subiu, o que pode reduzir a perceção de Portugal como destino ‘barato’ na Europa».
O economista acrescenta ainda que «este efeito é ainda mais evidente quando se compara Portugal com destinos concorrentes no Mediterrâneo, tanto no sul da Europa como no norte de África, onde os custos de viagem e de estadia tendem a crescer mais moderadamente, tornando Portugal relativamente mais caro».

Apesar disso, diz que o nosso país «continua a beneficiar de uma relativa boa relação qualidade-preço, de uma oferta diversificada e de uma imagem internacional sólida». E não hesita: «Mesmo com preços mais altos, a procura tem-se mantido forte, mas a médio prazo a competitividade poderá ser posta à prova se a inflação se mantiver acima da média de outros destinos turísticos».

‘Excesso de hotéis?’
Apesar das ‘acusações’, a vice-presidente da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), Cristina Siza Vieira, descarta a responsabilidade do setor pelos preços praticados na habitação e afasta um cenário de excesso de oferta. «‘Excesso de hotéis’? Excesso em que razão de parâmetros?», questiona ao Nascer do SOL. «A hotelaria não é a responsável pela crise na habitação, responde à procura turística e compete com outros destinos, não com o mercado habitacional. O tema da habitação resolve-se com políticas públicas, planeamento urbano, licenciamento célere e oferta pública e privada de arrendamento. Apontar o dedo aos hotéis é fácil, mas é errado», afirma.


Então há mais espaço para abrir novas unidades, sobretudo em Lisboa e no Porto? Cristina Siza Vieira atira: «Onde há procura qualificada, há espaço. Mas não mais do mesmo. Nas grandes cidades só faz sentido produto diferenciado e requalificação. O foco tem de ser qualidade, segmentação e melhor distribuição territorial».
E volta a referir que «o travão real, hoje, não é o ‘excesso’ de hotéis: é a capacidade aeroportuária e a experiência à chegada, sobretudo em Lisboa. Enquanto não se resolverem as questões do aeroporto de Lisboa e de mobilidade, o crescimento está condicionado».

Descentralização é a palavra de ordem
A ideia de que o turismo está maioritariamente concentrado nos grandes centros urbanos não é totalmente descabida. No entanto, essa tendência tem vindo a alterar-se ao longo dos anos e tem havido uma grande descentralização do setor.

Essa tendência é boa para as regiões mais do interior, assume o Turismo de Portugal. «A nossa prioridade é descentralizar a atividade turística e torná-la menos sazonal, ou seja, levá-la a todo o país e estendê-la ao longo de todo o ano», assume a entidade, defendendo que «esta abordagem responde diretamente a uma forte tendência da procura global, que valoriza cada vez mais o que é autêntico e genuíno».

«Felizmente», adianta o Turismo de Portugal, «o nosso interior e as zonas menos exploradas são riquíssimos nesta oferta», apontando como exemplo, as Aldeias Históricas e as Aldeias do Xisto na região Centro, entre outros. O objetivo «é replicar este sucesso ao utilizar o turismo como uma força para o crescimento económico e para a coesão nacional, de forma a fomentar um maior equilíbrio entre o litoral e o interior do país».

Questionado sobre se há riscos de saturação turística em algumas zonas, a entidade defende que a estratégia «assenta na gestão cada vez mais inteligente do território e dos seus fluxos» e que a ideia «é garantir o equilíbrio entre a atividade turística e a qualidade de vida dos residentes, de forma a assegurar que o turismo deixa uma pegada positiva. Isto implica investir na melhoria da mobilidade e das infraestruturas, mas também inovar no desenvolvimento de novos produtos turísticos que promovam a dispersão dos fluxos para novas zonas». Até porque, criando pontos de interesse e rotas alternativas, «conseguimos, por um lado, equilibrar os fluxos pelo território e, por outro, promover a criação de riqueza e emprego em todo o país, o que contribui para um desenvolvimento mais sustentável e coeso».

O que esperar
Para Cristina Siza Vieira, as perspetivas para o setor são «positivas e exigentes», lembrando que, em 2025, o setor está acima de 2024 em hóspedes, dormidas e receitas, com o Algarve, a Madeira e os Açores muito sólidos. Mas deixa um recado: «Não pode haver euforia: custos altos, guerras, competição com outros destinos e falta de pessoas continuam na lista. A prioridade é clara: melhorar acessibilidades, qualificar pessoas e gerir bem o território».