No final da Antiguidade e inícios da Idade Média, os homens da Igreja empenharam-se, por razões óbvias, em desacreditar a astrologia e a mitologia pagã. Entre as divindades do panteão clássico mais caluniadas e vilipendiadas encontra-se Saturno. Deus da agricultura e das colheitas entre gregos (sob o nome de Cronos) e romanos, durante a Idade Média foi representado como um humilde camponês, por vezes até com uma perna de pau. Um dos seus atributos, a foice, tinha uma dupla leitura: instrumento usado na agricultura, era também a arma com que Cronos, segundo a mitologia, tinha castrado o seu pai Úrano, atirando depois os genitais para o mar…
Em finais da Idade Média, a reputação de Saturno estava tão em baixo que um autor alemão escrevia em 1495: «Dos planetas, Saturno é o mais alto, o maior e o mais indigno; frio e seco, é o mais lento no seu curso. [...]; é o planeta dos homens perversos e indignos, magros, morenos e secos; dos homens imberbes com cabelos brancos, que usam roupas sujas. Os filhos de Saturno têm corpos deformados, tez escura e cabelo preto [...]; são traiçoeiros, vis e tristes, amam as coisas impuras, preferem as roupas sujas ao linho fino; são devassos, não gostam de andar com mulheres nem de passar tempo na sua companhia; têm por natureza dentro de si tudo o que é mau. A hora de Saturno é a hora do mal. A essa hora Deus foi traído e entregue à morte».
O trecho é citado por F. Saxl, E. Panofsky e R. Klibansky no livro Saturne et la Mélancolie, onde traçam o percurso ao longo dos séculos do deus-planeta e desse estado de alma que lhe é associado.
Com a chegada do Renascimento, dá-se uma reviravolta. Saturno já não é tanto o deus dos pobres e dos doentes como aquele que rege a vida dos intelectuais, criadores e teólogos. Essa mudança deve-se em grande medida ao filósofo Marsilio Ficino (1433-1499), que associava a melancolia ao espírito contemplativo, o mais alto grau na hierarquia das faculdades da alma. Era verdade que Saturno trazia a tristeza e o abatimento; mas aqueles que se encontravam sob a sua influência podiam salvar-se através da contemplação.
Saturno tinha sido reabilitado.
É nesse contexto que o artista alemão Albrecht Dürer cria a sua famosa gravura Melencolia I, de 1514, que Saxl, Panofsky e Klibansky analisam detalhadamente. Foquemo-nos nos principais elementos: uma bela mulher com a cabeça apoiada numa mão e segurando um compasso na outra; atrás, um poliedro (Dürer faz por associar a imagem da Melancolia à da Geometria, uma das artes liberais); um cão encolhido, verdadeiro prodígio de observação e ternura. Sobre este, dizem os autores: «Não apenas se encontra mencionado em várias fontes astrológicas como animal típico de Saturno, mas […] é associado à disposição dos melancólicos em geral, e dos sábios e dos profetas em particular».
A mulher tem ao seu dispor todos os instrumentos de que precisa para criar; mas parece tolhida por um estado mental incapacitante. Hoje chamar-lhe-íamos talvez depressão. À sua esquerda, em cima da roda de uma mó, um putto (uma espécie de anjinho pagão) escrevinha qualquer coisa. Será esta criança despreocupada, que faz as coisas sem pensar muito nisso, o contraponto da paralisada Melancolia?
De todos os enigmas que a gravura encerra, um dos que continuam a suscitar mais discussão é o título, ostentado por um morcego de asas abertas (símbolo do trabalho nocturno que desgasta a saúde). Melencolia I? Ia haver uma segunda? Os autores acreditam que sim. Enquanto a primeira imagem seria uma representação da melancholia imaginativa, a segunda sê-lo-ia da melancholia rationalis. E, como não há duas sem três, culminaria numa Melencolia III (melancholia mentalis). Neste caso, a melancholia mentalis não seria uma doença, mas o tal estado contemplativo de que falava Ficino. Por outras palavras: era o triunfo do melancólico que, de triste e abatido, se transformava naquele que consegue desvendar os segredos do universo.