O reconhecimento do Estado da Palestina por parte de alguns países europeus, entre os quais Portugal, no contexto histórico marcado pelo massacre de 7 de Outubro contra civis judeus, não pode deixar de ser considerando inaceitável e aberrante. Criticar a política do atual governo israelita é legítimo em qualquer democracia madura; exigir o fim de movimentos terroristas na Palestina é igualmente necessário. Mas reconhecer como sujeito político um território que desde 2006 está sob o domínio do Hamas, organização que proclama abertamente a intenção de repetir indefinidamente massacres até à aniquilação de Israel, é de natureza diferente. A pergunta é inevitável: se não tivesse havido 7 de Outubro, estes países teriam avançado agora com o reconhecimento? A leitura é clara: o terrorismo mostrou-se compensador. Um dirigente de topo do Hamas afirmou ainda recentemente que realizarão «um milhão de 7 de Outubros» até destruírem Israel. O que se espera então de Israel? Sanções, reuniões diplomáticas e palavras ocas? Como retirar o Hamas de Gaza?
Este gesto de Portugal é politicamente imprudente e moralmente vergonhoso. A diplomacia europeia confunde perigosamente a compaixão pelos inocentes da Faixa de Gaza com a validação de um regime terrorista. Amanhã, se o Hamas solicitar cooperação cultural ou diplomática, Portugal dirá que não? Onde se traça a linha da cumplicidade?
A normalização do terrorismo, amplificada pela estetização mediática do sofrimento, produz efeitos inquietantes. Na Alemanha já surgem locais onde judeus são excluídos; em Espanha, sob um governo socialista, encontramos o exemplo mais gritante da degradação moral e intelectual da esquerda contemporânea. A oposição ao governo israelita é deliberadamente confundida com a oposição a Israel e ao povo judeu, multiplicando fenómenos de ódio identitário e perseguição coletiva: exclusão de judeus em eventos públicos, hostilidade contra desportistas, músicos, académicos e comerciantes, até à proibição de produtos vindos de Israel. Esta escalada, disfarçada de solidariedade, ecoa práticas do passado europeu mais sombrio, que se julgavam enterradas para sempre.
O paradoxo é flagrante. No mesmo continente que proclama os direitos das mulheres e das minorias sexuais como pilares identitários, que defende a liberdade religiosa, política e de expressão, reconhece-se como interlocutor político uma organização que nega todos esses direitos, que recorre à violência e à escravatura, e que é intrinsecamente inimiga de qualquer forma de democracia.
O PSD, hoje no governo em Portugal, procura afastar-se de um reconhecimento direto do Hamas. Mas ao reconhecer um Estado num território governado pelo Hamas, não altera no essencial a substância do problema. Muitos portugueses não se revêm neste gesto, não aceitam que o país seja cúmplice de uma legitimação tão ambígua e recusam que a diplomacia nacional se limite a reproduzir as ordens de Bruxelas.
A compaixão pelos inocentes de Gaza é justa, mas nunca pode transformar-se em prémio para os carrascos. Reconhecer um Estado sob o domínio do Hamas envia uma mensagem clara: o terror compensa. Quem recorre à violência conclui que massacres e intimidação trazem ganhos políticos. Portugal e a Europa enfrentam uma escolha civilizacional: defender princípios ou premiar a barbárie. Não há meio-termo; ou se recusa o terror de forma inequívoca, ou concede-se impunidade aos carrascos.