Qual a importância do turismo para a economia portuguesa?
O turismo é absolutamente central para a economia portuguesa: representa uma fatia decisiva do PIB e tem efeito multiplicador em muitos outros setores. De forma direta, tem impactado os negócios que ‘servem’ o turismo, não só a restauração e o alojamento turístico, mas também todos os setores que contribuem para servir o cliente – da agricultura à indústria alimentar, passando pelos transportes, pela cultura, pelas bebidas, cutelaria, toalhas, lençóis, champôs, sabonetes, etc. Mas mais do que números, falamos de pessoas: trabalhadores e empresários que acolhem, servem e criam experiências memoráveis. O turismo é, por isso, um motor económico, social e cultural que Portugal não pode desvalorizar. Acresce que o turismo tem sido determinante para a valorização da marca Portugal. É uma atividade que projeta o país no mundo e cria notoriedade que se estende a múltiplos setores: do vinho ao azeite, das confeções à cortiça, passando pela cerâmica, pela madeira, pela agricultura ou pela pesca. Todos estes setores ganham visibilidade e relevância, conseguem valorizar melhor cada produto, fixar preços mais altos, mais justos e impulsionar exportações. O turismo tem a capacidade única de transformar atividades económicas tradicionais em experiências autênticas, dar-lhes palco e gerar procura além-fronteiras, projetando o melhor do saber-fazer português no mercado global.
Há espaço para crescer ainda mais?
Vou ser bastante perentória: não há turismo a mais em Portugal. O que existe é uma concentração em determinados territórios, o que gera algumas tensões. O verdadeiro desafio está em gerir fluxos e promover territórios de baixa densidade, aqueles que tanto precisam de mais visitantes para poderem dinamizar as suas economias. O turismo deve ser pensado como uma forma de gerar valor para as pessoas e para o país. Deve ser cada vez mais inclusivo, sustentável e verdadeiramente transformador. Há que garantir que a riqueza criada chega às comunidades e que se traduz em melhores salários, mais oportunidades e maior qualidade de vida. O turismo tem de ser visto como uma atividade transversal que valoriza territórios, pessoas e tradições – e não como um exercício de expansão da capacidade hoteleira.
E não pode estar tão concentrado...
Sim. O país tem uma oferta riquíssima e diversificada, de norte a sul, passando pelos arquipélagos, mas grande parte dela continua a ser invisível para os grandes mercados internacionais. É urgente apostar em campanhas de promoção que incentivem a distribuição dos fluxos ao longo de todo o ano e a diversificação da oferta — da natureza ao enoturismo, passando pela gastronomia e pela cultura ou pelo turismo industrial. O crescimento do turismo em Portugal tem de assentar nesta diversificação: novos territórios e novos produtos que reforcem a coesão territorial e permitam distribuir melhor os fluxos de visitantes ao longo do ano. E o problema da habitação não está nos hotéis, mas sim na ausência de políticas consistentes para garantir casas a preços acessíveis e mobilidade adequada.
Em relação à restauração, os dados não são tão animadores...
É verdade que a restauração vive maiores dificuldades: margens muito curtas, aumento dos preços das matérias-primas, dívidas acumuladas da pandemia e forte pressão fiscal. Apesar de empregar mais de 240 mil pessoas e ser um setor essencial para a identidade e atratividade do turismo, muitos empresários estão no limite. O aumento contínuo dos preços das matérias-primas agrava uma situação em que muitas micro e pequenas empresas, sobretudo fora dos grandes centros, ainda estão a recuperar das dívidas da pandemia. É por isso que defendemos medidas concretas como a reposição da taxa intermédia de IVA em todas as bebidas bem como a baixa da carga fiscal no rendimento do trabalho, só para dar alguns exemplos. Na verdade, o que precisamos é de um autêntico choque fiscal dado que sem liquidez não há capacidade para inovar ou manter portas abertas.