terça-feira, 14 abr. 2026

O mutismo dos livros frente à orgia publicitária editorial

Com o declínio do verão, ano após ano, o discurso editorial vem exigir do livro, esse resquício de uma temporalidade e relação expulsa do nosso mundo, que se adapte e cumpra os planos trimestrais.
O mutismo dos livros frente à orgia publicitária editorial

O outono não desponta propriamente, tem antes o apelo de um doce revés, como um ser a reerguer-se com grande custo, apreciando o seu próprio esforço, o desgaste e o peso sobre as articulações, avaliando os prejuízos e dívidas em que incorreu no estio. Por estes dias, no entanto, pouco nos reserva já dos prestígios que associamos à sua luz oblíqua, esse tom de reserva de uma estação que retirava um ânimo discreto pelo modo de se entregar compulsivamente à contemplação. «O outono é um coveiro amador que sonha cemitérios mornos e cava sepulturas para passar o tempo. Vê se vagar melancólico pelas paredes do cemitério, absorto no seu jogo silencioso; e, no final da tarde, já cavou sepulturas para todos nós», escrevia Francisco Umbral. Ultimamente, e de forma cada vez mais penosa, chega-nos saturado do calão próprio da canalha publicitária, aquele tom exultante de uma retoma enérgica, prometendo revelações que não conseguem sair por cima das palavras fradescas, das contas-de-rosário, pepitas dessas tagarelando nos bolsos de qualquer vendedor de xaropes miraculosos. Para quem esteja atento aos ciclos da nossa vida editorial, a rentrée esforça-se por sacudir aquela qualidade sonolenta que se impõe à medida que o verão declina, degradando a tentação para a vagueza, quando não nos exigimos especial agudeza nos juízos que formulamos, e vem colocar-nos de sobreaviso quanto a toda essa engrenagem trapaceira que nos cerca. Não temos estação mas um sopro contínuo de anúncios, capas, sinopses e promessas, e desde o princípio a rentrée apresenta-se não como um calendário de lançamentos, mas como um território onde a linguagem se fragmenta e se multiplica sem regra, onde cada cartaz, cada teaser parecem atravessar-se mutuamente, tentando produzir um efeito hipnótico, até ao ponto em que a notícia deixa de ser sobre livros e se torna, ela própria, um livro que se desfaz em estratos de publicidade.

«Galardoada com os mais prestigiados prémios literários, Ana Margarida de Carvalho regressa ao romance com ‘A chuva que lança a areia do Saara’, um livro de fulgor inédito, repleto de personagens ímpares, que merecem lugar de destaque no panteão da grande literatura». No exagero pomposo que é característico deste mercado das novidades, num anúncio destes, cada um dos termos arrasta consigo um desespero, um desconchavo de tal ordem, que expõe a erosão do pacto entre um escritor e os seus leitores. No fundo, este estribilho com vista a vender inquietações, atingiu ele mesmo a sua fase mais estéril. Ouvimos esses aplausos de multidões invisíveis, as tais distinções que desafiam tudo o que sabemos sobre o esvaziamento do pacto literário, e se com este título, ou outro qualquer - A Montanha, de José Luís Peixoto, Tudo Sobre Deus, de José Eduardo Agualusa, O Último Avô, de Afonso Reis Cabral, O Desfufador, de Valério Romão, ou qualquer outro dos nossos canastrões de serviço -, surge sempre esse produto aperfeiçoado por técnicas de laboratório, uma narrativa que queima o ar, as personagens assombrando corredores e catacumbas da imaginação, e que proclamam o seu direito a espaços próprios de veneração, como deuses menores em exílio entre folhas de papel. Cada um deles reconhecidos com prémios que não cabem no mundo dos vivos, todos meteóricos, e vêm com vozes inúmeras, seres que se esgatanham, parecem crescer para fora do texto, constelações, sobressaltando a hierarquia das letras. Trazem tal instabilidade à nossa geografia, atacam sempre como rebeldes imensamente exuberantes, em grande algazarra, revirando tudo. Mas ultrapassadas essas frases lancinantes que ostentam nas cintas e nas capas, todo esse vómito exclamativo, acabamos a revolver a mesma palha cheia da trampa das metáforas.

Há dias um novo estudo dava conta de que metade dos adultos portugueses entre os 25 e os 64 anos tem dificuldade em interpretar textos e só consegue compreender informações muito curtas e simples (relatório Education at a Glance 2025, divulgado pela OCDE). Esperar-se-ia, assim, que a literatura se libertasse das pretensões do mercado, assumindo o apelo soberano da sua vocação: «compor música num mundo de surdos», para citar o mexicano Carlos Díaz Dufoo (Filho). Mas em vez de salas de ópera no leito dos rios, a cada ano que passa, esses jardins que se bifurcavam obsessivamente e onde o espírito tinha gosto em demorar-se, as livrarias, cada vez menos interrompem o curso geral e as urgências desgastantes deste mundo, oferecendo-nos apenas a possibilidade de espreitar as novidades fúteis e efémeras, esses títulos que desesperadamente fazem por causar uma impressão, humilhando-se ao adotar a pose do génio, recaindo inapelavelmente nas imposturas da mediocridade. Assim, a oportunidade que se nos oferece hoje é a de admirar os escombros desses antigos deuses, que ali surgem misturados com o lixo, cansados deste enredo, e, ao mesmo tempo que nos entregamos à chalaça, diante da inflamação das mesmas ideias pré-concebidas, desse palavrório pomposo, acabamos por reconhecer como o livro funciona como uma desgostosa relíquia, investida de uma pretensa força sacramental, mas traficado sobretudo por quem gosta de exibir como místicos souvenirs os cacos e os ossos de uma civilização ameaçada.

O livro tornou-se uma espécie de refém, algo que não tem já qualquer ação em si mesmo, que foi ocupado e soçobrou ao destino da mercadoria, incapaz de mover os ânimos e lhe opor qualquer resistência. Nesse movimento de estetização do mundo, o texto desagrega-se facilitando a sua transformação em imagens, a sua organização semiológica. Como nos avisava Baudrillard, «o que estamos a testemunhar, para além do materialismo mercantil, é uma semiurgia de todas as coisas através da publicidade, dos meios de comunicação social, das imagens. Até o mais marginal e o mais banal, inclusive o mais obsceno, é estetizado, culturalizado, museificado».

Até há umas décadas, ainda se podia ler a promessa de conteúdo, o peso dos nomes consagrados, o rastro do prestígio académico ou crítico, mas muito rapidamente o leitor foi verificando que nada atingia a menor profundidade, todas aquelas indicações não conduziam a lugar algum. Entre anúncios e as tais inquietações que preenchem pouco mais do que um instante nesta intriga circular, adensando-se a sensação de que tudo é uma repetição, tudo nauseia e nos atasca ainda mais num pressentimento de inércia absoluta, e, assim, com toda esta sobrecarga dos mesmos sinais, as mesmas frases que já não sacodem nem agitam levemente um espírito sequer com a magia do inútil, reforça-se a consciência desta imobilidade, desta impossibilidade de se segurar um fio de narrativa coerente. Entrando numa livraria, os leitores sentem-se encerrados num perpétuo déjà vu, as ilhas e os corredores, as estantes parecem absorvidos nessas sinopses que se dobram sobre si mesmas, ecos atordoantes, promessas que estendem um deserto de significados. Se à memória foi permitido um elemento de extravagância e de audácia através dessa tecnologia de mapeamento íntimo, se Steiner insistia que os livros são a nossa palavra-passe para nos tornarmos mais do que somos, buscando aquele texto que se converterá numa fé, e que dará à nossa existência uma finalidade e um critério, podendo tudo isto estar à nossa espera numa banca de livros em segunda-mão, nos livros gastos, nos saldos, a verdade é que temos a sensação que o livro já só resiste nessa condição absolutamente inesperada, num encontro acidental ou quase, como esse objeto desprovido de qualquer favor mercantil, esse destroço empoeirado e esquecido em que tropeçamos, e que de súbito nos rapta. De resto, toda a promessa, toda a estratégia de vendas, resulta cada vez mais numa forma de nos reduzir a um frenesi de expectativas goradas, a uma perseguição de miragens. De algum modo, ao livro deveria repugnar esse efeito dilacerante da mercantilização do mundo, que, segundo se diz, se tornou a grande tarefa do Ocidente. Nesse sentido, o livro mantém a sua força enquanto objeto insignificante, que quase sempre apenas merece ser arrancado do seu descanso por alguém que passa ociosamente, sem vontade de escapar ao tédio, mas aberto ao dom do imprevisto, a essa improbabilidade de que uma página ao acaso possa, na sua simplicidade, oferecer-lhe algo desse fermento da divindade: «um pouco de dor e um pouco de graça», como o sintetiza Carlos Díaz Dufoo (Filho), numa das páginas dessa espécie de sebenta onde se recolhem os seus Aforismos (ed. Cutelo, tradução de Rui Manuel Amaral). E ali desencantamos um vislumbre decisivo sobre uma personagem mítica que na sua evolução até aos nossos dias representa bem a condição do leitor contemporâneo: «Sísifo era, em tempos grandiosos, uma personagem grandiosa. O seu trabalho inútil conferia nobreza ao castigo. A sua vida era absoluta porque era pessoal. Era um rebelde sem importância social. A inutilidade assumia nele o significado de uma atitude - infinito momentâneo -, e uma razão humana de ser. - Nos dias de hoje, Sísifo é um conceito estimado pelo leitor desinteressado da economia política, o da atividade dolorosa. Sísifo já não tem o orgulho do réprobo. O curso dos anos - razão de inércia - limpou o seu pecado. Por um impulso que lhe é estranho, continua a trabalhar inutilmente sem propósito nem castigo. - No futuro, trabalhará sem sentença».