segunda-feira, 14 set. 2026

Ciclismo. Quem são os melhores de Portugal

Com a prestação na Volta à Espanha, João Almeida juntou-se à elite do ciclismo nacional. Joaquim Agostinho obteve o segundo lugar na prova em 1971 e 1974, subsistindo ainda hoje dúvidas sobre o rigor da cronometragem.
Ciclismo. Quem são os melhores de Portugal

O ciclismo é um desporto popular, que gera paixões desenfreadas. As pessoas vibram com os feitos quase sobrenaturais dos heróis que dão vida a um longo e colorido pelotão. Portugal sempre teve ciclistas notáveis. Podemos referir o pioneiro José Bento Pessoa, que bateu recordes mundiais no final do século XIX e foi campeão de Espanha em 1897; Alves Barbosa, que abriu aos portugueses as portas da Volta à França com um histórico 10.º lugar; Rui Costa, campeão mundial de estrada em 2013; e Iúri Leitão, campeão olímpico de pista coberta em Paris 2024. Todos eles deixaram uma marca indelével no desporto das duas rodas. Mas, no cenário internacional, ninguém representou tão bem Portugal como João Almeida, Joaquim Agostinho e Acácio Silva.

Nascido há 27 anos em A-dos-Francos, uma pequena freguesia no concelho das Caldas da Rainha, João Almeida praticou desporto desde muito novo. O futebol foi a sua primeira paixão, jogou nas camadas jovens do Grupo Desportivo A-dos-Francos, mas também andou na natação e dançou no rancho folclórico da sua terra. Converteu-se às bicicletas aos 14 anos e começou a revelar o seu talento em provas de estrada e de downhill na freguesia onde nasceu.

Sempre muito focado na sua evolução, conseguiu resultados interessantes nas competições juvenis e tornou-se um dos ciclistas mais promissores da sua geração. O sucesso de João Almeida serve também de inspiração para uma nova geração de ciclistas e mostra que é possível atingir o topo a nível mundial.

As suas primeiras pedaladas competitivas chamaram a atenção dos especialistas, que reconheceram ter grande potencial. Em 2019, assinou pela equipa Deceuninck Quick-Step e passou a competir com os melhores ciclistas do World Tour. Três anos depois, transferiu-se para a UAE Team Emirates, uma das melhores formações do mundo, tendo a possibilidade de correr com a elite do ciclismo. João Almeida tem vindo a assumir um papel cada vez mais preponderante na equipa graças à sua capacidade de liderança e consistência, tendo conseguido excelentes desempenhos nas grandes clássicas do ciclismo de estrada. É o único português a terminar no Top 5 as três grandes voltas. Antes do segundo lugar em Espanha, já tinha sido terceiro classificado em Itália, em 2023, e quarto classificado em França, em 2024.

O sonho de João Almeida é vencer uma grande volta, objetivo possível de alcançar pelo que se viu em Espanha. Até ao momento, venceu 30 etapas em grandes provas internacionais e foi 88 vezes ao pódio. Já este ano, juntou-se a Bradley Wiggins e Sean Kelly como os únicos na história do ciclismo mundial a vencer, no mesmo ano, três das maiores corridas de uma semana do calendário internacional: as voltas ao País Basco, à Romandia e à Suíça.

Repetir Agostinho
João Almeida foi segundo classificado na Volta à Espanha deste ano, igualando o feito de Joaquim Agostinho em 1971 e 1975. Há 51 anos que a bandeira portuguesa não subia ao pódio em Espanha. O ciclista da UAE Emirates teve tudo contra si; os ‘pacifistas’ pró-Palestina, que condicionaram a prova e chegaram a derrubar alguns ciclistas, e a própria equipa, que podia e devia ter ajudado mais no duelo com Jonas Vingegaard. Ainda assim, esteve na luta pela vitória até final.

João Almeida ficou a segundos do camisola vermelha depois ter ganho a exigente etapa que terminou no alto de Angliru. Com uma pedalada forte, esperava o contrarrelógio para alcançar o primeiro lugar, mas a organização encurtou o percurso de 26 km para 12,2 km por questões de segurança devido às ameaças dos manifestantes. João Almeida ganhou 10s, mas precisava de mais quilómetros…

A questão ficou resolvida na penúltima etapa quando o dinamarquês lançou um ataque devastador na montanha, que apanhou de surpresa o ciclista português e toda a equipa UAE. «Eles conseguiram surpreender-nos, não estávamos à espera», reconheceu João Almeida. «Estava numa boa posição, mas eles foram muito agressivos e, no final, não consegui diminuir a diferença».

João Almeida nunca teve ajuda dos seus companheiros, mesmo quando estava a poucos segundos do líder. No final, deixou bem claro que se sentiu isolado: «Havia apenas um grau limitado de colaboração dos meus companheiros», reconheceu. A verdade é que sempre que a UAE Emirates precisou de João Almeida para vencer etapas ou grandes provas ele esteve presente, quando ele precisou da equipa para ganhar, deixaram-no sozinho e a 1m16 do vencedor.

Com muito fairplay, mesmo acreditando que podia ter ganho, João Almeida disse: «Acho que não é assim tão mau acabar atrás dele. Estive adoentado na semana passada e fiz tudo o que podia. Parabéns ao Jonas, que foi superforte».

Graves suspeitas
Recuando no tempo, Joaquim Agostinho foi um fora de série, que marcou uma era no ciclismo português, apesar de ter começado a carreira bastante tarde, aos 25 anos. Nenhum dos corredores alcançou o seu nível em Portugal, mas foi além-fronteiras que conseguiu as suas maiores proezas como trepador e contrarrelogista graças a um tremendo espírito de sacrifício.

Participou em 13 edições da Volta à França - é um recorde português -, desistiu uma vez, venceu cinco etapas e conquistou dois terceiros lugares (1978 e 1979). Fica na história do ciclismo mundial a impressionante escalada ao Alpe d’Huez, com 21 curvas e 3.300 metros altitude, e a vitória na etapa-rainha da edição de 1979. Esse momento de sofrimento, determinação e querer de um ciclista de 38 anos ficou imortalizado com uma estátua de Joaquim Agostinho, na 14.ª curva da mítica subida. Tinha 27 anos quando se estreou na Volta à França e 42 anos quando se despediu das estradas francesas.

Em cinco presenças na Volta à Espanha, foi segundo classificado duas vezes (1971 e 1974). O resultado de 1974 levantou dúvidas, pois há graves suspeitas sobre o rigor dos cronometristas, que entregaram a vitória ao espanhol José Manuel Fuente por escassos 11 segundos. Joaquim Agostinho faleceu na sequência de uma queda na Volta ao Algarve, em 1984, quando envergava a camisola amarela. Até na morte estava em primeiro.

Acácio da Silva é um dos melhores ciclistas nacionais de todos os tempos. Correu com verdadeiras lendas como Bernard Hinault e Greg Lemond, e foi colega de equipa de Sean Kelly durante cinco anos. Foi o primeiro ciclista português verdadeiramente internacional. Começou a competir aos 17 anos no CC Dudelange, no Luxemburgo, seguindo o exemplo dos dois irmãos, que realizavam provas internacionais com bons resultados. Competiu dois anos nos juniores, mais dois como amador antes de chegar a profissional na Suíça, em 1982.

Ao longo da sua carreira, venceu cinco etapas na Volta à Itália e três na Volta à França e vestiu as camisolas rosa e amarela, símbolo de líder. Aliás, foi o único português a andar de amarelo na mítica prova francesa. O ano de 1989 foi marcante na carreira de Acácio da Silva. Um mês depois de envergar a camisola rosa em Itália, venceu a primeira etapa na Volta a França e andou de amarelo durante quatro dias para satisfação dos emigrantes portugueses. Em 1991, ganhou a categoria dos sprinters na Volta à Espanha, e terminou a carreira em 1994.