Uma investigação Nascer do SOL/TVI /CNN-Portugal.
Com a iminente entrada de mulheres na mais antiga e influente maçonaria do país, o Grande Oriente Lusitano (GOL), muitos dos maçons estão a abandonar a obediência. Cerca de 40 membros que pertenciam à Loja União Portucalense, de Vila Nova de Gaia, já avançaram, durante este mês, com os documentos para a saída e muitos outros, de lojas de várias regiões, estão a debater o assunto internamente para decidir se se mantém ou não no GOL, apurou o Nascer do SOL.
O ambiente é de tensão e promete intensificar as divisões no seio da maçonaria, que já enfrentou várias cisões e braços de ferro ao longo dos anos, seja por questões de rituais, seja por zangas entre ‘irmãos’ ou guerras de poder. A questão das mulheres há muito que prometia ser um desses temas fraturantes.
Desde que, em maio deste ano, o parlamento maçónico aprovou a entrada de ‘irmãs’ que muitos maçons começaram as movimentações para a saída. Aliás, os membros da loja de Vila Nova de Gaia liderada pelo médico e ex-coordenador do Plano de Emergência para a Saúde, Eurico Castro Alves, alegam, na documentação interna que entregaram ao GOL, que sempre se mostraram contra a ideia de abrir as portas ao sexo feminino. E referem que, perante a decisão de as deixar entrar, optam todos por sair, segundo informação a que o Nascer do SOL teve acesso.
Com a debandada de todos os maçons da União Portucalense, os seus elementos pediram para que a loja desapareça das listas do GOL, isto é, que se ‘abata as suas colunas’, como é referido nos documentos maçónicos.
O mal estar estende-se a outras lojas que estão neste momento a decidir se se mantém ou saem da obediência. Uma delas é a loja Estado da Arte, de Cascais, que já foi liderada por Salvato Teles de Menezes, presidente da Fundação D. Luís I, e onde vários elementos deram conta de querer deixar a obediência. Segundo fontes maçónicas, os ‘irmãos’ desta loja vão em breve fazer reuniões para tomar uma decisão sobre o assunto. Em cima da mesa está, entre outras, a possibilidade de saírem todos ou pelo menos alguns.
Em rota de colisão com a liderança da obediência está também, segundo fonte do GOL, uma das seis lojas que funcionam no Algarve.
De acordo com fontes maçónicas, muitos dos elementos que estão ou vão sair do GOL poderão ‘estar a caminho’ da Grande Loja Legal de Portugal (GLLP). Trata-se de uma obediência que, em contraponto ao GOL – que desde sempre teve muitos elementos do PS –, começou por ser associada ao PSD, mas hoje conta também com muitos da área socialista.
No entanto, ao Nascer do SOL, fonte da GLLP garante que não há, pelo menos por agora, qualquer processo para integração em bloco de maçons do GOL.
Segundo dados fornecidos ao Nascer do SOL pelas obediências, o GOL tem neste momento 2400 membros e 103 lojas e a GLLP conta com 3884 maçons espalhados por 180 lojas ativas no país.
Fim de semana agitado: maçons juntam-se em hotéis e restaurantes
Entretanto, este fim de semana será agitado para a maçonaria. Várias obediências promovem reuniões e jantares em restaurantes e hotéis com centenas de maçons para marcar o início do novo ano maçónico. Ano em que vai enfrentar testes como o da entrada de mulheres no GOL, mas também o das eleições autárquicas. Isto por ser no poder local que os maçons têm conseguido manter mais influência, com vários ‘irmãos’ em lugares de destaque nas autarquias. E estas eleições são, assim, vistas como um teste ao atual poder da maçonaria.
Os maçons do GOL reúnem-se primeiro no Palácio, no Bairro Alto, e depois juntam-se na Casa do Alentejo, nos Restauradores. Já a reunião da GLLP será no Hotel Corinthia. Também outra obediência, a Grande Loja Soberana de Portugal, que saiu em cisão da GLLP por querer pôr em prática nas sessões secretas um ritual inspirado em Portugal, promove um encontro no Penha Longa com centenas de pessoas.
As regras para iniciar mulheres
Estas saídas do GOL ocorrem depois de um decreto maçónico emitido a 21 de agosto pelo grão-mestre Fernando Cabecinha, ter lançado as regras provisórias para as lojas poderem começar já a iniciar mulheres. É que, apesar de a revisão da constituição do GOL ter sido aprovada pelo parlamento maçónico, em 31 de maio deste ano, e promulgada pelo grão-mestrado em 21 junho, para permitir a iniciação de mulheres é preciso aprovar um regulamento geral para todo o processo – o que pode demorar ainda algum tempo. Para não se ter de esperar e permitir que as lojas comecem a deixar entrar novas ‘irmãs’, o grão-mestre emitiu agora novas regras. A ideia é que, agora, as lojas escolham se se querem manter masculinas ou mudar para mistas.
No decreto, a que o Nascer do SOL teve acesso, é explicado que as lojas que queiram iniciar mulheres terão de «apresentar uma proposta escrita de mudança de natureza, devidamente assinada, pelo menos por sete membros ativos». Depois, as regras obrigam a que essa mudança para loja mista seja aprovada por uma «maioria absoluta» dos membros.
Neste momento, sabe o Nascer do SOL, pelo menos duas lojas já solicitaram a iniciação de uma mulher. A primeira a fazê-lo foi a Loja Delta – que há muito tempo tentava ter uma mulher nas sessões onde até agora se juntavam só homens maçons.