terça-feira, 12 mai. 2026

Madalena Casanova. Escola de vida no meio do Atlântico

Aos 20 anos, já passou 11 dias no mar sozinha como prova de aferição para um desafio maior que é a Mini Transat. Madalena Casanova quer ser a primeira mulher portuguesa a atravessar o Atlântico num pequeno barco de regatas com 6,5 metros de comprimento. 
Madalena Casanova. Escola de vida no meio do Atlântico

Madalena Casanova cresceu na ilha de Santa Maria, nos Açores, e, como não havia muito para fazer, passava o dia a andar de barco com os amigos. Regressou ao Continente e, durante dois anos, viveu com a família num barco. Contudo, o grande apelo pelo mar surgiu ao ver a regata Volvo Ocean Race em 2012. «Fiquei apaixonada por esses barcos. A regata voltou a Lisboa em 2015 e lembro-me de estar a ver os barcos e de querer tocá-los. Foi um chamamento que senti nessa altura», explicou.

Fez tudo para começar a velejar. Tirou cursos de vela e bateu a várias portas. «Queria perceber o que devia fazer para poder velejar como os skippers que via no mar», justificou. Num desses contactos surgiu a oportunidade de fazer parte de uma tripulação feminina, recordou. «O primeiro dia foi com um barco de regata. Quando vi que era o Volvo 65 nem queria acreditar. Perguntei se podia andar no barco e disseram-me que estava ali para isso. Foi começar pela Fórmula 1 em vez de ir para o karting», salientou.

Em 2025, Madalena Casanova deu uma grande volta à sua vida. Arranjou um pequeno barco, o Pogo 3, e embarcou na aventura de velejar através do Oceano Atlântico. Partiu de França, passou pela Irlanda e terminou em Portugal, no Clube Naval de Cascais. Foram 1.000 milhas em solitário e sem escalas a pensar numa eventual qualificação para a Mini Transat 2027, uma regata transatlântica a solo que se realiza de dois em dois anos. Quer ser a primeira portuguesa a participar numa das competições de vela mais difíceis do mundo.

Durante 11 dias enfrentou as forças na natureza. O tamanho do barco (6,5 metros de comprimento) e o equipamento minimalista não foram os únicos desafios. Foi preciso força, resistência, coragem e experiência de navegação para chegar a bom porto. Os conhecedores dizem que a maior dificuldade do projeto Mini Transat é a qualificação, pois é onde os velejadores estão verdadeiramente sozinhos no meio do Atlântico. «Foi uma experiência pesada. Sabia que ia ter momentos duros, mas não estava à espera de ter tantos momentos tão duros. Aprendi muito sobre mim nessa viagem. Estar no mar sozinha deu-me uma clarividência sobre a vida em geral, o que importa e não importa», sublinhou a jovem velejadora.

Madalena falou dos principais momentos de uma travessia que tem muito para contar. «Inicialmente houve muito entusiasmo, estava a fazer uma coisa com que sonhava há muito tempo. Passadas algumas horas essa excitação acalmou um pouco e tomei consciência de que estava a entrar sozinha pelo Atlântico. Tinha a indicação de que iria apanhar mau tempo até chegar à Irlanda, sabia que o barco aguentava, mas havia a parte psicológica, de perceber como é que eu ia aguentar».

Os problemas começaram no segundo dia, quando as condições climatéricas até eram favoráveis. «O tempo acalmou e estava um vento perfeito para por o balão, o spinnaker, é a vela maior e mais bonita, mas também muito instável. Não podia perder aquela janela de vento para não ficar parada no mar dois ou três dias. Ao colocar o balão tive alguns problemas na manobra e a vela foi parar à água e enrolou-se num dos lemes. Tive de ir para dentro de água para soltar o spinnaker. Quando tentei por o barco a andar, a vela grande apanhou vento do lado errado e levei com a retranca na cabeça, não foi a primeira vez, só que agora foi mais forte», disse em jeito de brincadeira. Nos bons e maus momentos a opção é simples. «Aguentar o que vem aí e apontar o barco para o lugar onde queremos ir», diz determinada.

Houve também tempo para encontros inesperados, «ao passar ao largo da Irlanda vi uma foca, só tinha visto focas no Zoomarine», e outros indesejados. «Quando estava a chegar a Portugal fui atacada por orcas na zona de Vigo. Na altura, não me apercebi dos danos causados, só depois vi que tinha metade de um leme e o outro estava rachado. Se fosse fácil não tinha tanta piada», gracejou.

Viver com o mínimo

O pequeno veleiro Pogo 3 mede 6,5 metros de comprimento e pode navegar a uma velocidade até 20 nós (37 km/h) em condições favoráveis. «É um barco de regatas, feito em fibra de vidro, com o mínimo de equipamento para ser o mais leve e o mais rápido possível. Não existe cama, casa de banho ou cozinha. Os recursos são muito limitados. Há uma estrutura onde posso colocar um colchão para dormir e tenho um pequeno fogão a gás, que serve para aquecer a água para fazer a comida de astronauta», contou.

Quando se está no meio do Oceano Atlântico, descansar é um termo muito vago, sobretudo na solidão da noite oceânica. «De dia nunca durmo, durante a noite tento dormir de 20 em 20 minutos», conta, lembrando a razão destes turnos. «É por uma questão de segurança. Devemos estar atentos ao radar e ver o que se passa à volta do barco. Pode aparecer algo no horizonte que ponha em risco a navegação».

Os recursos a nível de comunicação são igualmente reduzidos, como explicou: «Tenho um rádio VHS para a comunicação e um GPS, que dá as minhas coordenadas, mas não mostra a posição no mapa. Há outro indicador que dá a informação da direção e intensidade do vento e a velocidade a que estamos a navegar. Existe também um radar que permite saber se há outros barcos por perto». Mas uma viagem solitária num pequeno barco de regatas deixa sempre marcas. «Senti falta do toque humano, dos abraços. Quando cheguei a terra tinha a minha mãe e os amigos à minha espera e fartei-me de dar abraços».

Desafio maior

Esta prova foi o primeiro passo para atingir o objetivo maior que é participar na Mini Transat 2027, um trampolim por excelência para as grandes regatas oceânicas. Sabe-se que a prova começa em França, tem uma paragem nas Canárias, mas não se sabe onde termina, pode ser Brasil, América do Norte ou voltar ao Caribe. O conceito é o mesmo de sempre: atravessar o Atlântico. O processo de qualificação é rigoroso e inclui várias etapas obrigatórias. Os skippers devem completar 1.500 milhas em regatas de qualificação da série Mini e fazer 1.000 milhas de navegação no Atlântico, foi essa parte que Madalena Casanova já cumpriu. A formação em sobrevivência e primeiros socorros também é indispensável de modo a garantir a segurança e a preparação dos participantes. «Fazer esta prova pode ser o início de uma carreira na vela», frisou a jovem velejadora. «Mostra-nos se gostamos verdadeiramente do mar, se gostamos de estar sozinhos e se percebemos o mar. Dá-nos uma visão muito crua do que é a vida no mar», acrescentou.

A prova tem duas etapas, com uma paragem a meio. «É preciso uma grande preparação mental para fazer a Mini Transat. É óbvio que é importante ter boa preparação física, mas se a cabeça não estiver a funcionar bem, o corpo não vai funcionar bem», alertou. Madalena Casanova espera que a Mini Transat «seja o começo da minha carreira». «Quero chegar ao mais alto nível e participar na Ocean Race», assegura.

A primeira prova de qualificação foi ultrapassada com êxito, mas isso não garante a presença à partida da Mini Transat 2027, como nos esclareceu. «O primeiro passo é comprar o barco, tenho de participar com o mesmo barco com que fiz a qualificação. Lancei uma campanha para angariação de fundos para poder concretizar o objetivo. Tenho 1.000 milhas, mas com essas milhas fico de fora seguramente. Por isso, no próximo ano vou disputar várias regatas da classe Mini para acumular milhas e ter a certeza de que vou fazer a Mini Transat», resumiu.

Madalena Casanova lançou também uma campanha de angariação de fundos, já que precisa de 80 mil euros para concretizar o projeto. «A campanha destina-se a arranjar apoios para comprar o barco e, simultaneamente, dar a conhecer a prova. Quero mostrar às pessoas esta variante da vela, e que é possível aos portugueses estarem presentes. No final de 2027, espero entregar o barco a outro português para continuar o projeto», concluiu