De que maneira o encontro com Dalai Lama mudou a sua vida?
Conhecer o Dalai Lama de forma tão próxima é uma experiência especial para um miúdo de 21 anos. A mensagem ao longo daquela semana foi sempre em torno da mesma coisa: desfrutar o caminho mais que o destino. Acho que a teria aprendido na mesma com a vida, mas foi bom recebê-la tão cedo.
Já disse que tem medo de voltar à Índia, pois receia não voltar.
Qual a razão para esse receio?
Na realidade, o que tentei dizer foi que receio voltar a um sítio onde fui feliz e descobrir que já não é igual ou que eu não o sinto da mesma forma. Se calhar, agora, depois de uma operação à coluna, já não acharia tanta piada a dormir num colchão no chão durante meses. Mas tenho a certeza de que, se fosse à Índia, voltaria. A Índia é o país mais extraordinário do mundo para visitar, mas está longe do topo dos países onde gostaria de viver.
Tem o sonho de visitar todos os países e já conhece 81. Estando na política, acha que algum dia alcançará esse desejo?
Na verdade, depois das férias, já são 85. Os deputados não podem pedir dias de férias durante o ano, o que limita as viagens aos períodos em que a Assembleia está fechada. Portanto, dificulta, sim, mas não é impeditivo.
O que o fascina nesse objetivo?
Por vezes, as metas são apenas uma boa desculpa para percorrermos o caminho para lá chegar. Eu, provavelmente, não terei dinheiro nem tempo para chegar a essa meta, mas tê-la leva-me a desfrutar de experiências fantásticas. Ainda este verão tive algumas, mas que só poderei contar quando sair da política.
Não sente saudades de ser consultor?
Sinto todos os meses quando olho para o recibo de vencimento, mas depois passa-me porque também gosto do que faço hoje.
Arbitrou um jogo de futebol de praia onde entrou Luís Montenegro, que, apesar de ter ganho, o insultou. Acha que o insulto faz parte da política?
Não, já no campo de futebol é mais compreensível. Faz parte do ambiente desabafar de vez em quando. É melhor desabafar com palavras do que ao pontapé.
Também foi árbitro de futebol de 11 nos distritais, para ganhar dinheiro. Alguma vez teve vontade de ser árbitro na Assembleia da República e colocar os deputados na ordem?
Nenhuma. Se há trabalho naquela casa que não invejo é o de presidente da Assembleia da República.
Marcelo Rebelo de Sousa merece um cartão vermelho por ter acusado Donald Trump de estar ao serviço de Vladimir Putin?
Dado o contexto de ambos, parece-me ser mais apropriado um cartão laranja.
Perdeu notoriamente peso no último ano. Foi um ensaio para cortar nas gorduras do Estado?
Eu tenho uma vida boa. Tenho uma vida familiar e financeira estáveis, um bom grupo de amigos, faço algo que gosto e que me garante algum reconhecimento público, tenho tempo para ler, escrever, viajar e desfrutar dos prazeres da vida. Quem tem uma vida boa como a minha só tem de se preocupar em prolongá-la de boa saúde pelo máximo de tempo possível. Domesticar um dos prazeres da vida, comer, para poder usufruir mais tempo de todos os outros parece-me uma boa estratégia.
Na política, o tempo apaga muita coisa. Acha que Pedro Nuno Santos algum dia poderá a voltar a ser o dono da bola? Isto é, líder do PS?
Não excluo essa hipótese. É demasiado novo e gosta demasiado da política para sair definitivamente. O tempo tende a desvalorizar as coisas más e sobrevalorizar as boas, pelo que não é impossível. Confesso que me dava gosto debater com aquele estilo de quem diz coisas tão erradas de forma tão convicta.
Continuando no campo da futurologia, o que ganharia a política nacional se um dia coincidissem, nas lideranças partidárias, Miguel Morgado no PSD, Sérgio Sousa Pinto no PS, Carlos Guimarães Pinto na IL e Filipe Anacoreta Correia no CDS?
O Filipe não conheço tão bem, mas os outros três não me parecem muito disponíveis para o tipo de concessões que uma liderança partidária exige. Estão ativos no mercado das ideias, que é onde verdadeiramente se decide o futuro do país. Os partidos, especialmente os tradicionais, têm demasiados egos e bocas para alimentar, por isso tendem a seguir a direção do vento da opinião pública para conquistarem votos. Se os partidos andam atrás da opinião pública, quem realmente consegue mudar o país é quem muda a opinião pública, coisa que o Miguel e o Sérgio têm capacidade de fazer.
Disse, repetidas vezes, que a sua gaguez o impede de ter mais protagonismo, mas agora tem um espaço na televisão. Como ultrapassou esse problema?
Não ultrapassei, resignei-me. A gaguez continua lá, mesmo que os vídeos nas redes sociais disfarcem. A última vez que tive um programa de televisão regular durou menos de um ano. Veremos quanto tempo dura este. Não estou certo de que analisar os assuntos de forma ponderada e ainda por cima ter hesitações na fala seja muito bom para as audiências. O que dá audiências é ver o mundo a preto e branco, afirmando a sua insensatez de forma convicta e eloquente.
O que acha de os políticos irem para os programas televisivos da manhã, e não só, chorar e fazerem-se muito humildes? A política está um verdadeiro programa de entretenimento?
Eu até já fiz entrevistas de vida, e acho que podem ser interessantes, desde que sejam autênticas. Fingir emoção para conquistar votos até pode ser eficaz, mas causa-me convulsões gástricas.