terça-feira, 16 jun. 2026

Mourinho. O special que se segue

‘Vou viver para o Benfica, essa é a minha missão’: foi deste modo que José Mourinho falou sobre o regresso ao clube onde começou a carreira há 25 anos. Abre-se um novo ciclo que pode salvar Rui Costa nas eleições
Mourinho. O special que se segue

Com um futebol medíocre, um discurso errático e sem qualquer empatia com os adeptos, Bruno Lage mostrou que não tinha capacidade para treinar um clube com a dimensão do Benfica. Obviamente, foi despedido! José Mourinho é o senhor que se segue até junho de 2027. Tudo isto acontece três semanas depois de o ‘Special One’ ter saído do Estádio da Luz pela porta pequena, eliminado da Liga dos Campeões por Bruno Lage. Agora, entra pela porta principal para ocupar o lugar do amigo de Setúbal e para jogar a liga milionária. É o mundo do futebol a girar.

José Mourinho regressa ao Benfica passados 25 anos. Há vários pontos de contacto com a primeira passagem pelo clube presidido por Vale e Azevedo, onde esteve dois meses e meio; ganhou seis jogos, empatou três e perdeu dois, o resultado mais impactante foi a vitória sobre o Sporting (3-0). A 20 de setembro assinou o primeiro contrato com o Benfica, desta vez a assinatura aconteceu a 18 de setembro. Em comum, o facto de o clube estar a viver um clima eleitoral. 

Este ‘golpe de asa’ de Rui Costa abafou a vergonha da derrota caseira com o Qarabag (2-3), que espantou o mundo do futebol. Ao contratar uma referência mundial na área do treino e um excelente comunicador, fica escudado em termos eleitorais. É evidente que José Mourinho é uma escolha do presidente, mas também do candidato às próximas eleições. A 36 dias do ato eleitoral, uma não pode ser dissociada da outra. Importa, contudo, salientar que o atual presidente tem toda a legitimidade para contratar quem bem entender até final do mandato, uma vez que os estatutos do clube não limitam os seus poderes nesse domínio. Apesar disso, o contrato agora assinado tem uma cláusula que permite a qualquer das partes rescindir no final desta temporada sem ter de indemnizar a outra.

A par de Cristiano Ronaldo, José Mourinho é a figura portuguesa mais conhecida a nível mundial, mas não é consensual entre os benfiquistas devido à sua ligação ao FC Porto, e o facto de ter sido largamente ovacionado no Estádio do Dragão, no passado sábado, não ajuda nada.

Não é só o Benfica que ganha com esta contratação, a liga portuguesa vai ter uma notoriedade como nunca teve, a imprensa internacional tem feito grande eco da mudança do ‘Special One’ para Portugal. O efeito já se começou a fazer sentir. No percurso entre o aeroporto de Tires e a sua casa, em Azeitão, levava consigo um cachecol do Benfica e viu muitas pessoas a aplaudi-lo.

«Tenho tantas emoções, mas a minha experiência ajuda a controlá-las», começou por dizer na sua apresentação. Puxou dos galões e falou ao coração dos benfiquistas: «É a maior honra que tive até hoje. Estou muito feliz por fazer parte da nação benfiquista. A partir de agora, quero focar-me no prazer de treinar um dos maiores clubes do mundo», disse.

José Mourinho é o melhor treinador português de sempre, mas a sua carreira já teve melhores dias, como atestam os fracos resultados desportivos no passado recente. Há um ‘Special One’ que ganhou 20 títulos entre 2002 e 2013 e encantou milhões de adeptos enquanto treinador do Chelsea, Inter de Milão e Real Madrid, e um Mourinho da década seguinte, que apresentava um futebol chato e defensivo no Chelsea, Manchester United, Tottenham, Roma e Fenerbahçe, onde ganhou apenas seis títulos e acumulou despedimentos que lhe valeram mais de 100 milhões de euros em indemnizações. Qual é o Mourinho que vamos ver no Benfica é a grande questão? Uma coisa é certa, o carismático, provocador e pouco dado ao fairplay José Mourinho está diferente, como admitiu: «Venho para o Benfica numa fase da minha carreira onde sou mais altruísta e menos egocêntrico. O clube, os jogadores e os adeptos são o mais importante». 

Pela figura e pelo estatuto que tem no futebol mundial, a entrada de José Mourinho pode trazer uma energia nova e maior dinâmica à equipa. É evidente que vai romper com o sistema e forma de jogar, mas isso não garante vitórias. Esta lufada de ar fresco é também motivadora para os adeptos, que vivem tempos de angústia.

Relançar a carreira

O técnico setubalense passou por muitos balneários e treinou muitas estrelas, o regresso ao Benfica pode ajudá-lo a relançar a carreira. Tem o handicap de não ter feito pré-época e de não conhecer a fundo as características de cada jogador. Junta a isto o facto de não ter tempo para treinar, já que no espaço de uma semana vai realizar três jogos: AVS (dia 20), Rio Ave (dia 23) e Gil Vicente (dia 26). «Tenho de meter o dedo, mas de forma leve. Não posso mudar e radicalizar para o primeiro jogo. Tem de ser com calma, até porque muita coisa foi bem feita pelo meu antecessor», explicou Mourinho, que reconheceu que «a equipa tem mais potencial do que o ano passado».

Sabemos que é muito forte na parte psicológica e a motivar os jogadores com um discurso fácil, duro quando é preciso, e isso pode fazer toda a diferença. «Revejo-me muito na cultura do Benfica, que é ganhar com esforço e sacrifício». E acrescentou: «Estou doido para ganhar o próximo jogo, essa é a minha essência. Hoje em dia tenho mais fome de vencer do quer há 25 anos».

Ao contrário do que fez em 2002 quando chegou ao FC Porto, José Mourinho não disse que ia ser campeão. «Não prometo nada, mas tenho a convicção de que o Benfica tem potencial para ganhar campeonatos». Sobre o sobre tipo de futebol que quer praticar foi pragmático: «Quando tivermos a bola temos de atacar com 11 jogadores, sem bola temos de defender com 11». E ainda deixou um recado para dentro do balneário: «Não vamos ganhar sempre, mas quando perdermos temos de deixar tudo em campo».

Os candidatos às eleições foram cuidadosos a falar de José Moutinho, até porque podem precisar dele a partir de 25 de outubro. Preferiram antes atacar o atual presidente Rui Costa por ter mantido Bruno Lage. João Noronha Lopes foi bastante duro: «As últimas horas foram o culminar de quatro anos desastrosos. A pouco mais de um mês das eleições, o Benfica está refém das decisões de Rui Costa, um presidente sem qualquer competência para decidir o destino do clube», escreveu nas suas redes sociais.

Já João Diogo Manteigas afirmou: «Vem um quinto treinador em quatro épocas desportivas, está à vista de todos que é um falhanço completo e grave de Rui Costa. Deve assumir a responsabilidade dos seus sucessivos erros e não arriscar a cometer mais um». Luís Filipe Vieira foi igualmente crítico para com Rui Costa: «É tempo de o atual presidente assumir as suas responsabilidades em mais um fracasso. Já são demasiados fracassos desportivos e erros de gestão que obrigam o Benfica a pagar milhões em indemnizações». Cristóvão Carvalho reprovou a contratação do novo técnico e já avisou: «Mourinho não é o meu treinador. Se for presidente do Benfica tenho de rescindir com ele, não está preparado para aquilo que eu penso que é o futuro do Benfica».