Bernardo Reino fez ontem 75 anos e, apesar da grave doença que enfrentou, mantém-se ao leme do Gigi. Há 25 anos temia que os chefs nos pusessem a comer ‘pastéis de nata com sardinhas assadas e asas de raia com compota de morango’. Não falhou por muito. A história do homem que nunca passou um dia inteiro na praia e que não compreende a febre de agosto
A sua vida dará, seguramente, um filme, já que os livros estão prometidos. São muitos que o conhecem do icónico restaurante da Quinta do Lago, que ostenta a sua ‘alcunha’, Gigi, mas Bernardo Reino tem uma história que ultrapassa fronteiras, sendo certo que o Brasil terá um capítulo importante e não será só pelo seu trabalho na hotelaria. Aos 35 anos fartou-se dos seguros e rumou ao Algarve, onde daria vida a um dos restaurantes mais famosos do país, no que ao marisco e peixe diz respeito. Aos 75, depois de enfrentar graves problemas de saúde, continua ao leme do barco, e numa entrevista de vida, prefere não falar de assuntos já batidos, como a sua relação com príncipes e princesas, com a nata das finanças mundiais, ou com tanta gente do espetáculo e do desporto, como Ayrton Senna. Durante a pandemia começou a fazer vídeos, que mandava para os amigos, em que mostrava o seu apetite ao pequeno-almoço, bem como ao almoço. O seu leque de amigos é vasto e são muitos os que lhe pedem para não desistir de mandar os ‘filmes’ do pequeno-almoço que são enviados a partir das seis da manhã…
É contra as novas tecnologias, mas no seu WhatsApp faz vídeos que se tornaram ‘virais’ em determinados grupos de pessoas suas amigas, nomeadamente no período da covid. Tinha um telefone dos Nokia, daqueles para telefonar, e as minhas netas, quando foi a covid, ofereceram-me um iPhone para nos vermos, mas não tenho Instagram, nem Facebook, nem sou fã das chamadas redes sociais. Para mim, redes só as dos pescadores, dos poucos que ainda há. E isso começou como uma brincadeira. As minhas netas queriam que eu falasse com elas durante a covid, e lembrei-me de fazer o ‘Hoje vai ser’, que era filmar o almoço diário, além do pequeno-almoço. Isso depois foi publicado no SOL, virou um bocadinho moda, apesar de eu ser contra as modas. Como dizia o Oscar Wilde, a moda é uma coisa tão horrível que tem que ser mudada de seis em seis meses. Só que depois, cada vez que eu tento acabar com esses WhatsApp, os meus amigos cobram-me por que razão não mando os filmes [Gigi não o diz, mas os vídeos vão para amigos muito variados da sociedade portuguesa].
Faz filmes do pequeno-almoço e do almoço. O pequeno-almoço é uma espécie de ter os amigos à mesa, é uma brincadeira. São filmes curtos, e os almoço da praia. A brincar a brincar, acho que ninguém realiza tantos filmes como eu. Já vão seis anos de filmes. Oito por dia, acho que dá 18 mil. Acho que nem o Spielberg fez tantos filmes [Risos].
Teve um problema de saúde complicado, tendo ficado internado mais de dois meses, mas nunca deixou de fazer os vídeos, tirando dias críticos.
Sim, até houve pessoas ligadas ao hospital que me disseram que fiz muito pelo hospital, porque filmava rigorosamente o pequeno-almoço, almoço e jantar. Sigo a máxima, em Roma sê romano, e falava bem da comida do hospital da CUF, que é o meu hospital, apesar de, como diz um médico meu amigo já reformado, antigamente era a CUF, agora é um hospital, mas não posso queixar-me. Sou um homem que teve uma doença muito grave e sobreviveu. Ganhei uma admiração muito grande pela abnegação e dedicação de todo o pessoal dos hospitais onde estive, desde os auxiliares aos médicos e cirurgiões que tomaram conta de mim. Por isso, às vezes, aborrece-me hoje em dia tentarem tratar melhor lulus e gatos urbanos do que seres humanos…
Enfrentou um problema complicado?
Sim, fui operado e tive um problema grave, uma infeção generalizada, praticamente, estive ali um bocadinho entre o lado de cá e o de lá. Digamos que fui um paciente tardio. Há gajos que têm uma dorzinha nas costas e vão logo para o hospital. Eu já andava com a púbis partida, com uma infeção galopante e fui, em último caso, que já não podia mais, com uma fratura na anca e na bacia, e queria era sair. Foi a minha filha que não deixou, e os médicos. Até que disse, daqui já não saio até me curar. Fiquei internado dois meses.
E como é que tem força para depois regressar ao dia-a-dia do restaurante?
Vou fazer 75 anos [fez ontem, 18 de setembro], e não quero ‘virar’ velho. Mas tenho uma pena imensa agora dos fogos [a entrevista foi feita em meados de agosto] metade de Portugal está a arder, tenho pena realmente das pessoas que são praticamente abandonadas à sua sorte. O interior está abandonado. Hoje em dia Portugal é um país urbano. É Lisboa e Porto e duas ou três cidades à beira-mar, que são urbanas. As pessoas gostam, hoje em dia, de andar em bando. Não entendo. Qual é o prazer de tirar umas férias e ir tudo ao mesmo tempo para uma praia? Não entendo. Qual é o prazer de ir exatamente à mesma hora para a praia e fazer filas com parques de estacionamento completos? Não entendo. São coisas que me ultrapassam.
Mas no seu tempo em que não era empresário de restauração, não ia para a praia? Para mim, é um mistério esta atração do abismo pelo mês de agosto nas praias do Algarve – passei a minha infância e adolescência em praias desde a Estela, Afife, Torreira, Figueiras, Praia da Areia Branca e etc., praias de iodo, com pouca gente e águas mais frias, é certo, mas havia liberdade na areia e fazíamos praia até ao meio dia. Agora veem magotes e milhões destas alminhas por ai abaixo todos ao mesmo tempo e em filas quilométricas em tudo, estradas, supermercados , estacionamentos e na praia uns em cima dos outros aos magotes. Para mim é um mistério… A própria praia está decadente, mas não é só aqui, está decadente em Nice, em Cannes, em Saint-Tropez. Vai acontecer às praias o mesmo que aconteceu à noite, vulgarizou-se, e não tem nada a ver com snobeira, tem a ver com quantidade de gente que prefere estar na molhada de uma praia, em vez de estar debaixo de uma sombra de uma árvore na terra, e falo na terra porque tenho essa nostalgia ainda das terras do Coa, que eram as dos meus antepassados. Passava férias extraordinárias, com aquelas ribeiras e afluentes do Coa nada poluídos, onde havia sempre as festas de Santo António e São João. Nunca fui crocodilo nem jacaré de praia, nem mesmo no Brasil. Nunca tive um dia inteiro de praia.
Não percebe o fenómeno?
Não percebo irem todas em agosto, e às multidões para aeroportos. Há uma falta de qualidade de vida do caramba. É um sofrimento. Mas o mesmo se passa com as cidades, não sou eu que inventei isso. Ia muito a Londres, porque tinha lá um filho a estudar, e as últimas vezes que fui para Londres também achei aquilo péssimo. Londres era uma cidade onde eu era amigo do Richard Shepard, um dos sócios do Michael Caine, no Langan’s Brasserie, era uma cidade com tudo do bom e do melhor. Nessa Langan’s Brasserie via várias vezes o Rod Stewart e o Mick Jagger, etc. E hoje em dia, Londres, em classificações internacionais, está considerada das piores cidades do mundo.
É o problema da massificação?
Massificação. Na última vez que fui a Londres, ia comprar uns sapatos, numa sapataria, a Church’s, e passou um bando de chineses ou de coreanos, eu estava a ver a montra e fui parar 30 metros à frente. Tem muita gente em aeroportos, obviamente perde a qualidade, e cria-se uma certa massificação. 90% ou 80% das pessoas que leiam isto, sabem perfeitamente que antigamente havia outra qualidade de vida. Em matéria de viagens ou de praias.
Mas reconhece que é entre julho e agosto que enche a ‘marmita’?
O que é encher a marmita?
Ganhar dinheiro para resistir o ano todo.
Tenho empregados há 40 anos, é um orgulho. Em julho e agosto há faturamentos mais altos, como é lógico, está a abarrotar, mas o resto do ano não dá prejuízo, digamos que eu estou ali a pagar para não virar velho, mas não dá prejuízo. Vai rolando.
Está bem, mas em é em julho e agosto que dá o dinheiro.
Sim, dá o dinheiro, mas não sei se hoje em dia também dá a satisfação que dava antigamente. O faturamento antigamente com menos gente era maior.
Sente a degradação da clientela?
Tento sempre dar uma certa dignidade ao restaurante, e não entram pessoas em tronco nu. Já chegaram a ir lá para almoçar de ‘sunga’. Dizem que o restaurante é de praia e eu pergunto se veem lá alguma areia no chão! Aliás, conto muitas vezes uma frase do meu guest Michael Caine, quando almoçou lá com o meu saudoso e amigo Richard Shepperd, sócio dele na Langan,s Brasserie: ‘Self preservations the society’.
Costuma criticar os restaurantes Michelin, mas chegou a ter fascínio por eles.
Não tive fascínio, não.
Foi ao Adriá, foi a todos.
Fui a todos. Tive viagens de ‘papar’ muitas estrelas Michelin. Tive a sorte de ter grandes amigos brasileiros, em que numa das viagens ‘papei’ praticamente 38 estrelas. Ao longo de 10 e 15 anos... Entre o País Basco, a Catalunha, a França, ‘papei’ 300 estrelas. Mas os próprios estrelados dessa altura não tinham o deslumbramento pelo Michelin, mas alguns fecharam. Aliás, os estrangeiros hoje em dia, até em relação à minha cidade de Lisboa, queixam-se pois a capital tem a mania que é Nova Iorque, com cozinhas do mundo inteiro, mas depois não tem praticamente cozinha portuguesa. Para se encontrar um bacalhau à Gomes de Sá tem que se andar com uma candeia. Mas não é isso. Ganhou os defeitos das grandes cidades e não ganhou as virtudes. Nova Iorque é a cidade que nunca dorme, no outro dia dei uma volta à noite em Lisboa e não tinha um sítio aberto. Estava um deserto autêntico. Hoje em dia, as pessoas gostam, mas eu não tenho paciência. Porque também se exagerou muito em Portugal, porque razão eu tenho de estar a ouvir um escanção, eles dizem sommelier, a falar 15 minutos de vinhos, por exemplo? Ou alguém estar-me a descrever a maravilha dos vinte pratos que eu vou comer? Mas há pessoas que gostam. É evidente que cada um vai e come onde quer. Mas não contem comigo para ir almoçar a points que eram tascas e restaurantes de gastronomia portuguesa do melhor, fundadas por avós, mantidas pelos pais e agora chega lá um neto moderninho, de jaleca preta, tatuagens e brinquinhos, acaba com aquilo tudo e desata a fazer cozidos ‘desconstruídos’ e pseudos cozinhas de ‘autor’ e outras ‘reduções’. No Rio de Janeiro passa-se o mesmo, acabaram com a maioria dos botequins onde se comiam rabadas com agrião, tutus mineiros e frangos à cafreal, entre outros petiscos. Restaurantes de tradição como o ‘meu’ querido Alvaro’s no Leblon, agora são a maioria de comidinhas das florzinhas comestíveis e das bisnagas
Mas frequenta esses restaurantes em Portugal?
Gosto de ir uma vez por ano ao Vila Joya, ao Khoshina, sou amigo pessoal, e que foi o papa de muitos chefs portugueses. Também vou ao JNcQUOI do chef Bóia, que é a exceção, pois é residente. O Bóia passa a vida dentro do JNcQUOI. Não é daqueles chefs que nunca está no restaurante porque vai fazer um programa de televisão para o Dubai.
Costuma dizer que teve três ou quatro grandes referências na restauração.
Jimmy (James) Sherwood, que foi o maior hoteleiro, e cá foi o Joaquim Machaz.
A família Machaz que teve o hotel Tivoli.
Sim, vem dos hotéis Tivoli, que com o pai venderam, mas o Quim conseguiu passar para a terceira geração a hotelaria. Ele tinha o detalhe do pormenor. A sopa quente, sempre a fumegar, aliás ele tinha essa piada, ‘sopas frias só vichyssoise e gaspachos’. Era extraordinário o detalhe do pormenor. Ele dizia que uma fatia de rosbife fino era como se fosse fiambre, só que elevava o patamar. Várias vezes ‘tomei’ pequenos almoços de rosbife e várias vezes ‘tomei’ ceias de rosbife. Aliás, no Tivoli Jardim, muitas vezes, estávamos nós a cear, depois de uma direta, rosbifes acompanhados a vinho verde Alvarinho e estavam os hóspedes, que tinham acabado de se levantar, a tomar café com leite e o pequeno-almoço. Para nós era uma ceia, para eles era um pequeno-almoço.
E a relação com o homem que criou a cadeia Orient Express?
O (James) Jimmy Sherwood era um caso à parte, e gostei muito de ser seu amigo. A história dele é incrível. Foi uma pessoa que combateu na guerra da Coreia, ao serviço da Marinha dos EUA, e quando acabou a guerra perguntou o que iam fazer aos contentores todos que estavam nas Filipinas. Comprou aquilo muito barato e fundou a companhia Sea Containers, tornando-se bilionário. Ele fez um livro, pois fazia crítica de restaurantes em Londres, às tantas viu uma oportunidade, e fundou a Orient Express, onde comprou o comboio, ele adorava comboios, comprou os melhores hotéis de Itália, à época, como o Cipriani, em Veneza, o Splendido em Portofino, e Vila San Michele, que era um convento em Florença, além do Hotel da Lapa e o Reid’s, em Portugal. Também administrou o Hotel da Quinta do Lago pela Orient Express, numa espécie de franchising, comprou o Copacabana Palce, fez uma rede de hotéis, em Itália, Brasil, Peru, um na África do Sul só que ele teve um acidente num hotel das Caraíbas, que tinha comprado, e ficou muito diminuído. Mas era uma figura e não me esqueço dos detalhes dele.
Teve uma relação próxima com ele. De que forma ele o marcou?
Sim, o Jimmy Sherwood tinha um faro especial, tanto que comprou os hotéis mais emblemáticos em Itália, quando o país estava numa fase muito turbulenta por causa das Brigadas Vermelhas. Além das referências, era a amizade que tinha por mim, e dizia que eu era o único independente ‘dentro’ da Orient Express.
Mas dependia da Oriente Express?
Não dependia nada, mas ele recomendava o Hotel Quinta do Lago e o Gigi. Aliás, fazia-me reservas com seis meses, eu ficava maluco. A secretária do hotel ligava e dizia que o Mister Sherwood queria fazer uma reserva, isto em maio, para o dia 22 de outubro. Mas depois eu também tinha um truque. Quando ele gostava, por exemplo, de um rabo de cherne ou de umas amêijoas, eu anotava e quando ele vinha cá, e fazia-o duas ou três vezes por ano, pois ele visitava os hotéis todos, tinha sempre para ele o rabo de cherne e as amêijoas.
Além da qualidade do produto e da confeção, um dos seus trunfos foi saber lidar com zilionários, tratando-os como pessoas normais.
Sim, tratá-las como normais, mas sabendo que são especiais. Isso é o fascínio da Quinta do Lago. Há anos que tem zilionários e, muitas vezes, no restaurante estão dois irlandeses ao lado de dois alemães, dois ingleses ao lado de dois alemães, e tudo tranquilo. A maioria é irlandesa, ingleses e alemães. Mas estão todos ali ao lado uns dos outros.
Quando chega à Quinta do Lago, em 85, deixa os seguros...
Entretanto tive uma loja de vinhos de referência no Bairro Alto, O Bezanas Wine Shop, lembro-me muitas vezes por causa do restaurante Pap’Açorda, a quem vendi muito vinho. Quando tinham clientes especiais, digamos assim, o Miranda ligava-me a perguntar se tinha Barcas Velhas. ‘Tenho, estão aqui à tua espera’, dizia-lhe. E, na verdade, nem mexia em dinheiro, pois ficava com um bilhetinho de crédito, e depois eu almoçava e jantava lá muitas vezes. Fazíamos o encontro de contas.
Quando arrancou com o restaurante não era o que é hoje. Era uma coisa mais simples e para portugueses. Não, na verdade, arrancou para estrangeiros. Até ainda no tempo do André Jordan, onde ele deu várias receções.
Havia muito pouca gente a viver na Quinta do Lago. Pouca gente, e os portugueses nunca foram grandes frequentadores.
‘Herdou’ o restaurante do seu amigo Manecas Moceleck, uma figura histórica da noite. Tivemos um ano juntos, mas não fizemos a sociedade para não acabar ‘brigados’. Já existia um gentlemen agreement porque ele gostava da noite, e ele estava no bar Pátio, isto em 1985. Em 1984 estava no Bananas, em Vale do Lobo.
Quando arrancou com o restaurante já havia carabineiros? Nem havia carabineiros, a Gigi Bola foi lançada por mim, sangria com champanhe, que eu fazia na minha loja e chamava-lhe Bola Bola.
Veio para o Algarve com o seu irmão Miguel.
Ele é que me influenciou muito, nós estávamos no Brasil e eu optei por vir para o Algarve, estava determinado a comprar o Quebra Coco, na Praia dos Tomates, mas depois surgiu esta oportunidade e fiquei por aqui. Investi com o André Jordan, depois de ter decidido ficar no ano a seguir, sem ferir o Manecas, em 86 resolvi dedicar-me aos residentes da Quinta do Lago, apesar de eu ter uma rede de amigos portugueses muito forte, mas também tinha uma rede de invejosos. Mandei colocar numa t-shirt uma frase do Juca Chaves, ‘contribuam para que o Gigi passe o inverno no Brasil’. O que os invejosos inventaram. No fundo, aproveitei uma data de coisas, inclusivamente o facto de o restaurante Passos fechar ao domingo.
O seu restaurante caracteriza-se por ser um dos espaços mais conhecidos do país no que diz respeito a marisco e a peixe...
Sem falsas modéstias, direi que é um dos mais conhecidos do mundo, em referência. Saí nos Estados Unidos, saí em todo lado, fiz várias viagens, até com o Sherwood, que fez uma coisa nas British Virgin Islands para eu ir para lá trabalhar no inverno, aquilo não deu porque ele teve o acidente, e depois foi de tal maneira que o enteado perdeu até o nome de Orient Express, hoje em dia chama-se Belmond, foi vendido à Louis Vuitton.
Mas chegou a ser convidado para fazer o Gigi noutras latitudes.
Estive na Tailândia onde montei um restaurante, como sócio do Oriente Express, que era o Zaman, e fui convidado para ir até às Filipinas, mas já tinha começado a época em Portugal e delicadamente disse que não. Fui convidado para fazer restaurantes em Dublin, Londres, Nova Iorque, Angra dos Reis, Rio de Janeiro, se calhar até me falha alguma coisa. Há duas palavras que eu hoje em dia acho completamente bacocas, que é com a assinatura do chef Y, ou então o chef residente. Eu vou ao restaurante e o chefe nunca lá está. Nunca achei piada aquela do restaurante do ‘chef com a assinatura’. Um chefe ou dono de restaurante tem de estar lá. Ou como diria o Paul Bocuse, larguem o calor das televisões e voltem ao calor dos fogões. Eu, normalmente, mesmo estando de canadianas, faço questão de estar no restaurante. Aliás, se eu não estiver lá as pessoas começam logo a dizer que estou doente.
Foi convidado para fazer o Gigi em muitos sítios, mas teve um restaurante e uma pousada em Búzios, no Brasil, com os seus irmãos.
Foi aí que tudo começou, onde me entusiasmei, depois ainda tivemos um restaurante em Sintra, que era a Flor da Várzea, quando trouxemos a picanha, eu e o meu irmão Miguel, mas estávamos muito avançados no tempo, isto já nos anos 89. Tínhamos picanha ao sal grosso e feijoada à brasileira, e outras coisas.
E a bebida que ninguém conhecia que era a caipirinha.
Ninguém bebia caipirinhas, aliás tive um episódio engraçado da minha vida que foi fazer uma empresa de import-export e fui para o Brasil carregado de vinhos, nessa altura da minha loja. E o meu irmão diz-me: ‘Não há hipótese, o Brasil não bebe vinho, tirando raras exceções, o Brasil só bebe cerveja, vodka, e caipirinha’. Fiquei muito desconsolado, e bebemos os vinhos todos em Búzios, na pousada. ‘Para não ficares triste, vou-te arranjar uma representação de cachaça para levares para Portugal’, disse-me o meu irmão João. Trouxe a representação de cachaça para cá, ninguém bebia cachaça. Fui vender quatro míseras garrafas de cachaça a um bar na Óscar Monteiro Torres, tinha um brasileiro lá a tocar, que era o Bip-Bip. Vendi quatro garrafas, e o homem dizia-me que não vendia nenhuma caipirinha, e era um bar brasileiro. Como já estava com os copos acabei por lhe vender quatro e dei-lhe outras quatro. Curiosamente, hoje em dia Portugal só bebe caipirinhas e o Brasil só bebe vinho [risos].
Há diferenças significativas de comportamento de 1985 para 2025?
A Quinta do Lago nunca teve uma cultura de muita ostentação. O próprio Ayrton Senna tinha o seu Honda NSX. Também vi Jeep, Rolls Royce, já vi tudo mas não há uma cultura de ser a coisa mais importante, a ostentação. O antigo presidente do Bundesbank, por exemplo, recebia da Volkswagen, na Quinta do Lago, carros de topo de gama, e um dia vi-o com um carro a engasgar-se, o carro era muito potente e ele estava habituado a andar de motorista, desabafou que lhe mandavam sempre carros complicados. ‘Preciso de uma coisa simples’, dizia ele. A cultura da Quinta é um bocadinho utiliza a tua liberdade e respeita a liberdade dos outros.
Mas há diferenças entre a Quinta do Lago de 1985 e a de hoje?
Tem muito mais gente, tem aldeamentos, e tem uma coisa terrível, negativa, só enche no período de julho a agosto, um período impossível. O resto do ano é o meu Algarve paraíso, que vai de setembro a junho. É o Algarve do Paraíso.
Outra coisa que o caracteriza é que muita gente diz que tem mau feitio, que corre com alguns portugueses, que se chateia.
Não, corro exatamente com figuras que têm pior feitio do que o meu, isso é verdade, sejam portugueses ou estrangeiros. Em agosto há aquele género de cliente que aparece e pergunta: ‘Mas não tem mesa porquê?’ Eu dou umas respostas às vezes de Monty Python, ‘não tem mesa porque estamos em janeiro e eu estou cheio’. Depois há os clientes que querem à sombra, querem ao sol, querem lá fora, mas com frio. Toda a gente sabe, inclusivamente aqui o entrevistador, que o sítio mais fresco do restaurante são as mesas lá de dentro. Portanto, não podem ter o fresco de dentro, com o calor de fora! Eu mesmo em tascas em Lisboa reservo com três ou quatro dias de antecedência. Os portugueses têm o vício de se acharem importantes quando são convidados e chegam atrasados, e o outro é de não reservar, com aquela frase, entre aspas, ‘ele para mim arranja’, acham que isso lhe dá status. O status para mim vem de carrinho.
Tem empregados há 40 anos.
Tenho muito orgulho. Como já vou em terceiras gerações de clientes, alguns dos meus empregados já conheceram os filhos e agora estão a conhecer os netos dos primeiros residentes, belgas. Hoje em dia perdeu-se um bocadinho a cultura de conhecer os empregados.
Consta que tem só contrato por mais três anos? Que vai fazer a seguir?
Bem, costumo dizer que se parar de trabalhar ‘viro’ velho, posso renovar, ou até posso vender a marca, que é minha e já teve muitas ofertas… mas estou ligado por um ‘cordão umbilical’ aos meus senhorios e amigos Irlandeses e eles estarão sempre em primeiro. Também posso fazer coisas a seguir, mas eu e Dona Leonor, nessa altura, menos ‘acelerados’. Uma coisa é certa. Parado não fico e também pode acontecer uma cena parecida com a de Jimmy Sherwood quando comprou um hotel para a Orient Express, no Colorado, o Lodge & Vail…. Aquilo era de dois velhotes e quando ele lhes deu o cheque ‘gordo’ perguntou-lhes? ‘Então? E agora vão fazer o quê?’ E eles, ‘olhe Jimmy , primeiro vamos comprar um Rolls Royce que era um sonho de vida, e depois vamos pedir-lhe para ficar aqui a trabalhar, já mais calmos e menos ansiosos’. Aí o Sherwood riu-se e topou, e os velhos lá ficaram, indo todos os dias trabalhar de Rolls Royce.
Porque se lembrou de fazer roupas Gigi?
Isso começou com uma piada do Thierry Lauren, irmão do Ralph Lauren. Quando o André Jordan tomou conta de Vilamoura, foi lá almoçar com o Thierry Lauren, e este virou-se para mim, e disse: ‘Esses calções são meus’. E eu respondi: ‘E esses carabineiros são meus também’. Mas depois com essa piada, comecei a pensar, por que tenho que estar com os calções do Ralph Lauren? Vou fazer os meus próprios calções, os meus próprios polos, as minhas próprias camisas. Faço uma exceção ao Rosa & Teixeira, porque sou amigo do Castro há muitos anos, onde compro umas coisas. Mas digamos que me fardei e fardei o meu pessoal. Agora, por exemplo, tenho que andar de calças por motivos de saúde, embora também estivesse na altura de abandonar os calções. Comecei aos 35 anos até com uma frase. ‘Aos 35 anos grandes decisões. Troquei o fato e a gravata pelos calções’. Também achei que aos 75 tinha que fazer uma mudança e fiz a mudança dos calções. Fiz também, como eu tenho um torneio de golfe com o meu nome, que a Quinta faz, que é o Gigi Cup, os prémios acabam por ser a minha roupa. Tenho a marca registada, Gigi Praia, que foi feita pelo José Maria Ribeirinho. Talvez um génio. José Maria Roumier. Fez o logótipo do Gigi, fez da minha antiga empresa de seguros, do Bezanas Wine Shop, do Bananas e o Stones.
Qual a razão para ter sido obrigado a recuar 20 metros do sítio onde estava, se tinha árvores de frutos, se as dunas tinham vegetação?
Na verdade não sei, nunca estive em cima da duna porque o André Jordan, quando fez o projeto, já com a anuência do primeiro diretor do Parque Natural da Ria Formosa, fez o restaurante fora da duna. Tanto que a duna está lá e mantida por mim. Já tinha árvores, tinha ali um jardim enorme. Deslocaram 20 metros, ok.
E horta que tinha couves, árvores de fruto, catos e por aí fora desapareceu. Desapareceu. Hoje em dia tem mais calor, mais vento, mais frio. Mas é assim. E neste novo restaurante ‘levei’ com 38 leis de instalação. Desde a obrigatoriedade ter uma placa que diz atmosfera saturada de CO2, na esplanada. Burocracia pura. Costumo dizer a brincar onde é que isto vai estar saturado de CO2? Quando o Kim Il-un mandar um míssil da Coreia do Norte. Na realidade eu só precisava de uma coisa ali que era a casa de banho dos deficientes.
Não teve muitos problemas com a burocracia?
A proibição das colheres de pau... A burocracia é tramada. Uma das tascas onde comia das melhores mãos de vaca com grão da minha vida era na chamada Malveira dos Bois, eu ia muito porque tinha os carros antigos em Caneças. Foram lá ao restaurante e começaram a dizer que não podia ter a casa de banho no exterior, não podia ter colheres de pau, não podia ter isto, não podia ter aquilo, aquelas leis rígidas, e o homem fechou a porta nesse dia à noite. O restaurante era fascinante. Eu ia às quintas-feiras, que era o dia da Feira da Malveira que começava – já no tempo do Chico Carreira, que era onde comprava os bois para o seu restaurante do Parque Mayer – a vender coisas às duas da manhã. Eu assistia a uma coisa fascinante nesse restaurante da mão de vaca, que era pessoas que chegavam com os legumes às duas, três da manhã, a montarem as bancas, almoçavam mão de vaca com grão às dez da manhã.
O que irrita nesta fase da restauração?
Os enochatos, fala-se muito em vinho, tenho uma teoria desde a minha loja no Bairro Alto, que levei para os restaurantes, que é ter cartas curtas, mas com bons vinhos do agrado dos clientes. Os portugueses andaram a fazer vinhos com muita graduação, o que não joga bem com 40 graus de temperatura na praia. Como tenho uma clientela 99,9% internacional, fora dos meses de julho e agosto, que conhece vinhos, não gostam dos que são muito pesados. Os enochatos é a turma que tem a mania de ter conversas sobre vinho. Lisboa e Portugal correm o sério risco de perderem a cozinha tradicional. É difícil encontrar um bacalhau à Gomes de Sá, umas tripas... tenho a sorte de viver numa zona em Alcântara onde existem duas ou três tascas. Depois há também outra mania em Portugal, além das estrelas, que é os prémios. Isso é fatal. É-se premiado por tudo e por nada. Os queijos então... Há uma fobia do prémio. Essa coisa do melhor do mundo não existe, não há melhor do mundo, há os melhores do mundo.
Ainda mantém a paixão pelos carros antigos?
Não, com a doença vendi tudo. Fiquei com o Porsche do Quim Machaz, por uma questão muito sentimental, por ser o Porsche que o Machaz comprou em 92, que é uma coisa muito rara, comprou em La Jolla, e fiquei com um Volkswagen Karmann, feito pelo mesmo engenheiro, Ferdinand Porsche, que é um Karmann descapotável, um Beetle descapotável, foram os primeiros que eles fizeram para a Itália.
Também construiu uma coleção de arte.
Não lhe chamo coleção, mas a minha grande amizade com Marie e Volker Huber e o Centro Cultural de Almancil, nos gloriosos anos 80, permitiu-me adquirir umas obras. Cheguei a cozinhar e a fazer trocas por quadros. Conheci e adquiri obras de Ghunter Grass, Revueltas e os grandes alemães saídos da segunda Grande Guerrq. Também tenho alguns portugueses, muitos já partiram e o Centro também. Agora não compro mais nada, a não ser de um artista meu amigo, o Jorginho Ricciardi, que na minha opinião pinta muito bem, e que vou deixar aos meus filhos e netos.
Qual foi o negócio mais difícil da sua vida?
Parafraseando o grande Clint Eastwood, o negócio mais difícil da minha vida foi gerir o matrimónio e manter os filhos unidos, e agora já vou nas netas. Foram lições do meu pai que ficou viúvo quando eu tinha 13 anos e o meu irmão Miguel, o mais novo, tinha 2 e eram proibidos choradinhos e pessimismos lá em casa. Aprendemos que a vida toca-se para frente e dinheiro, resoluções e alegrias só vêm antes do trabalho no dicionário.
Qual é o grande ensinamento da doença e qual é a mensagem positiva que pode dar?
A mensagem positiva é que tem que se encarar as doenças sempre com um otimismo muito forte, parece uma frase feita, mas não é. Tenho uma frase que é: ‘Se não fosse o meu cancro eu provavelmente estaria morto, com a aceleração que eu tinha de boémia e de bebida...’
Bebia muito. Uma garrafa de whisky por dia à vontade? Além de duas garrafas de vinho ao almoço...
À vontade, quando não era mais. Bebia garrafas de champanhe, bebia garrafas de vinho, bebia tudo o que me aparecia à frente. E comia muito também. Sobretudo tinha muita aceleração. Está bem que a vida também mudou, e fiz algumas noites contigo, a 24 de julho já não é a mesma, a noite já não é a mesma, primeiro que as praias, a primeira grande decadência foi a noite. Morreu tudo o que era a minha boémia. O Snob onde encontrava o Vila, acabou. Até o bar do D. Pedro V acabou. Essa cultura de bar acabou. O Pabe, gostava da barra, acabou. O meu bar lá de casa, como eu dizia, o bar do Hotel da Lapa, acabou também.
Não tem medo de se parar envelhecer rapidamente?
Não sei se vou parar daqui três anos, mas tenho um editor para fazer um livro, até tenho dois: um português e um irlandês. O irlandês com mais receitas e histórias da Quinta do Lago, e o português para as histórias misturadas com receitas. Até porque às vezes corto nas histórias dos vídeos.
Mas não tem medo de envelhecer? Não tenho medo nenhum. Estou nos setenta e cinco anos, bem conservado.
Há pessoas que foram muito ativas e recusaram-se a reformar.
Não vou ficar inativo, isso não. Mas eu, hoje em dia, tenho uma incapacidade.
Anda de canadianas.
Não é só isso. Tenho uma incapacidade.
Se soubesse que só tinha tempo para uma última refeição, o que escolheria?
Imitando o grande Joel Robuchon, ‘estreladíssimo’, quando lhe fizeram uma pergunta sobre qual tinha sido a sua melhor refeição, e os gourmets e pretensiosos estavam à espera que ele respondesse um puré com caviar ou outro prato complicado, ele respondeu que encontrou num comboio um amigo da tropa que o obrigou a ir ao interior da França visitar a mãe e a mãe estava a cozer pão e comeu pão com um salsichon e vinho... Eu se estivesse em Lisboa, queria pescada frita com açorda de ovas. Se estivesse no Porto, filetes de pescada com arroz de tomate!