Hoje como nunca vemos ser publicada e celebrada uma torrente de porcaria que nos é impingida como poesia, desta nos dando a ideia de que não passa de uma forma de traduzir o mundo eufemisticamente. De pouco vale levantar exemplos na tradição, sendo que por facilitismo fingem romper com o que na verdade pouco ou nada lhes importa, desconhecendo-a inteiramente, fazendo equivaler liberdade a ignorância, e retirando à poesia esse elemento de tensão fundamental, por não ser uma voz que emerge isolada, mas numa ressonância magistral, capaz de se alimentar de ecos e pulsações ou reflexos que lhe tornam a carne tão instável, de tal modo que as superfícies onde se mira parecem estremecer. Assim, a poesia é um corte que atinge muito fundo o tempo e as reverberações com que este nos salga a memória, e através das múltiplas escalas ao seu alcance, esse golpe tudo faz para abalar o que se deu por adquirido. A tal ponto que só podemos identificá-la pela sedução dos seus modos hostis, numa recusa em que lhe sejam fixados os contornos, sendo a sua tarefa romper qualquer trégua, degradar os limites, evadir-se, desandar. E o que há de inebriante nos seus gestos, é o mesmo ímpeto com que nos levanta sempre novas dificuldades, expondo em cada circunstância o nervo e erguendo contra ele todas as ondas do estremecimento. Assim, o que melhor a define é mesmo essa vantagem acidental, as descobertas que vai fazendo, as imagens que cumula e que atingem as noções a que nos agarramos para as sacudir de alto a baixo. Mas o seu impulso é a deserção. No efeito de contágio entre os idiomas, que apenas se regeneram através dessas irradiações furtivas, frases insolúveis e que tanto se debatem para não se verem represadas, ostentadas, truncadas e exibidas como troféus vulgares, são raríssimos os exemplos de poetas estimados por neles reconhecermos “esse movimento abundante por entre os restantes, essa exuberância no jorro e na aglomeração, essa capacidade de incessantemente alertar de alto a baixo o mundo emocional até o virar do avesso, no que caracteriza a poesia autêntica por oposição à falsa poesia, a poesia simulada, de espécie venenosa, que prolifera constantemente em seu redor”… As palavras são de Breton, que no prefácio que assinava a “Diário de um Regresso ao País Natal”, de Aimé Césaire”, na sua edição de 1947, apostava verdadeiras e grandes esperanças na capacidade única desse poeta negro para levar por diante “o dom do canto, a capacidade de recusa”. Ali ficava claro como o poeta nunca começa por ser aquele que reúne à sua volta um favor constante, nem muito menos unânime. Mas, nos nossos dias, o tesão dessas flores é sempre medido nesses termos. Breton que foi tantas vezes capaz de levantar um dedo e apontá-lo numa direcção que fazia incendiar tantos mapas, notou como “a poesia digna desse nome é avaliada pelo grau de abstenção, de recusa que implica, e esse lado negador da sua natureza exige ser tido como constitutivo: recusa tolerar tudo o que possa já ter sido visto, ouvido, acordado, servir-se do que já serviu, a não ser desviando-se do seus uso prévio”. E, então, promovia o seu juízo, em relação àquele que viria a ficar conhecido como o “bardo da negritude”. “Césaire é, a este respeito, um dos poetas mais difíceis, e isto não apenas por constituir em si a própria probidade, mas também na medida em que a sua sabedoria é mais extensa, sendo simultaneamente dos melhores e mais largamente informados.” Era como se aquele poeta respirasse através do próprio dom do canto, sendo que atrás de cada uma das suas frases, estava “a miséria do povo colonial, a sua exploração desavergonhada por um punhado de parasitas que desafiam as leis do seu próprio país e não sentem qualquer problema em desonrá-lo, a resignação desse povo que geograficamente tem contra si o constituir-se, de longe em longe, por uma sementeira em pleno mar”. É natural que um poeta assim surja ainda, tantas décadas depois, e numa altura em que se julga superada a questão colonial, como uma voz de um passado ao mesmo tempo inoportuno, intolerável, demasiado colérica para os nossos hábitos, manifestando a maior parte dos leitores de “poesia” entre nós uma preferência pela expressão que, mais ou menos contida, não deixa nunca de agradar, de provocar um efeito de harmonia ou consolação. Este leitor preza esse seu recolhimento, esses momentos em que se fecha para se mimosear, para sentir que, por ler versinhos, faz com que o perfume da sua consciência impregne os seus dias. Detesta ser ultrajado, e reconhece beleza em tudo aquilo que o confirma, dando-lhe margem para se sentir identificado. Já Breton identifica a grande poesia com uma “intensidade excepcional da emoção perante o espectáculo da vida (desencadeando o impulso para agir sobre ela com o intuito de a mudar) e que persiste, até ver, irredutível”.
Entre tudo o que os aproximava, era decisiva a devoção por Lautréamont, cuja poesia, segundo Césaire, era “bela como um decreto de expropriação”, tendo sido ele “o primeiro a ter compreendido que a poesia começa com o excesso, a desmesura, as buscas marcadas pelo proibido”.
Entre nós já haviam sido feitos uns esforços um tanto inglórios de divulgar este poeta incandescente, que começou por causar assombro e perturbação por ter surgido em cena a escrever magistralmente a língua francesa, mas esbravejando dominado pela cólera, num fulgor de desacato que até ali não se vira num negro. Césaire não apenas assimilara a cultura dominante para vociferar e atingi-la numas intimidades apavorantes, mas foi capaz de transcender as ruínas físicas e psicológicas do colonialismo e propor uma nova estética. “Somos daqueles que dizem não à sombra”, proclamava num dos seus textos. “Para mim, a sua aparição, (…) ganha o valor de um sinal dos tempos”, vincava Breton. “Desse modo, desafiando sozinho uma época em que se crê assistir à abdicação geral do espírito, em que já nada parece ser criado senão com o desígnio de perfazer o triunfo da morte, em que a própria arte ameaça estancar nos fundamentos antigos, o primeiro sopro renovado, revivificador, capaz de devolver a confiança é emanado de um negro. E é um negro que maneja a língua francesa como hoje em dia não há um branco capaz de a manejar. E é um negro que hoje nos guia no inexplorado, estabelecendo progressivamente, como se brincasse, os contactos que nos fazem avançar por sobre as centelhas. E é um negro que não é somente um negro mas todos os homens, que exprime todas as suas interrogações, todas as suas angústias, todas as suas esperanças e todos os êxtases e que cada vez mais se me imporá como o protótipo da dignidade.”
Querendo reivindica-lo para si, e sacudindo, acotovelando Breton, Sartre viria Sartre a assinalar também a importância decisiva da ruptura que a sua poesia significava: “Em Aimé Césaire a grande tradição surrealista chega ao fim, atinge o seu sentido definitivo e é destruída: o surrealismo, movimento europeu na poesia, é arrebatado aos europeus por um negro que o volta contra eles e lhe confere uma função rigorosamente definida... um poema de Césaire explode e revolve sobre si próprio como um foguete, sóis irrompem girando e explodindo como novos astros — ele ultrapassa-se perpetuamente.”
Há um vigor, uma veemência extraordinária na poesia de Césaire, uma audácia e uma elevação inesperada, que nos remete para aquele início da primeira frase do património europeu, com o verso que introduz a Ilíada, em que a palavra “cólera” nos surge “fatal e solene como um apelo que não tolera contestação” (Sloterdjik). Essa cólera pela qual tudo começou no Ocidente, reemerge para denunciar uma “civilização moribunda”, para retratar a sua crueldade constante estando esta infundida sempre numa “hipocrisia tanto mais odiosa quanto menos capacidade tem para nos enganar”. Seria irónico se não fosse tão adequado quanto essencial que o verdadeiro culto pelos valores heroicos que estão na base da cultura ocidental tivessem de ser assumidos por alguém que, nascido à margem desse mundo, mas imbuído dessa cultura como um triunfo nascente, não estivesse disposto a vê-la ficar de castigo entre as aspas da cultura histórica, apenas para efeitos de alusão degradante, nos tantos modos como a nossa cultura se reconhece precisamente pela atitude de renuncia algo consternada diante desses elementos fundacionais. Investindo contra esse elemento de herança dissolvida, de uma cultura que se vê sobreviver apenas enquanto paródia de si mesma, Césaire deixava claro que estava a denunciar “sociedades esvaziadas de si próprias, culturas estagnadas, terras confiscadas, religiões assassinadas, magnificências artísticas aniquiladas, extraordinárias possibilidades suprimidas”. A miséria do colonizado espelhava, afinal, a degradação absoluta desse enredo colonizador, dessa ideia de progresso que não passa de uma forma de predação a partir de um vazio progressivo, de uma cultura que atraiçoa cada um dos seus princípios, ao ponto de estar inteiramente desenraizada, sujeita a uma demência em que perde toda a capacidade de se reconhecer nas acções que pratica, sendo que apenas constrói a sua legitimidade para agir monstruosamente a partir da degradação do outro, alimentando-se da sua carne, gozando o seu sofrimento, derivando para uma epopeia alucinada, devastadora, de tal modo que tudo na realidade a que força os demais a viverem “ressuma crime: o jornal, a muralha e o rosto do homem”. Nas páginas do ensaio “Discurso sobre o Colonialismo”, temos um retrato deste efeito de colapso da cultura e, por conseguinte, da consciência, que hoje se cola a nós como um juízo que nos acompanhará até à implosão total. Césaire assinala como a Europa burguesa “minou as civilizações, destruiu as pátrias, arruinou as nacionalidades, extirpou ‘a raiz da diversidade’. Deixou de haver dique. Deixou de haver avenida. Chegou a hora do bárbaro. Do bárbaro moderno. A hora americana. Violência, desmesura, desperdício, mercantilismo, bluff, gregarismo, estupidez, vulgaridade, desordem”. O que é este regime cultural do pós-modernismo senão o modo desgraçado de se alhear cinicamente aquele ser que reivindicou como triunfo o ter absorvido para si os destroços de culturas assassinadas, infinitamente recombinadas numa tentativa desesperada de obter alguma forma de expiação ou de exorcismo? A tal negritude era um grito entre aqueles que se deixavam rebaixar e submeter espiritualmente aos valores de privilégio no sentido da desumanização dos demais, “ali onde a beata satisfação de si próprio apodrece os olhos, ali onde o secreto desprezo pelos outros desseca os corações, ali onde, confessado ou não, o racismo esgota a simpatia”. Era uma acusação mobilizadora, no sentido de reconhecer como a vingança está ao nosso dispor a partir do momento em que se reconhece como o modo de vida burguesa está coberto de uma maldição, estando esta “condenada a tornar-se, a cada dia, mais intratável, mais abertamente feroz, mais desprovida de pudor, mais sumariamente bárbara; que é uma lei implacável que toda a classe decadente se veja transformada num receptáculo para onde afluem todas as águas sujas da história; que é uma lei universal que qualquer classe, antes de desaparecer, deva previamente desonrar-se completamente, omnilateralmente, e que é com a cabeça enfiada na lixeira que as sociedades moribundas soltam o seu canto do cisne”. E, olhando ao nosso redor, medindo o pulso de tudo aquilo que nos cerca e neste quotidiano dilacerante em que estamos enredados, como contestar esta noção? Ele fala-nos de uma civilização orientada para valores (ou ganhos) sórdidos, que se submete e celebra um bando de negreiros, uma elite medonha, figuras completamente desprovidas de escrúpulos, demonstra como, na verdade, a sanha do colonizador invadiu e impregnou por dentro as nossas sociedades através da exploração capitalista, sendo o patrão cada vez mais nojento, à semelhança do colonizador, que, “para se livrar de culpas, se habitua a ver no outro a besta, faz por tratar como besta, tende objectivamente a transformar-se ele próprio em besta”. No fundo, a violência sobre os “selvagens” foi um prenúncio das volúpias sádicas dessas minorias de "eleitos", que se servem agora da ideologia meritocrática como base para desumanizar com os seus gozos inomináveis a quase totalidade da população, subjugada num regime de guerra civil planetária. Mas para compreendermos este fenómeno, devemos antes de mais encarar como o capitalismo é apenas uma forma de reprodução da desigualdade a um ponto que nos desumaniza a todos, e se assemelha em tudo à colonização, e à forma como esta “se empenha em descivilizar o colonizador, para o embrutecer no sentido mais próprio da palavra, para o degradar, para o despertar para os instintos ocultos, a cobiça, a violência, o ódio racial, o relativismo moral, e demonstrar que cada vez que se corta uma cabeça e se vaza um olho no Vietname e em França se aceita isto, cada vez que uma rapariga é violada e em França se aceita isto, cada vez que um malgaxe é supliciado e em França se aceita isto, há uma característica da civilização que se abate com o seu peso morto, uma regressão universal que se opera, uma gangrena que se instala, um foco de infecção que se expande e que no fim de todos estes tratados violados, de todas estas mentiras propagadas, de todas estas expedições punitivas toleradas, de todos estes prisioneiros acorrentados e ‘interrogados’, de todos estes patriotas torturados, no fim deste orgulho racial encorajado, desta jactância ostentada, há um veneno instilado nas veias da Europa e o progresso lento, mas seguro, do asselvajamento do continente”. Lidas estas palavras, para uma parte de nós, aquela que ainda não se deixou devastar intimamente pela hipocrisia que passou a ser o reflexo dominante da cultura burguesa, é impossível não sentir a pele e até mesmo a carcaça a arrepiar-se com a forma como esta mesma Europa aceita e patrocina o que se está a passar em Gaza. Mas se até certa altura, como assinala Césaire, este nazismo estava restringido aos povos não-europeus, começa a ficar claro como este não foi ultrapassado, mas brota, penetra, goteja, tendo-se mostrado capaz de “aproveitar todas as fissuras da civilização ocidental e cristã para a engolir nas suas águas tingidas de vermelho”. Agora que esta barbárie suprema perdeu toda a vergonha, é essencial voltarmo-nos para aqueles que nos tinham alertado para isto há décadas. “Sim, valeria a pena estudar clinicamente, em detalhe, os procedimentos de Hitler e do hitlerismo e revelar ao distintíssimo, mui humanista e cristão burguês do século XX que carrega em si um Hitler que se ignora a si mesmo, que Hitler habita em si, que Hitler é o seu demónio, que se o vitupera é por falta de lógica, e que, no fundo, o que ele não perdoa a Hitler não é o crime em si, o crime contra o homem, não é a humilhação do homem em si, é o crime contra o homem branco, e ter aplicado à Europa procedimentos colonialistas que até aí abarcavam apenas os árabes da Argélia, os coolies da Índia e os negros de África.”
Césaire desfere ainda mais um golpe nos rins daquele que só agora desperta para achar a sua boa consciência em frangalhos: “E é esta a grande censura que faço ao pseudo-humanista: ter durante demasiado tempo encolhido os direitos do homem, ter tido, ter ainda, uma concepção estreita e parcelar, partidária e parcial, e, feitas as contas, sordidamente racista.”
Sirva isto, antes de irmos aos versos, para que transpareça a força e a clareza incisiva da leitura histórica deste poeta negro nascido em 1913 na Martinica, alguém que em vez do crioulo, absorveu as modulações da língua francesa misturadas com o leite materno. Sendo filho de uma modesta família de sete crianças, foi-lhe incutido desde muito cedo que os estudos e os diplomas eram a única saída do pântano colonial onde a juventude antilhana se afundava. Tendo crescido com os clássicos à cabeceira, e sendo tão instigado pelos pais, teve uma excelente prestação no Liceu Schoelcher, em Fort-de-France, e, aos 18 anos, conseguiu uma bolsa para o conceituado Lycée Louis-le-Grand em Paris, onde conheceu Léon Damas e Léopold Senghor e começou a mergulhar nas influências que o fariam desenvolver a sua teoria da negritude. Esta instituição viria, por sua vez, a abrir-lhe o caminho para a entrada na École Normale. Paris naquela década de 1930 deu-lhe as condições para se sujeitar ao impacto de duas influências que acabaram por convergir de forma crucial na sua poesia: o Surrealismo, e o novo interesse pela etnografia africana, com um foco particular no trabalho de Leo Frobenius. No seu ensaio de 1965 Qui est Aimé Césaire?, Michel Leiris refere como “Césaire encontrou no surrealismo uma forma de encarar o mundo que não podia deixar de o compelir. Não era o surrealismo, em revolta aberta contra toda a estrutura do racionalismo ocidental, que os intelectuais europeus reunidos em torno de Breton rejeitavam como uma tirania intolerável, ainda menos tolerável para um antilhano negro, já que essa estrutura é, historicamente, aquela que os brancos sobrepuseram, por assim dizer, aos escravos que importaram de África e aos seus descendentes?”
África — as raízes e a civilização do continente negro — é o que permite aos descendentes de escravos deportados para a América reencontrar uma identidade para além das máscaras que lhes impuseram. Césaire e Senghor leram muito juntos, instigavam-se, debatiam, iam mesmo ao ponto de se zangarem, romperem por uns tempos, mas era como se o laço fosse mais forte, como se o mundo tornasse a aliança entre eles algo imprescindível. Em 1934, criaram L’Étudiant noir, o primeiro jornal cultural e sindical dirigido a todos os estudantes negros, quaisquer que fossem as suas origens, de ambas as margens do Atlântico. Em 1936, Césaire, admitido na École Normale Supérieure, começou a escrever o Diário de um Regresso ao País Natal, publicado em 1939 e onde o termo “negritude” surge pela primeira vez. Ao escolherem este termo (negritude), Césaire e Senghor limitaram-se a latinizar a palavra depreciativa para negro em francês (nègre) acrescentando um sufixo aumentativo. Este conceito significa não, como se pensa frequentemente, “negritude em primeiro lugar”, uma crença na superioridade africana, mas sim, como explica Leiris, o direito de ser o que se é, o direito de “permanecer diferente”: “Para que Césaire esteja consciente da sua negritude e consciente dela enquanto martinicano, foi-lhe necessário perseguir desde o início dois objectivos: politicamente, libertar o seu país de formas de exploração económica que condenam as massas à miséria; culturalmente, pôr em relevo o elemento especificamente antilhano, o que implica que, sem subestimar o papel da civilização ocidental, é necessário voltar-se para a herança africana tão frequentemente esquecida ou negada pelos antilhanos de cor que só querem ser franceses de primeira classe.” Em torno desta ideia, veio a construir-se um movimento literário e intelectual revolucionário, cujo impacto cultural e político continua a fazer-se sentir e a reforçar-se nos nossos dias. Dada a urgência e a enorme repercussão da sua acção política, a poesia de Césaire tende a ser considerada muitas vezes como uma expressão retórica desta consciência, de um certo elemento de denúncia política, mas basta ler “Diário de um Regresso ao País Natal” para reconhecer como a sua força está do lado da invenção, e encontramos nas suas imagens poéticas aquela densidade arrebatadora, aquela estranheza fenomenal e “força suficiente para sacudir os mundos” (Breton). Em 1982, a respeito do seu percurso poético, Césaire disse estas palavras: “Somos homens do sagrado. Não sou um iniciado, ou fui iniciado através da poesia, se quiserem, e acredito que o sagrado existe em nós, mas é um sagrado que foi profanado, que foi reduzido a lugar-comum... Encontrar o sagrado novamente significa restaurar a sua energia; por outras palavras, restaurar o sagrado na sua dimensão revolucionária, no sentido estrito da palavra.” Em grande medida, a obra deste poeta a quem Sartre chamou “Orfeu negro”, vai buscar a sua intensidade e urgência a esse mergulho no inferno que o impede de alguma vez se confundir com esses linguareiros que se servem do verso para tecer inanidades sonantes, mas, por outro lado, pagou o preço de ficar excessivamente associado àquele movimento e de algum modo nunca deixou de ser lido primeiro como negro e depois como poeta. Mas agora, depois da edição de Discurso sobre o Colonialismo seguido de Discurso sobre a Negritude, o mesmo selo, VS Editor, e pela mão do mesmo tradutor, Diogo Paiva (que volta aqui a dar provas de que uma tradução comprometida até ao limite é um modo necessário de oxigenar o idioma, e deve esforçá-lo, fazê-lo ranger e rechinar a língua, deitar os bofes pela boca, até se agoniar, aprender a exprimir-se toda revirada), faz-nos chegar o tal Diário de um Regresso ao País Natal, um longo e ferocíssimo poema que foi conhecendo várias versões, tendo passado quase despercebido no fervor europeu do verão de 1939, quando saiu na revista Volontés, para mais tarde ser saudado como obra poética de primeira grandeza na reedição de 1947, já com o fulgurante prefácio de Breton, que aproveitava então para arrancar o véu às viúvas, dizendo que “era óbvio que o mundo não estava perdido: recuperaria a consciência”. Este texto de Breton é em si mesmo uma peça magistral, manifestando uma crença e um entusiasmo inigualáveis, e que com umas quantas braçadas já nos faz sentir diante de um horizonte imenso, lançados numa aventura de grandes consequências, fazendo-nos atacar o livro como se nos tivessem devolvido os nossos vinte anos: “Abril de 1941. Bloqueando a vista, uma carcaça de navio, lacrada de madrepérolas no solo da praia e visitada pelas ondas – pelo menos, as criancinhas não tinham sonhado nada melhor para a brincadeira durante o dia inteiro –, pela sua própria fixidez, não dava tréguas à exasperação de poder apenas deslocar-se vagarosamente, no intervalo de duas baionetas: o campo de concentração de Lazaret, no porto de Fort-de-France. Libertado ao fim de alguns dias, com que avidez não me lancei nas ruas, em busca de tudo o que estas pudessem oferecer-me de nunca visto, o deslumbramento dos mercados, os colibris nas vozes, as mulheres que Paul Éluard, no regresso de uma viagem à volta do mundo, me afirmara mais belas do que em qualquer outro lugar. No entanto, depressa se precisou um destroço, ameaçando ocupar de novo todo o campo: a própria cidade não se agarrava a nada, parecia privada dos seus órgãos essenciais. O comércio, todo em vitrinas, ganhava ali um carácter teórico, inquietante. O movimento era um pouco mais lento do que deveria ser, o ruído demasiado claro, como através das coisas que dão à costa. No ar fino, o tinido contínuo, longínquo, de uma campainha de alarme.”
Não se referindo ao poeta nem ao livro, na verdade já está aqui tudo neste primeiro parágrafo. O ambiente que nos sobressalta, um travo que, de súbito, nos reordena os dentes, as impressões, esses contrastes que nos indicam que estamos noutra parte, que o mundo tem bem mais fôlego do que nós. E assim… “Todas aquelas sombras disparatadas se desfizeram, se dispersaram; todas aquelas mentiras, todas aquelas bagatelas se desmoronaram: portanto, a voz do homem não estava de forma nenhuma quebrada, erguia-se ali como a própria espiga da luz. Aimé Césaire era o nome daquele que falava.”
O livro arranca aos murros, dá logo cabo das pretensões de tanto leitor de poesia, larga-nos no rescaldo de uma rixa de todo o tamanho: “No fim da madrugada…/ Desaparece, dizia-lhe eu, fronha de bófia, fronha de porco, desaparece, detesto os lacaios da ordem e os besouros da esperança. Desaparece, manipanso execrável, carraça de fradépio. Depois virava-me na direcção dos paraísos perdidos para ele e para os seus, mais calmo do que o rosto de uma mulher a mentir, e aí, embalado pelos eflúvios de um pensamento nunca cansado, eu alimentava o vento, desatava os monstros e ouvia subir, do lado de lá do desastre, um caudal de rolas e de trevos da savana que trago sempre nas minhas profundezas”… Está dado o tom. Não há facilidades, a beleza está lá, mas salpicada de lama, meio emputecida, arrastada para o meio da rua, tratada com os piores modos. A língua soa ríspida, tudo eriçado, prosa com verso, somos largados diante de uma peleja, há desabafos, urros, o Diário varia, e se numas alturas soa como um panfleto de rara violência sobre as Antilhas “dinamitadas pelo álcool, encalhadas na lama dessa baía, na poeira dessa cidade sinistramente encalhadas”, temos a cólera, a amargura e o desespero, há noutras alturas o ânimo de um despertar, um relato cheio de cruezas, mas que, por isso, mesmo nos deixa tão sensíveis aos raros elementos tão tocantes, sendo pontuado pelo ritmo do tam-tam, um cântico de revolta, ironia e imprecação e em que se percebe que foi escrito sob a égide de Lautréamont, Rimbaud e das Cinco Grandes Odes de Paul Claudel, que já se firmavam na sístole e diástole do coração. Sendo diluviano em muitos aspectos, é também uma composição cheia de referências, memórias, alusões, ressonâncias eruditas, balançando-se no vinhedo da tradição, colhendo palavras raras, estrepitosas, atravessado por metáforas que nos atingem como encontrões, repleto de imagens selvagens e obscuras.
Como assinala Marjorie Perloff, trata-se de um longo exorcismo em que o poeta confronta os seus instintos “civilizados”, a vergonha persistente de pertencer a um país e a uma raça abjecta, servil, mesquinha e reprimida como a sua. “Um poema-catálogo paratático que acumula frase sobre frase, imagem sobre imagem, numa complexa rede de repetições, e que tem como objectivo definir o limiar entre o sono e a vigília—o sono da opressão, a aceitação cega do status quo, que cede lugar ao renascimento, a uma nova consciência do que é e pode ser.” Há aqui uma exuberância e um vitalismo nativos, uma energia inesperada com golpes que se servem de um balanço arrancado a partir de forças irracionais, convocando aquela ira que tantas vezes não pôde exprimir-se, e isto sem abrir mão daqueles acenos a um francês sumptuoso, que assim expõe os dentes que num ou noutro momento lhe são arrancados de forma bestial. Assim, a sua capacidade de infundir o texto de ecos daquela grande tradição, engrossa o desacato, a desordem que nela provoca, tendo os tradutores da sua obra para inglês, Eshleman e Smith, notado que a poesia de Césaire é “uma cena perpétua de desmembramento e mutilação”, chegando a celebrar o canibalismo como aquilo que “erradica simbolicamente a distinção entre o Eu e o Outro, entre humano e não humano, entre o que é (antropologicamente) comestível e o que não é, e, finalmente, entre o sujeito e o objecto”.
O poema é uma imensa zaragata, um conflito no sangue, com ritmos de danças africanas, rituais de vodu a insinuarem-se, mas depois há aquela sintaxe tão distinta, o vocabulário de uma exigência e rigor que denuncia um perfume aristocrático sobrepondo-se a qualquer laivo tribal, encarnando essa figura dilacerada entre dois continentes. Não consegue deixar de deplorar como essa sobreposição o fere, referindo-se à condição do colonizado como essa “hedionda inanidade da nossa razão de ser”. Não consegue evitar olhar a cidade inerte que o viu nascer, e nela “essa multidão barulhenta que passa tão espantosamente ao lado do seu grito como essa cidade ao lado do seu movimento, do seu sentido, sem inquietação, ao lado do seu verdadeiro grito, o único que se desejaria ouvi-la gritar (…), essa multidão ao lado do seu grito de fome, de miséria, de revolta, de ódio, essa multidão tão estranhamente tagarela e muda”. No fundo, Césaire exprime a maldição que a sua consciência arrasta, essa repugnância diante do lugar a que pertence, e que ali se fica, entregue à sua desolada cadência, entregue aos “seus curativos de sombra”, “os fedores exacerbados da corrupção, as sodomias monstruosas da hóstia e do vitimário, as cavernas intransponíveis do preconceito e da estupidez, as prostituições, as hipocrisias, as lubricidades (…), as arlequinadas da miséria (…), as nossas baixezas e renúncias”… É como se ele fosse o alvo de tudo o que ali foi dessacralizado, feito refém de uma realidade que parece tão mais horrenda por ser tomada como normal, fala-nos daquele “pântano de casas molengonas”, fala-nos de uma vida prostrada que não sabe para onde despachar os sonhos abortados, fala-nos da “pesada imparcialidade do tédio, repartindo a sombra por todas as coisas iguais, o ar estagnado sem uma brecha de pássaro claro”. E depois, sem aviso, inesperadamente, vêmo-lo entrar por uma dessas pequenas casas, uma “casa que cheira muito mal numa rua muito estreita, uma casa minúscula que abriga nas suas entranhas de madeira apodrecida dezenas de ratos e a turbulência dos meus seis irmãos e irmãs, uma pequena casa cruel cuja intransigência enlouquece os nossos fins de mês e o meu pai excêntrico carcomido por uma só miséria, eu nunca soube qual, que uma imprevisível bruxaria endorminha em melancólica ternura ou exalta em altas chamas de cólera; e a minha mãe cujas pernas pela nossa fome incansável pedalam, pedalam de dia, de noite, sou até acordado à noite por essas pernas incansáveis que pedalam à noite e a mordidela ávida na carne mole da noite de uma Singer em que a minha mãe pedala, pedala pela nossa fome e de noite e de dia./ No fim da madrugada, além do meu pai, da minha mãe, a cubata rachada de bolhas, como um pessegueiro atormentado pela lepra, e o telhado adelgaçado, remendado por pedaços de bidão de petróleo, e isso provoca pântanos de enferrujamento na massa cinzenta sórdida empestada de palha, e quando o vento sopra, estas disparidades fazem um barulho bizarro, como uma crepitação de fritura primeiro, depois como um tição que se mergulha na água com a fumarada dos gravetos que se desvanece…”
Vemos pelo olhar de Césaire esse efeito de terceiramundização, como tudo perde carácter, como certas comunidades ficam entregues à amnésia, separadas das suas raízes, à mercê de um sistema de valores e de uma hierarquia muito restrita e que os degrada continuamente. Sofre assim o peso desse olhar sobre o seu passado, esse olhar que atravessa “o mundo negro desqualificado”, “lares por aí desfeitos”, “toda essa trapalhice, todo esse desperdício, a humanidade reduzida ao monólogo (e julgam que nada disso tem um valor a pagar?)”. É sobretudo esse olhar que foi levado a compreender a maldade de se afectar tudo a uma única escala, do efeito de todas essas servidões que traduzem “essas pazadas de pequenos lacaios sobre o grande selvagem, essas pazadas de pequenas almas sobre as Caraíbas das três almas”. Mas se exclama ao dar-se conta de quanto sangue às tantas aflui à sua memória, e nos fala de como aquele mundo foi reduzido a um “sujo fim de mundo”, nos diz que o sol ali tossica e escarra os seus pulmões, e o “mar baba-se e rosna”, fala-nos das “ilhas cicatrizes das águas, “ilhas migalhas”, “ilhas papel de má qualidade rasgado sobre as águas”, daquele chão de lama, horizonte de lama, céu de lama, e dá conta das “noites fulminadas por odores fortes”, não deixa de ver as possibilidades sonegadas, “a insolente deriva nostálgica de luas ruivas”, e o poder das palavras, quando as “manuseamos talhadas de mundo”. Capta “as posturas de ouro dos pirilampos”, e admite que é graças ao efeito de uma inesperada e benfazeja revolução interior, que lhe é dada agora a oportunidade de honrar as suas fealdades repugnantes. No fundo, Césaire volta ao seu país natal para o exprimir agora através de uma liberdade feroz, encarar aquilo que foi feito a todo um povo: “Nós vómito de negreiro/ Nós montaria da costa do Calabar/ quê? Tapar os ouvidos?/ Nós, cheios até à morte de balanços, de pés-de-vento, de brumas aspiradas!/ Perdão turbilhão parceiro!// Ouço do porão subirem as maldições acorrentadas, os soluços dos moribundos, o som de um que é atirado ao mar… os ganidos de uma mulher a parir… raspões de unhas em busca de gargantas… risadas de chicote… balbúrdias de podridão por entre fadigas…” Isto é um homem que procura compensar “uma multidão que nunca soube fazer multidão”, que nunca pôde insurgir-se para “alguma nobre aventura desesperada”, e que espera através deste grito despertá-la, contar as balas na boca, a saliva espessa, forçando as coisas de modo a que “o nosso coração de quotidiana baixeza expluda”.
Aimé Césaire é o menos eufemístico dos poetas. Nele o exagero informa a realidade de tal modo que esta não pode mais ser olhada tão ingenuamente como dantes. E nesta sua ode tão fraternal quanto desesperada, deixa-se trabalhar por toda aquela miséria, assume as suas “crueldades canibais”, e como durante muito tempo se escondeu atrás de uma vida de estúpida. E então o que se dizia? “Digo que isto está bem assim./ Vivo para o mais raso da minha alma./ Para o mais baço da minha carne!” E nisto envolve-nos a todos. E depois disto começa a fazer o movimento inverso, depois de reconhecer e aceitar a mais desapiedada visão de si mesmo e da sua raça, depois de tocar o fundo diz-nos: “A pretalhada que cheira a cebola frita reencontra no seu sangue derramado o gosto amargo da liberdade”, propondo-se então inventar os seus pulmões, entregar-lhe a sua consciência e o seu ritmo de carne, entregar-se a essa “fraternidade austera”… “E estamos de pé agora, o meu país e eu, de cabelos ao vento, a minha pequena mão agora no seu punho enorme e a força não está em nós, mas acima de nós, numa voz que verruma a noite e a audiência como a penetrância de uma vespa apocalíptica. E a voz profere que durante séculos a Europa nos empanturrou de mentiras e inchou-nos com pestilências,/ pois não é verdade que a obra do homem está acabada/ que não temos nada a fazer no mundo/ que parasitamos o mundo/ que basta que alinhem o passo com o mundo/ mas a obra do homem ainda agora começou/ e falta ao homem conquistar toda a proibição mobilizada nos recantos do seu fervor/ e nenhuma raça possui o monopólio da beleza, da inteligência, da força/ e há lugar para todos no encontro da conquista e sabemos agora que o Sol gira à volta da nossa Terra iluminando a parcela que só a nossa vontade fixou e que toda a estrela cai do céu na Terra à nossa ordem sem limite”.