No ano passado, em vésperas das eleições europeias de 9 de junho, André Ventura visitava a Escola Básica Ferreira de Castro, em Mem-Martins, no concelho de Sintra, acompanhado do diplomata António Tânger Corrêa, cabeça de lista do Chega ao Parlamento Europeu. Perante a reação entusiástica dos estudantes – curiosos por verem em carne e osso a personagem Ventura que só conheciam das redes –, Tânger Correia gracejou à Rádio Renascença: «Se a miudagem votasse, tínhamos maioria absoluta».
É um facto que muitos adolescentes estão totalmente alheados da política partidária e são incapazes de reconhecer o primeiro-ministro ou um presidente de Câmara. Mas o nome do líder do Chega é-lhes muito familiar e até sabem citar de cor algumas das suas ideias. Possivelmente consideram-no não um político mas uma personagem digital que lhes aparece no ecrã do telemóvel a usar a mesma linguagem dos influenciadores.
Se deixarmos de lado o WhatsApp, o YouTube e o Messenger, a liderança nas redes sociais entre a população portuguesa dos 18 aos 24 anos pertence ao Instagram, com 74% de utilizadores. Seguem-se o TikTok (46%), o Facebook (35%) e o X/Twitter (27%). É o que revelam os estudos mais recentes do OberCom – Observatório da Comunicação. Não há dados disponíveis sobre menores de idade, mas é plausível que tenham hábitos semelhantes.
Ora, nos últimos dois anos, o presidente e fundador do Chega obteve um crescimento cerca de 1,4 milhões de seguidores no total das quatros principais redes sociais. No Instagram, tem agora 738 mil seguidores (eram 234 mil em agosto de 2023, segundo uma contagem então feita pelo site Polígrafo). No Facebook, são 652 mil (275 mil há precisamente dois anos). No TikTok, 546 mil (contra 112 mil). Finalmente, no X/Twitter, 234 mil (contra 133 mil). São números datados no momento de publicação deste artigo, pois a contagem prossegue a cada minuto.
«Muitos jovens que abordam o André na rua explicam, eles próprios, por que o seguem», disse-nos a deputada do Chega Patrícia Carvalho. É a principal assessora de imprensa do partido desde 2019 e foi eleita deputada pela primeira vez nas Legislativas de 10 de março do ano passado, pelo círculo de Setúbal. «Os mais novos acham que o que ele diz num determinado vídeo é o mesmo que eles sentem. Às vezes agradecem a maneira simples como ele explica assuntos complicados».
Note-se que o Chega alcança 306 mil seguidores no Facebook e 279 mil no Instagram, o que prova que o líder é mais popular do que o próprio partido – o criador ainda não foi superado pela criatura.
Mais seguidores que Abascal
Estas cifras impressionantes competem, por exemplo, com os números de Santiago Abascal, líder do partido Vox – congénere espanhol da extrema-direita populista, segundo a designação oferecida pela base de dados online The PopuList, dirigida por investigadores de diversas universidades europeias.
Abascal tem 649 mil fãs no Facebook, o que o coloca atrás de Ventura. Só no Instagram e no TikTok é que o político espanhol supera o português. Mas Espanha também tem quase cinco vezes mais população do que Portugal.
É por isso que Ventura gosta de exibir o título de político português com maior número de seguidores nas redes. O que é uma evidência. Podemos desde logo compará-lo com Mariana Mortágua, do Bloco de Esquerda, e Paulo Raimundo, do PCP, líderes de partidos igualmente extremistas, como os descreve The PopuList.
No Facebook e Instagram, Mortágua tem 99 mil e 141 mil seguidores, respetivamente. Raimundo não está presente em nome próprio em nenhuma rede social, o que segundo um porta-voz do partido se deve «à opinião e vontade do próprio, mas também à forma como o PCP opta por interagir na internet».
Quanto aos líderes do PS e do PSD, José Luís Carneiro chega aos 25 mil no Facebook e 11.700 no Instagram, e Luís Montenegro atinge 54 mil e 79.600 seguidores. No Instagram, Rui Tavares, do Livre, supera o dirigente socialista, com 53.700 seguidores, além de ter uma robusta conta no X/Twitter, com mais de 110 mil pessoas.
Alcance e interação
Acontece que lógica de funcionamento das redes não valoriza apenas quem tem mais seguidores. O que conta verdadeiramente é o alcance das mensagens veiculadas e a interação do público (comentários, partilhas e reações). Para gerar ‘reach’ e ‘engagement’ o emissor está obrigado a produzir mensagens simples, emocionais e virais. Precisa de gerar controvérsia, de identificar bem os adversários, de jogar no campo da provocação. Só assim os algoritmos reagem e promovem os conteúdos.
Hélder Prior, professor na Universidade Autónoma de Lisboa e investigador do Laboratório de Comunicação da Universidade da Beira Interior, fez um estudo com base nas publicações de Ventura no X/Twitter em vésperas das Legislativas antecipadas de janeiro de 2022. O resultado saiu numa das revistas do grupo Nature. O académico concluiu que Ventura segue uma «comunicação populista com forte carga emocional e um discurso antissistema», o que aumenta o ‘engagement’.
Segundo Hélder Prior, o líder do Chega apresenta-se como um ‘messias’ digital que «usa as redes sociais como espaço privilegiado para uma comunicação direta» sem intermediários – o que ao mesmo tempo favorece a participação dos cidadãos, que estavam remetidos à ‘passividade’ no tempo em que só existiam os tradicionais meios de comunicação social.
Não é de desprezar a amplificação dos conteúdos de Ventura feita por militantes e simpatizantes. Patrícia Carvalho desmente, no entanto, que o partido recorra a contas automáticas (‘bots’) ou àquilo a que os especialistas chamam ‘astroturfing’ – criação concertada de múltiplos perfis para causar a impressão nos utilizadores da internet de que determinada ideia tem amplo consenso.
«É totalmente falso», garantiu-nos Patrícia Carvalho. «Diz-se isso desde o que o partido apareceu. Não fazemos e não financiamos de todo tais práticas. Mesmo que fossem legais, o alcance que temos nas redes é tal que nem sequer justificaria».
Sem maquilhagem
Tomando como exemplo as redes sociais de André Ventura na última semana de agosto, do dia 25 ao dia 31, conclui-se que não há horas certas para a publicação de ‘posts’. Tanto surgem de manhã, como a meio da tarde ou noite dentro. Os conteúdos de maior efeito incluíram críticas a adversários, mensagens encarniçadas sobre problemas de segurança pública e apelo a sentimentos de injustiça.
No período analisado pelo Nascer do SOL, Ventura publicou 32 conteúdos no Instagram. O vídeo mais popular continha o comentário de Ventura à notícia «mãe das gémeas luso-brasileiras processa médico que denunciou o caso e pede indemnização» – quase sete mil comentários e mais de 55 mil visualizações, o que não corresponde a igual número de pessoas, pois há quem veja o mesmo vídeo várias vezes.
No Facebook surgiram 28 conteúdos. No TikTok, 28 vídeos obtiveram um total arredondado de 1,4 milhões de visualizações. Finalmente, no X/Twitter houve outros tantos 28 ‘posts’.
Os conteúdos digitais do presidente do Chega não são constituídos apenas pela sua mensagem partidária. Abrangem puro entretenimento. É o caso de um vídeo com um gato abandonado em Santiago do Cacém que Ventura segura nos braços.
Fontes ligados ao partido explicaram-nos que as figuras cimeiras do Chega, nomeadamente os deputados à Assembleia da República, publicam e replicam o que querem nas suas próprias redes sociais. Por maioria de razão, assim age o líder. Referindo-se em concreto à intervenção online pensada para os adolescentes, as mesmas fontes detalharam que a estratégia de outros líderes europeus e mundiais partidos tem servido de modelo ao Chega.
Segundo Patrícia Carvalho, «há uma noção de bom senso sobre como fazer as publicações e sobretudo de que os jovens pedem uma linguagem imediata e simples». Disse-nos ainda que o líder «não recorre a maquilhagem sequer» e que muitas vezes é ele quem grava os seus vídeos sozinho, ficando a edição a cargo do gabinete de comunicação do partido – onde trabalham 10 pessoas, todas elas funcionárias do partido.
Voto jovem
A questão está em saber se os adolescentes que hoje se entretêm com Ventura nas redes um dia farão a cruzinha a favor do Chega. Tudo indica que a resposta é afirmativa. Ao fundir quatro sondagens feitas em 2023 para perceber quais as bases sociais das intenções de voto, o sociólogo Pedro Magalhães, coordenador do centro de sondagens ICS-ISCTE, concluiu que a probabilidade de um eleitor votar no Chega se reduz em função da idade. A maioria dos que têm 18 a 25 anos tende a declarar apoio ao partido de Ventura. Pelo contrário, quanto mais velhos os eleitores, maior a intenção de voto no PS e a seguir no PSD-CDS.
O mesmo centro de sondagens revelou há dias um inquérito ao resultado das Legislativas de 18 de maio e chegou à conclusão de que a maioria dos jovens entre 18 e 24 anos seguiu a campanha eleitoral através de canais privados de televisão (42%) e pelas redes sociais (outros tantos 42%). Além disso, o inquérito revelou que o grupo etário dos 20 aos 24 anos foi decisivo para o resultado eleitoral que colocou o Chega como segundo maior partido português em número de deputados.
«O Chega é o partido que capta mais votos entre os jovens», comentou-nos Patrícia Carvalho. «Acredito que seja efeito da nossa presença nas redes socais, porque são os jovens que mais vivem o fenómeno das redes. Olham para nós como o partido que fala para eles e se interessa pelos seus problemas».
Os óculos de sol de André
Os óculos de sol pixelizados com que o líder do Chega aparece às vezes nas redes sociais são um ícone à escala mundial, um meme aplicado no rosto de pessoas reais em fotografias e vídeos. O próprio líder do Chega já o fez num vídeo curto que publicou no TikTok em 12 de março do ano passado. No fim do segmento, uma habilidade digital colocava-o de óculos de sol pixelizados.
Trata-se de um efeito visual ‘kitsch’ para entretenimento adolescente. Tanto pode usado pelos que consideram Ventura uma personagem ‘cool’ e fora do sistema, como por aqueles que o veem com um fanfarrão.
É curiosa a origem. Os óculos apontam para a subcultura ‘thug life’ de ‘rappers’ negros americanos dos anos 90. ‘Thug’, em inglês, significa rufia, bandido, assassino. Os óculos, de preferência descaídos, eram símbolo de estatuto de quem reinava acima das regras da sociedade como um ‘boss’. Ou seja, a «bandidagem», que Ventura diz combater.