quinta-feira, 13 ago. 2026

Elevadores. Presos por um fio

Peritos repudiam a ideia da Câmara de Lisboa de repor em funcionamento os ascensores do Lavra e da Bica antes de uma reforma tecnológica.
Elevadores. Presos por um fio

Os elevadores da Bica e do Lavra não dispõem de sistemas de travagem capazes de evitar nova carnificina em Lisboa. Como se isso não bastasse, os passageiros viajam em cascas de ovo, sem qualquer resistência em caso de colisão. As vidas humanas andam, como os elevadores, apenas e só seguras ao cabo, porque nada mais oferece garantias.

Casa arrombada, trancas a só uma das três portas. A Câmara Municipal de Lisboa anunciou, esta semana, «um novo sistema tecnológico» para o elevador da Glória. Simultaneamente, irá «proceder, com a brevidade possível, à reposição do regular funcionamento» dos outros dois, sem quaisquer reformas estruturais de segurança. Bastará apenas que passem numa «inspeção efetuada por entidades independentes tecnicamente habilitadas».

Travões deslizantes

O guarda-freios André Marques, que morreu no acidente, ainda deitou mãos aos dois travões que tinha à disposição: um às rodas, outro de ar comprimido, para agarrar oito sapatas metálicas à calha subterrânea do cabo. Gestos inglórios de um herói português, traído por quem sabe mais do que ele. Tudo o que conseguiu foi atrasar, em dois segundos, o embate num prédio, a sessenta quilómetros por hora. O Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e Ferroviários (GPIAAF) concluiu que, «na configuração existente, os freios não têm capacidade suficiente para imobilizar as cabinas em movimento».

«As rodas escorregam sobre os carris», explica Pinto de Sá, professor catedrático jubilado do Instituto Superior Técnico. Como também funciona ‘metal contra metal’, o travão pneumático padece do mesmo defeito. Este perito em sistemas elétricos partilhou com o Nascer do SOL um estudo da sua autoria, elaborado agora, comparando o elevador da Glória a outros dois, da mesma época, ainda a circular em São Francisco, Estados Unidos, e Wellington, na Nova Zelândia. São parecidos por fora, mas de mundos diferentes quanto ao respeito pela vida humana.

Os americanos dispõem de enormes sapatas de pinho, com «um atrito muito maior». Sempre que acionadas, deixam no ar um cheiro a madeira queimada e até têm de ser substituídas, devido ao desgaste a salvar vidas.

Os dois elevadores estrangeiros estão equipados com outro travão de emergência: uma lâmina de aço, que desce na vertical e fica encravada na calha do cabo. «A paragem é brutal e pode provocar ferimentos em alguns passageiros, mas ninguém morre», refere Pinto de Sá.

Carruagens de alto risco

As carruagens dos funiculares de Lisboa são uma ofensa ao conhecimento científico aplicado há décadas para proteção da vida humana em transportes públicos. O GPIAAF descreve a «destruição da caixa de madeira» do Elevador da Glória, mal embateu de lado e com o tejadilho, de chapa fina, num prédio. O habitáculo do motorista viria a ser esmagado por um segundo embate, contra dois postes de alumínio.

Este comportamento das carruagens é especialmente vexatório porque Portugal integrou, desde 1991, diversos projetos internacionais de investigação neste domínio, através do IST e da SOREFAME, fábrica pública de comboios fundada em 1943, privatizada em 1989 e extinta em 2004. Esses projetos integraram universidades e empresas ferroviárias de sete países europeus, como a Deutsche Bahn alemã, SNCF francesa e British Rail. Graças a esse trabalho, hoje em dia, automóveis, comboios e outros veículos de passageiros não se deformam em embates a 60 km/hora, esmagando os passageiros. O Nascer do SOL recolheu a opinião de três engenheiros envolvidos nesses projetos, que olham para o acidente do Glória com sentimentos de perplexidade e de revolta.

«Os habitáculos de motoristas e passageiros têm de ser invioláveis, em caso de colisão ou capotamento», sustenta Jorge Ambrósio, professor Catedrático da cadeira de Biomecânica do Movimento do IST. «O problema é que este elevador foi concebido antes das tecnologias que conhecemos há cerca de 30 anos», lamenta o perito que vai integrar o Grupo de Missão constituído pela Câmara Municipal de Lisboa para conceber o futuro Elevador da Glória.

«Aquelas carruagens não foram feitas para bater em lado nenhum, não protegem ninguém», concorda Manuel Cruz, professor jubilado do IST e ex-presidente da SOREFAME e do Instituto de Soldadura e Qualidade (ISQ), empresa portuguesa, fundada em 1965, considerada uma referência internacional. «Se vamos refazer tecnologicamente o Glória, deveríamos refazer todos», considera Rui Loureiro, engenheiro eletrotécnico e ex-administrador da Carris, Metro de Lisboa, Transtejo e Refer, que liderou um dos consórcios internacionais.