O programa de Auto-Rádio cabeceado por Benjamim faz dez anos. Saiu em 2015, composto de duas veredas que não são atalhos: um filme e um disco. Uma versão celebrada em vinil saiu este ano, com som remasterizado e pode ouvir-se sem custos no Bandcamp, tal como o original. Uma película de realidade sobre um mês a tocar diariamente de Norte a Sul, com dois e três companheiros nas teclas, no baixo e na bateria, e uma velha Volkswagen; troncos nus e cevada fresca, calor e noites mal-dormidas. 33 concertos em 33 dias. Tudo errado, tudo certo. O filme realizado por Gonçalo Pôla é um documento da aventura, de depósito na reserva e motor fumarento e periclitante: cuidado, risco de incêndio. Pode ver-se no YouTube. É promoção vitoriosa do artesanato, do risco e da verdade sobre o auto-artifício comercial e a rádio Politeama.
A segunda parte do programa é o álbum com o mesmo nome sobre o afastamento espiritual que segue a viagem e a singular diferenciação das multidões, sem traços imaturos e não-metafóricos. Benjamim tinha 29 anos em 2015. O dom venturoso do dono de Rocinante é estendido pela fotografia de capa de Pôla, onde se vê sobreposto meio-chaço sobre o formoso e loiro, tétrico e isolado trigo alentejano. Vale lembrar que Benjamim viveu em Londres, teve experimentações em voz inglesa, uma primeira vida como técnico de som: gravou The National Crisis (2008) e The Imaginary Life of Rosemary and Me (2012). Já de volta, numa segunda vida, e com residência em Alvito, tem sido produtor (de Joana Espadinha, Lena d’Água, etc.) e cantor. Auto-Rádio é o primeiro álbum cantado em português. Seria tentador encontrar semelhanças com a tradição andarilha do velho nobel Zimmerman and so on and so forth, mas não creio necessário escarafunchar Benjamim– as suas referências não são notórias na escuta do seu trabalho. Benjamim segue pistas de respiração próprias, nada óbvias e aproxima cinema e música de novo, com o recente As Berlengas (2024). Aliás, é um homem associativo, como é preciso observar no crescimento parelho do multi-instrumentista António Vasconcelos Dias. Benjamim é, ao vivo, um Quixote bravo, de entrega amorosa a Dulcineia que vale o bilhete.
Auto-Rádio é um disco de artigos portugueses, feito com que a terra tem dado natural e musical nos últimos 50 anos. Uma palmada no ombro a Marcolino, de Fausto Bordalo Dias, e uma vénia à história dessa geração motivada pela ideia de fazer estrada a cantar para gente rústica em palcos improvisados. Dois dos êxitos 'Tarrafal' e 'Os Teus Passos' estão cá – dez anos hoje são séculos – e tocam hoje. Mas as canções superlativas são low-fi. 'O Quinito foi para a Guiné', 'O Sangue', sobre um velho estropiado e experiência pessoal de emigração e retorno na vida do autor, em nota tão comovente na canção 'Auto-Rádio'. Ouve-se o romantismo de Jorge Palma na ideia prosaica do pedaço de terra e na elevação do cantor-poeta relutante voz da verdade. 'Volkswagen' é um clássico sobre dissidência e tédio em caminhos fechados; 'Rosie' é uma recriação doce de uma canção de 1973, recuperando AP Braga (exilado até 1978, participante letrista a duas mãos nos álbuns de 1974 e 1977 de Fausto) em dueto. O talento para a imaginativa transfiguração de si – mais acabado que no mentor Walter Benjamim, vida breve – é confirmado no álbum-objecto Vias de Extinção (2020).
Anote-se, para ouvir também. Benjamim coordenou depois a produção do excelente álbum de recriação instrumental e cantadeira das canções de Tozé Brito (De novo, 2021): sempre melhores que as originais. Camané sublime em 'Retalhos' (desconhecida mas boa letra de Ary dos Santos, fora dos clichés), Benjamim e B Fachada em graves e altos dialogais em 'Olá, Como vais?', Tomás Wallenstein em cheio, contido em 'Depois de Ti', Samuel Úria a interpretar em tom aparentemente menor, de novo, o necessário para defraudar belamente canções facilmente incompatíveis para diabéticos, e Joana Espadinha e Tiago Bettencourt nessa mesma senda prendada sem virtuosismo.