terça-feira, 16 jun. 2026

Labubu. Os bonecos bizarros que têm conquistado o mundo

São pequenos, peludos, têm um sorriso matreiro e dentes afiados. Podem pendurar-se nas malas ou simplesmente servir para colecionar. Os Labubu foram criados em 2015 pelo artista nascido em Hong Kong, Kasing Lung e, recentemente, tornaram-se um fenómeno no TikTok. Mas o que são e por que razão se tornaram tão populares?
Labubu. Os bonecos bizarros que têm conquistado o mundo

Há mais de um mês que são a nova tendência do TikTok, transformando malas e outros acessórios em peças cheias de personalidade. Há quem os utilize como um pendente, quem simplesmente os colecione numa prateleira, mas a verdade é que estes têm conquistado cada vez mais pessoas – incluindo artistas –, em todas as partes do mundo. A Louis Vuitton, por exemplo, lançou recentemente a sua própria linha de pendentes inspirados nestes bonecos, marcando um ponto de virada simbólico: ao invés de copiar, a China agora também dita tendências globais. 

Mas do que é que estamos a falar? Dos Labubu. Segundo a BBC, este é o nome de um personagem da série de desenhos animados The Monsters, criada em 2015 pelo artista nascido em Hong Kong, Kasing Lung.  Inspirados no folclore nórdico, os rostos de vinil são fixados em corpos de peluche com cerca de 15 centímetros e apresentam um visual característico: várias cores, olhos grandes e esbugalhados, orelhas pontiagudas, e um sorriso meio assustador que mostra nove dentes, fazendo-os parecer adoráveis ​​e, ao mesmo tempo, bizarros e malandros. De acordo com o site oficial do seu revendedor, Labubu é um boneco «bondoso que quer sempre ajudar, mas muitas vezes acaba por fazer o oposto acidentalmente». 

Os bonecos acabaram por se tornar populares em 2019 pela marca Pop Mart – uma empresa especializada em objetos colecionáveis – que começou a vendê-los em caixas surpresas. Ou seja, quem os compra, não sabe qual dos bonecos lhe vai calhar. Pode calhar o que se desejava, ou um repetido. Acredita-se que esse fator surpresa seja um dos fatores que mais tem cativado os fãs que publicam vídeos na rua, em casa, no carro, a abrir as blind boxes. O sucesso destes bonecos foi tão grande que fez com que o empresário Wang Ning, fundador da Pop Mart, conquistasse o décimo lugar no ranking dos homens mais ricos da China, com uma fortuna estimada em 22,7 mil milhões de dólares. 

Uma ‘febre’ que tem dado problemas

No Reino Unido, a loja da Pop Mart teve de suspender as vendas presenciais por questões de segurança, já que as pessoas estavam a formar filas enormes de madrugada e a envolver-se em confrontos para agarrarem no último boneco das prateleiras. «Estava a tornar-se ridículo estar numa situação em que as pessoas lutavam e gritavam, e nós sentíamo-nos assustados», relatou à BBC, Victoria Calver, fã dos Labubu, sobre um episódio na loja de Stratford, em Londres. A mulher disse que quando chegou à loja encontrou clientes que estavam do lado de fora desde as três da manhã e outros que acamparam durante a noite. «Quando lá cheguei, havia uma grande multidão de pessoas ao redor da loja e havia uma energia muito negativa», lembrou. «As pessoas gritavam, queixavam-se por não haverem mais Labubu. Cheguei a presenciar uma luta entre um funcionário e um cliente», revelou. «Foi uma experiência muito assustadora», garantiu. Os Labubu originais, que têm mais de 300 versões, custam entre 20 e 36 euros. Nos sites que os vendem para Portugal podem chegar até aos 105. 

No mês passado, de acordo com a Euronews, homens mascarados invadiram uma loja em Los Angeles e levaram todo o stock deste brinquedo. A câmara de segurança da loja captou a sua atuação, registando graves danos no local.

Face à elevada procura, surgiram os Lafufu – imitações dos Labubu – e, como seria de esperar, muitos se aproveitam disso para enganar outros. Segundo a Forbes, o Better Business Bureau emitiu um alerta aos compradores online depois de dezenas de pessoas terem relatado que foram vítimas de fraudes ao tentar comprar os populares bonecos online e, em alguns casos, perderam centenas de euros. A mesma publicação revela que o BBB Scam Tracker tem 76 relatos de pessoas que pensavam estar a comprar Labubu autênticos, mas acabaram por receber Lafufus, ou não receberam nada. Um cliente que perdeu mais de 400 euros em julho disse que o website que o burlou utilizava imagens e descrições do website da Pop Mart, «dando a impressão de que os produtos eram autênticos». Várias influencers já começaram a partilhar vídeos onde mostram as diferenças entre os originais e as imitações para evitarem que os seus seguidores sejam enganados.

Celebridades rendidas 

Segundo a BBC, a venda destes bonecos disparou em abril de 2024, quando a superestrela tailandesa de K-pop, Lisa, membro do grupo Blackpink, começou a publicar fotografias no Instagram com vários Labubus. E muitos artistas aderiram ao fenómeno. Dua Lipa foi uma das primeiras a ser fotografada com dois bonecos presos na sua mala Hermès. A cantora Rihanna foi vista no aeroporto com um Labubu rosa pendurado na sua carteira Louis Vuitton. A cantora Cher também foi fotografada na passadeira vermelha do Festival Tribeca, em Nova Iorque, com um Labubu azul bebé pendurado na sua carteira preta. David Beckham também tem um monstrinho castanho, que a filha, Harper, lhe ofereceu, preso na sua mala de couro da LV. Cardi B publicou uma story no Instagram onde se vê o seu Labubu a agarrar uma lata de Coca-Cola: «A minha primeira Labubu, vou-lhe chamar Lababa», escreveu na legenda. E Kim Kardashian, considerada uma pioneira de tendências, foi mais longe, mostrando aos seus seguidores alguns Labubu da sua coleção. Também Madonna parece estar rendida aos peluches. A rainha da pop comemorou recentemente o seu 67º aniversário e a sua amiga Bea Åkerlund partilhou com os seguidores o bolo de aniversário cujo tema foi, nada mais nada menos, que os Labubu. 

Sentimento de pertença e voltar à infância

Apesar de parecerem brinquedos infantis e serem adorados pelas crianças, vários especialistas já alertaram que estes podem ter significados mais profundos e preocupantes. Segundo as indicações da marca fabricante, os Labubu são apenas recomendados a partir dos 15 anos, pelo que são mais direcionados para adolescentes e colecionadores. 

«Acredito que, em parte, o fenómeno se deve à forma como este artigo começou a surgir», afirma Tânia Correia, Psicóloga Clínica e Fundadora da Clínica 3m’s. «Ele entrou no mercado através das celebridades, pessoas de referência, quer para adultos, quer para miúdos, através do TikTok. Foram aparecendo com o boneco nas suas malas, em eventos, etc. Isso contribuiu muito para cativar as pessoas», continua. Outro aspeto, segundo a especialista, está relacionado com o próprio aspeto dos Labubu. «Esta mistura entre o assustador e, ao mesmo tempo, o fofinho, traz um contraste que pode ser interessante para algumas pessoas, por não ser tão esperado e, ao mesmo tempo, quase por nos trazer um bocadinho esta projeção do nosso próprio mundo interno: aqueles dois lados a que costumamos chamar «o anjo e o diabinho. O lado mais fofinho, mais querido e o mais obscuro, mais rebelde», detalha.  

Em relação aos adultos, a psicóloga acredita que existe uma parte ligada ao lado de criança que continua a existir em nós. «Esta parte de colecionar pode fazer-nos recordar aqueles tempos dos cromos, de fazer estas coleções. Acredito ainda que acima disso existe esta componente de sensação de pertença a um grupo», sublinha. «Nós notamos muito isto na prática clínica. E embora estejamos num mundo altamente virtual, em que parece que podemos estar conectados uns com os outros a qualquer distância ou momento, essa conexão é cada vez mais superficial… E nós enquanto humanos, mais do que conexões de relatos de situações, de sabermos o que é que os outros andam a fazer ou até de ver esta ‘perfeição’ que é a vida aparente das pessoas, precisamos de emoções, sentir que aquilo que vivemos é partilhado. Acho que os Labubu nos trazem a sensação de que há mais alguém que naquele momento está a receber aquele boneco. Que temos um tema que podemos partilhar, temos algo que estamos aqui todos a querer conquistar: o boneco mais raro, por exemplo. Esta sensação de pertença a uma comunidade», acrescenta. 

Além disso, de acordo com Tânia Correia, tem surgido um movimento em que os adultos se estão a interessar por artigos que, à partida, seriam artigos de crianças: os bebés reborn, as chupetas para adultos, livros para pintar ou os Sonny Angels. «Este voltar àquilo que  se calhar as pessoas não puderam explorar tanto na sua infância, está a tornar-se mais visível», reflete. 

No que toca aos pontos psicológicos, podem existir vários. «O primeiro era como dizia, termos um boneco com os dois lados que nos compõem, o que tenta corresponder mais à parte social, mais doce, dentro do que é esperado, e o lado mais malandro, mais obscuro. A partir do momento em que há essa projeção no boneco e em que posso andar com ele, cuidar dele, exibi-lo, tem o mesmo efeito que os bebés reborn. Projetar cuidados que eu próprio, se calhar, estou a precisar. Além disso, o facto de eles virem geralmente em caixas onde não sabemos o que vai acontecer, trazem aquele efeito que é muito conhecido na psicologia, quase como nos jogos de azar. Esta imprevisibilidade, o mistério, o desconhecido, traz uma maior compulsão. Os jogos de azar alimentam o circuito de dopamina, este prazer de não saber o que vem a seguir e, de repente, recebo uma descarga de dopamina. Depois quero essa sensação outra vez», esclarece. 

Depois, há a questão do Fear of Missing Out (FOMO), em que nós queremos estar por dentro, acompanhar a eventual escassez. «Tudo o que é sensação de: ‘OK, isto pode acabar. É edição limitada… Isto é raro!’. Nós queremos fazer parte do que é raro, porque fazer isso parece que nos faz sentir que somos raros também. Isso toca num ponto essencial no ser humano. Nós queremos sentir-nos especiais por algum motivo», revela a especialista. 

O maior perigo para as crianças, alerta, está relacionado com a acessibilidade dos artigos. «Não estamos a falar de cromos, daquelas saquetas com um valor muito reduzido. Maior parte dos miúdos consegue ter acesso e pertencer. Aqui estamos a falar de artigos mais caros, sobretudo os mais raros. Isto cria aqui um certo status dentro desta comunidade dos Labubu. Muitos miúdos não conseguem acompanhar e podem ficar de fora por isso. Como é que os vão gerir esta componente?», interroga.