À partida pode parecer apenas ficção científica, uma realidade que nos habituámos a ver nos filmes mas que nos parece distante, difícil, ou mesmo impossível, de atingir. A verdade é que a luta para preservar e restaurar a biodiversidade em declínio da Terra não é um problema exclusivo do passado. É um problema moderno e que, sem intervenção, prejudicará o nosso futuro.
Foi precisamente dessa preocupação que nasceu a Colossal, «a primeira e única empresa de desextinção do mundo». «A utilidade moderna da desextinção é reconstruir espécies extintas para o presente, o que garantirá a saúde e a biodiversidade do futuro do nosso planeta. É uma tarefa complexa, abrangente, evolutiva e inteiramente nova», explica no seu site a empresa norte-americana de biotecnologia e engenharia genética, fundada em 2021 pelo cientista George Church (de Harvard) e o empresário Ben Lamm, sediada em Dallas, no Texas. O objetivo inicial é trazer de volta animais como o mamute-lanoso, o lobo terrível (lobo branco), o dodo (uma ave que era endémica das ilhas Maurícias, perto de Madagáscar) e o tigre da Tasmânia.
A contribuição portuguesa
A Colossal BioSciences possui cerca de 170 funcionários espalhados pelo mundo e a cientista Ana Sousa Lopes, especializada em reprodução e embriologia, colabora com este projeto. Recorde-se que a sua principal contribuição para a ciência incluiu o desenvolvimento de um embrio-respirómetro, um dispositivo inovador que permite avaliar e controlar as condições vitais de embriões antes da fertilização in vitro. A cientista chegou na segunda-feira aos EUA e não podia estar mais satisfeita por fazer parte de um projeto «tão incrível». «Nos EUA toda a gente já ouviu falar da Colossal, até porque esta tem muitos diretores de filmes associados. Muitos destes animais extintos já entraram em alguns filmes, como ‘Jurassic Park’, por exemplo. O lobo terrível , também já entrou na ‘Guerra dos Tronos’. Há um grande interesse à volta disto», conta ao Nascer do SOL.
Ana Sousa Lopes ficou a conhecer a empresa numa conferência em Dallas e, através de uma colega e amiga, conseguiu chegar até aos laboratórios. «Eles perguntaram-me se haveria alguma possibilidade de colocarmos um equipamento dos nossos no laboratório, porque não tinham essa tecnologia. Ou seja, conseguem tirar o DNA, fazer edição genética mas era de facto interessante verificar este desenvolvimento embrionário inicial. Nós temos o equipamento para o fazer e assim eles podem ter as primeiras fotografias de embriões, esperemos, de mamute, do dodo e do tigre da Tasmânia», explica. Segundo a cientista, o equipamento chama-se Miri Time Lapse e regista imagens dos embriões em desenvolvimento, permitindo criar vídeos de time-lapse sem necessidade de remover os embriões do ambiente controlado.
Mas porquê a escolha destes animais? «A razão pela qual estão associados estes animais é que eles conseguiram extrair o DNA. Por exemplo, no caso do mamute, conseguiram encontrar mamutes inteiros, tanto na Sibéria como no Alasca, bem preservados, porque estavam cobertos de gelo, e conseguiram isolar o DNA», refere a cientista. «No tigre da Tasmânia conseguiram isolar o DNA a partir de um espécime que está preservado no Museu de Vitória, na Austrália. Portanto, mediante a possibilidade de poderem recuperar o DNA destas espécies, depois conseguem ter as linhas de investigação que definiram para fazer renascer», continua.
Como se dá o processo de desextinção?
No que toca a todo o processo, tal como explica Ana Sousa Lopes, os investigadores extraem o genoma a partir do DNA recuperado de uma espécie. «O objetivo, no fundo, é encontrar amostras bem preservadas deste DNA para sequenciar retirar o genoma. Isto é o passo número um. Depois, o que é que eles fazem? No fundo, técnicas de sequenciação genómica. Acabam por permitir sequenciar o genoma completo. Os humanos já têm o seu genoma sequenciado, e há vários animais que também o têm. Portanto, o segundo passo é sequenciar o genoma completamente», detalha. Depois vão sequenciar os animais que estão mais próximos deles. «No caso do mamute, o elefante asiático; no caso do Tigre da Tasmânia, algum mamífero marsupial; no caso do lobo terrível, que já nasceu, os chamados lobo cinzentogrey wolf. No fundo, o objetivo é sequenciar os genes dos animais que se parecem mais com aquele animal que nós queremos desextinguir. E depois faz-se a comparação entre eles: coloca-se põe-se o genoma sequenciado do animal extinto ao lado do genoma do animal com mais semelhanças, identificando-se os genes que são diferentes e que provavelmente são específicos para determinadas características. Por exemplo, quais são os genes que são específicos do mamute e que não estão no elefante?», continua. «Após esse passo, vão usar várias técnicas bastante recentes e introduzir os genes que são específicos, por exemplo, do tigre da Tasmânia ou do lobo terrível, no genoma dos animais com que mais se assemelham. Vão substitui-los. São técnicas de edição genética», frisa.
De seguida, acrescenta a especialista, cria-se uma linhagem de células com genoma editado, células estas que não têm capacidade para se desenvolver. «O núcleo dessas células é retirado e isolado. Por outro lado, recolhem-se óvulos de elefante, no caso do projeto do mamute, retira-se o núcleo dos óvulos e introduz-se o núcleo daquela célula que já estava feita por edição genética. E essa célula começa a dividir-se… É aí que começa a criação do embrião», explica. De acordo com a cientista, esse embrião acaba por ser colocado numa recetora. O equivalente a um útero de aluguer. «A ideia é colocar esse embrião no elefante asiático, no caso, do mamute, e depois, dá-se o nascimento do animal», conclui.
Interrogada sobre a importância deste processo, a cientista explica que a partir do momento em que alguns predadores são removidos «há uma grande alteração do ecossistema, nomeadamente alterações na cadeia de alimentação». «Eles falam muito no chamado Trophic Downgrade, ou seja, devido a haver esta alteração na cadeia de alimentação e estes animais serem removidos do ecossistema, há uma proliferação de doenças, há fogos causados por causas naturais, uma redução da reabsorção de CO2 na atmosfera e há uma proliferação também de espécies invasoras que não estariam presentes se houvesse de facto esses predadores. Há ainda uma alteração dos ciclos biogeoquímicos. Ou seja, há toda uma alteração do ecossistema», alerta.
Em Abril, nasceram os primeiros dois animais: dois lobos terríveis. O Rómulo e o Remo. «As duas crias nasceram em abril do mesmo animal. O crescimento é completamente associado aos parâmetros que eles consideram normais e não há nenhuma alteração visível», revela satisfeita. No entanto, há coisas que podem correr mal. «Quando se transfere um embrião de um lobo terrível para uma fêmea de um cão doméstico, podem haver abortos associados, porque não são as mesmas espécies e o normal seria os embriões serem rejeitados. Estes animais que são, no fundo, receptores de embriões de uma outra espécie (barrigas de aluguer) e têm que ser imunosuprimidos para não os rejeitarem. De 20 transferências acabam por nascer quatro ou cinco, ou até menos», adianta. Para além disso há muitas espécies, tal como o elefante asiático que não podem ser muito manipuladas por serem espécies protegidas.
A pergunta que muita gente coloca é se será possível trazer de volta os dinossauros. «A nível dos dinossauros, é aquele desafio, não é? Estão extintos há milhões de anos… Teria que ser isolado o DNA em bom estado e ter algum animal semelhante que nos pudesse fornecer o genoma de base e para onde nós pudéssemos fazer uma transferência do embrião. Acaba por ser bastante difícil também. No entanto, nada é impossível», garante.