A vida do Crédito Agrícola acaba de entrar num novo ciclo. Sérgio Raposo Frade assumiu as rédeas da instituição financeira, substituindo Licínio Pina, que esteve 12 anos à frente da entidade, depois de concretizar um conjunto de reformas estruturais, desde a profissionalização da gestão das Caixas à recuperação de indicadores financeiros fundamentais – que permitiram alcançar, em 2024, um lucro histórico de 438 milhões de euros.
O nome do novo CEO era conhecido desde junho – foi eleito em assembleia geral com mais de 96% dos votos das caixas associadas e era, desde 2017, chief financial officer (CFO) da instituição financeira –, assim como os nomes dos restantes administradores executivos. Na vice-presidência do Conselho Geral e de Supervisão está João Nuno Mendes, que foi secretário de Estado das Finanças nos Governos de António Costa, mais precisamente secretário de Estado das Finanças e do Tesouro.
«O trabalho desenvolvido ao longo da última década permitiu colocar o grupo Crédito Agrícola num patamar de solidez e resultados que muito nos orgulha. É sobre esse alicerce que queremos continuar a construir um futuro com sucesso: um grupo sólido, competitivo, atual, próximo e sustentável, preparado para responder com ambição aos desafios de um setor em constante evolução», já veio afirmar o novo presidente do conselho de administração.
É certo que depois deste lucro histórico, a instituição financeira viu os seus resultados cairem na ordem dos 12% nos três primeiros meses do ano. quando comparado com igual período do ano passado. Ainda assim, apresentou um resultado de 99,8 milhões de euros com o banco a elogiar os resultados face à conjuntura. «O desempenho revelou-se muito positivo face às condições de ajustamento de taxas verificadas nos mercados, na sequência da descida constante e persistente das taxas Euribor auxiliadas pelos cortes sucessivos das taxas diretoras do BCE», referiu o responsável, destacando que o trabalho continua a ser desenvolvido «em contextos adversos de crescimento económico das regiões onde operam, continuam a devolver valor às pessoas e empresas que vão resistindo, em especial nos territórios de baixa densidade».
Já esta semana, o banco viu os seus lucros caírem 23,2% para os 172,2 milhões de euros nos primeiros seis meses do ano. «Num semestre marcado por elevada incerteza e com taxas de juro em redução na zona euro, o grupo Crédito Agrícola continuou a demonstrar a sua capacidade de crescimento, ‘performance’ e a sua resiliência», disse o presidente do grupo, Sérgio Raposo Frade, em comunicado.
O produto bancário cifrou-se em 467,7 milhões de euros, representando uma quebra homóloga de 52,9 milhões de euros (-10,2%), decorrente do decréscimo de 65,4 milhões de euros na margem financeira (menos 16,4% face ao primeiro semestre de 2024) para 333,5 milhões de euros no 1S25, pese embora o crescimento nos resultados de contratos de seguros de 8,7 milhões de euros (+18,6% face ao primeiro semestre de 2024) e de 3,8 milhões de euros nas comissões líquidas (+5,1%). Na carteira de crédito a clientes, verificou-se um crescimento de 688,1 milhões de euros face a dezembro de 2024 (+5,4%), para 13.430 milhões de euros, continuando a ser superior à taxa de crescimento do mercado como um todo, cifrando-se a quota de mercado do Crédito Agrícola em 6,1%. Por seu lado, os depósitos de clientes ascenderam a 22.594 milhões de euros no final de Junho de 2025, o que compara com 22.019 milhões de euros em dezembro de 2024 (+2,6%).
A verdade é que a atividade do Crédito Agrícola ganha novos contornos depois de Eugénio Rosa ter comparado o seu negócio com o do Banco Montepio, detido pela Associação Mutualista, uma vez que, segundo o economista, apresentam características e dimensões semelhantes, mas com resultados distintos. Em cinco anos – de 2020 a 2024–, de acordo com as contas de Eugénio Rosa, o Banco Montepio apresentou lucros de pouco mais de cem milhões, enquanto o Crédito Agrícola fixou-se em 1.125 milhões de euros.
E lamenta ainda o montante de crédito concedido pelo Montepio quando comparado com o do Crédito Agrícola. «Se consideramos apenas o período da administração de Pedro Leitão, o crédito dado pelo Montepio aumentou apenas 3,4% (+394 milhões de euros), enquanto o crédito concedido pelo Crédito Agrícola, no mesmo período, aumentou 13,1% (+1.368 milhões), ou seja, quatro vezes mais», salienta.
Banco com outras características
Com mais de 100 anos de aclividade, o Crédito Agrícola apresenta-se como um contributo para o desenvolvimento económico, social e cultural das regiões onde as Caixas Associadas estão implantadas, com uma aposta no interior, ao contrário do que se verifica na banca tradicional. «Pertencemos às regiões onde estamos inseridos e atuámos com as entidades e comunidades de cada localidade a todos os níveis, pelo progresso, como o grupo financeiro de referência que somos», revela a entidade.
E lembra que a sua rede de agências é «marcada pela elevada capilaridade e interioridade», continuando «a garantir a acessibilidade aos serviços financeiros em localidades economicamente mais desfavorecidas e com menor densidade populacional». Mais um pormenor que o distingue das restantes instituições financeiras que atuam no mercado nacional e que apostam numa estratégia assente em clientes urbanos, em empresas maiores e em operações financeiras de maior dimensão. Isto é, uma estrutura mais centralizada, com políticas comerciais homogéneas em todo o país.
É certo que o Crédito Agrícola tem vindo a consolidar-se através da fusão de Caixas de Crédito Agrícola (CCAM), um processo impulsionado por exigências regulatórias e de mercado que tornam mais difícil a operação de entidades de menor dimensão. A par do aumento de escala, a ideia passa também por reduzir os custos e melhorar a eficiência do grupo.
Este objetivo foi recentemente comentado pelo anterior CEO, admitindo que continuava empenhado nas fusões de caixas agrícolas, sendo o objetivo passar das atuais 67 para menos de 60. Aliás, uma meta que o grupo já tem há alguns anos. No entanto, Licínio Lima também disse que este tem sido um processo complexo, até porque as fusões são feitas muitas vezes entre caixas agrícolas próximas, que competem em territórios próximos, com negócios que se entrecruzam e «nem sempre os vizinhos se dão bem».
A História
O Crédito Agrícola nasceu no final do século XIX, inspirado nos modelos de cooperativas de crédito agrícola mútuo já existentes noutros países europeus. A ideia era criar uma forma de financiamento solidário para agricultores e pequenas comunidades rurais, que tinham dificuldade em aceder ao crédito nos bancos tradicionais. Ao contrário do que se verifica no restante setor, funciona em sistema cooperativo, onde cada Caixa pertence aos seus associados. E, se inicialmente o seu foco era quase exclusivamente para os agricultores e as atividades ligadas ao mundo rural, com o tempo foi expandido a sua atividade, apesar de continuar a apostar naquele setor. Uma estratégia que é visível nas linhas de crédito e de financiamento que são concedidas pela instituição financeira.
Atualmente, o grupo Crédito Agrícola é composto pelas Caixas de Crédito Agrícola Mútuo e pela Caixa Central. Além de atividade bancária, também atua nas áreas dos seguros, de gestão de ativos e de capital de risco.