Ficou conhecido por ser diferente. O arquétipo do juiz muito sério, frio e rude não se aplicava a si. Foi, na verdade, o sorriso, a compaixão e a humanidade que fizeram de Frank Caprio um homem admirado e com muitos seguidores nas redes sociais. Morreu na semana passada, depois de uma longa e dolorosa batalha contra um cancro do pâncreas. Tinha 88 anos.
«Amado em todo o mundo pela sua profunda compaixão, humildade e fé inabalável na bondade das pessoas, o juiz Caprio tocou milhões de pessoas através do seu trabalho no tribunal e do seu exemplo de humanidade. A sua cordialidade, humor e bondade deixaram uma impressão duradoura em todos aqueles que tiveram o privilégio de o conhecer ou ouvir as suas palavras», diz uma nota de pesar, publicada pela sua família na sua página oficial do Instragram. «Será lembrado não apenas como um juiz respeitado, mas como um marido, pai, avô, bisavô e grande amigo. O seu legado continua vivo nas inúmeras vidas que ele ergueu e na bondade que inspirou. Em sua memória, que todos nós nos esforcemos para liderar com mais empatia, mais compreensão e mais coração, assim como ele fazia todos os dias».
O juiz norte-americano tinha sido diagnosticado com cancro do pâncreas em 2023, tendo-se reformado nesse mesmo ano. Caprio não baixou os braços e afirmou estar «totalmente preparado para lutar o máximo que pudesse».
«Estou a ser tratado por uma equipa maravilhosa de médicos, tanto aqui em Rhode Island como no Dana-Farber Cancer Institute, em Boston, Massachusetts», chegou a dizer, aos fãs, num vídeo. «Rezo para que Deus guie os seus pensamentos e as suas mãos no tratamento que eles me estão a dar».
E lutou mesmo até ao fim. Horas antes de morrer, tinha partilhado um outro vídeo, nas redes sociais, na sua cama do hospital, a dar conta de que teve uma recaída e, por isso, teve de ser novamente hospitalizado. «Enquanto continuo esta difícil batalha, as vossas orações vão ajudar a levantar o meu ânimo», disse.
Nas redes, Frank Caprio também tinha o hábito de manter um contacto muito regular com os seus seguidores. Costumava publicar vários reels e tiktoks a transmitir uma mensagem simples, porém, necessária: para aproveitarmos «cada minuto» das nossas vidas e praticar o bem com os outros.
Infância e Juventude
Filho de imigrantes italianos, o jovem Caprio, o segundo de três filhos de uma família sem grandes posses, cresceu no bairro de Federal Hill, em Providence, no estado de Rhode Island, onde construiu a sua carreira de mais de 40 anos a praticar a justiça com humor, tal como acreditava que tinha de ser. Dan McKee, governador da região, pediu que todas as bandeiras do estado fossem colocadas a meia haste, como forma de homenagem. «O juiz Caprio era um tesouro de Rhode Island», afirmou, numa nota.
Foi uma criança trabalhadora e responsável. Desde cedo percebeu que tinha de se esforçar e lutar, caso quisesse ter uma vida melhor. Durante a sua infância, enquanto frequentava a escola pública, em Providence, trabalhou em pequenos ofícios, como engraxador de sapatos ou a lavar pratos em cafés e restaurantes, para conseguir juntar dinheiro. Acabou por se graduar na Central High Scholl e, em 1953, chegou a ser campeão estadual de luta livre na mesma escola. Depois do ensino médico ter sido concluído, Caprio obteve um diploma de licenciatura na Providence College, em 1958. De forma a conseguir continuar a estudar, enquanto frequentava aulas noturnas na Suffolk University Scholl of Law, em Boston, Caprio era professor de dia, na Hope High School. Além disso, também serviu na Guarda Nacional do Exército de Rhode Island de 1954 a 1962, no 876º Batalhão de Engenheiros de Combate.
Quando voltou da guerra, começou uma nova fase da sua vida: o início daquilo que viria a ser uma carreira promissora na justiça. Nesse mesmo ano, 1962, foi eleito para o Conselho Municipal de Providence, cargo que ocupou até 1968 e, dois anos mais tarde, candidatou-se a Procurador-Geral de Rhode Island, mas não conseguiu ganhar a corrida contra o republicano Richard J. Israel. Já em 1975, foi eleito delegado à Convenção Constitucional de Rhode Island e participou em cinco Convenções Nacionais Democratas. Ao longo da sua carreira, também chegou a presidir o Conselho de Governadores de Rhode Island para o Ensino Superior, que supervisiona as principais decisões da Universidade de Rhode Island, Rhode Island College e Community College de Rhode Island.
O programa de tv que mudou a sua vida
Nesta altura, Frank Caprio estava com uma carreira sólida. Mas foi através da televisão, com o icónico programa Caught in Providence, transmitido entre 2018 e 2020, com duas temporadas, que a sua forma peculiar de trabalhar e de exercer o seu ofício, principalmente num meio que ainda era muito conservador, derreteu milhões de corações pelo mundo fora. Nesta série, os espectadores conseguiam acompanhar casos reais em tribunal nos quais Caprio estava a trabalhar. Foi, aliás, alguns destes casos que ‘viralizaram’ nas redes sociais, principalmente no TikTok, por serem histórias muito emocionais, em que o juiz exercia a sua compaixão singular, com os vídeos a somarem milhões e milhões de visualizações.
O programa conseguiu um total de quatro nomeações nos Daytime Emmy, incluindo três para «melhor programa jurídico/courtroom», enquanto Caprio conseguiu uma nomeação para a categoria de «personalidade em destaque».
Um dos casos mais virais e que mais marcou os fãs foi a história de Victor Coella, de 96 anos, que levou uma multa por excesso de velocidade. Durante a audiência, o homem explicou a Caprio que estava a levar o seu filho, de 63 anos, que tinha sido diagnosticado com cancro, ao médico, para fazer exames de sangue relacionados com tratamentos oncológicos. Após ouvir o homem, o juiz, emocionado, perdoou-lhe a multa, e o caso comoveu os internautas.
Legado de solidariedade
O legado de Caprio também continuou fora das salas do tribunal. O juiz chegou a criar o Fundo de Bolsas de Estudo “Antonio ‘Tup’ Caprip, na Suffolk University School of Law, em Rhode Island, destinado a estudantes que se dedicariam em melhorar o acesso aos serviços jurídicos em bairros urbanos da região. Mas não foi a única: também Providence College e na Central High School, o juiz criou outras bolsas de estudo, para ajudar os jovens mais carenciados.
Com um legado único e impactante, o Conselho Municipal de Providence decidiu alterar o nome da sua antiga sala do tribunal para “The Chief Judge Frank Caprio Courtroom“ (Tribunal do juiz Frank Caprio), em sua homenagem, tendo a cerimónia ocorrido no dia 20 de outubro de 2023.
Já num dos seus últimos feitos, Caprio publicou, este ano, no mês de fevereiro, um livro de memórias, intitulado Compassion in the Court: Life-Changing Stories From America’S Nicest Judge (Compaixão no Tribunal: histórias transformadoras do juiz mais simpático dos EUA), no qual conta a sua trajetória na Justiça, desde um simples filho de imigrantes a uma das personalidades mais conhecidas do meio pelo mundo fora, e onde se podem conhecer, mais a fundo, as histórias emocionantes e complexas que trabalhou ao longo dos tempos.
O juiz foi casado por 60 anos com Joyce E. Caprio e deixa cinco filhos.