quarta-feira, 21 jan. 2026

Luís Evaristo. “O meu maior talento talvez seja visionar as coisas”

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Luís Evaristo. “O meu maior talento talvez seja visionar as coisas”

Aos 51 anos, Luís Vilarinho, perdão, Luís Evaristo, está de volta ao restaurante que o lançou para uma carreira empresarial cheia de sucessos, servindo às mesas e controlando todas as operações. Chegou ao topo do mundo da animação noturna em Portugal, mas depois, diz, perdeu tudo com o suprime. A história de vida do homem que foi ao fundo do poço e que se está a reerguer.

Luís Vilarinho de Jesus diz pouco ao comum dos mortais, mas se dissermos Luís Evaristo, aí já muitos o identificarão. É a história de um jovem que começou como nadador salvador de uma praia que lhe havia de dar o nome, que transformou um restaurante de praia, em Albufeira, num local conhecido a nível nacional, que teve uma das discotecas mais famosas de Portugal, a Casa do Castelo, que lançou dois bares que ficaram na memória de muitos, os Lollipop, e que esteve à beira de ter um império de hotéis ligado à animação noturna e diurna, além de um número de empresas de comunicação considerável. Perdeu tudo, depois desceu ao fundo do poço numa clínica de recuperação de adições, mas agora volta à ribalta, por ter reassumido o comando da praia do Evaristo. Com o fim do verão para as multidões, o Nascer do SOL inicia nesta edição uma série de entrevistas com figuras que marcaram, e marcam, a restauração e a animação algarvia, além do comércio local.

Qual a razão para se ‘chamar’ Luís Evaristo? O meu pai iniciou o negócio em 1986, com um sócio, o Júlio Catuna, que era uma figura ligada a algumas casas míticas de Albufeira, como o Snoopy ou o Silver Screen. Antes tinha havido uma coisa ainda mais rudimentar, e a praia tinha o nome de um senhor que tinha uma vinha nas proximidades: o Evaristo. Em 1991 comecei a trabalhar como nadador salvador, sendo que e ia buscar, de bote, os clientes aos barcos e os ia levar. Ou tão simplesmente ia levar a comida. Daí, o nome, a minha alcunha, que bebi e abracei desde sempre. Começou como Luís do Evaristo, porque era o Luís da praia do Evaristo, porque era o Luís que ia buscá-los aos barcos. E isto porquê? Porque um dos grandes impulsionadores de me chamarem Luís do Evaristo, depois o ‘do’ caiu, foi o Paulo China, que era uma força motora muito grande para encaminhar para cá os clientes. Ele dizia às pessoas que conhecia: ‘Vão lá à praia do Evaristo, e vão estar lá com o Luís do Evaristo’. A clientela era quase 90% dos barcos. Em 92, fiquei com o restaurante. Como o meu pai pôs a hipótese de abandonar a atividade, eu assumi a parte do meu pai. Tinha a necessidade de ter a minha independência e de entender que não se conseguia nada sem esforço, e que para se ter aquilo que se queria, tínhamos que lutar, que é o que me impulsiona a trabalhar, a ir tirar o curso de nadador salvador, é o que me impulsiona a ter a minha primeira iniciativa empreendedora, que foi pedir ao meu pai para me ceder a concessão dos toldos, e permitir que eu organizasse isto de outra forma. Em 92 fiquei com esse sócio do meu pai, o Júlio Catuna. Eu depois comecei em 93.

Mas estava a estudar? Sim, em Albufeira. O restaurante abria em abril, e a maior parte das vezes vinha à boleia, com o grande cliente, já falecido, Henrique Duarte, do Hotel Montechoro. Como ele vinha aqui almoçar, eu vinha com ele. Era a forma mais rápida de chegar, em vez de esperar pelo autocarro.

Quais eram os grandes clientes dos barcos? O José Marques da Silva, o Henrique Duarte, o David Mota, o Cafi, o Carlos Santos, do Porto. Eram muitas famílias. Muito grato estou a todos esses amigos e clientes, pois eles foram os maiores divulgadores da praia. Alguns deles começaram a vir cá com o Júlio e com o meu pai, e eu consegui manter, inclusive evoluir, naquilo que era a experiência que se tinha aqui no Evaristo. Quem fez esta casa foi o boca-a-boca desses clientes, não havia cá a imprensa, não havia a notoriedade que veio a acabar por acontecer. Portugal é uma aldeia, toda a gente se conhece.

Não estudou Marketing? Zero, tirei o 11.º ano em Humanísticas, estava muito ‘virado’ para tirar Direito, mas decidi matricular-me novamente no 11.º na área C, porque percebi claramente que o meu caminho não era para a advocacia. Mas a um mês de acabar o ano anulei a matrícula. Foi daquelas coisas, é isto que eu quero fazer, é por aqui que eu quero vencer e que se lixem os estudos. E sigo a universidade da vida. [Enquanto estamos a fazer a entrevista, aparece na praia o vendedor de bolas de Berlim a tocar a música de O Padrinho no saxofone, um momento verdadeiramente hilariante].

No tempo de banheiro, teve algum episódio mais caricato no mar? Tive um episódio com o senhor Henrique Duarte, que era o dono do Hotel Montechoro. Ele era teimoso como a potassa, quando acabava de almoçar, bem alegre, estivesse o mar de levante ou como estivesse, tinha que ir sempre para Vilamoura. E há um dia que ele insiste e quer ir, quer ir, quer ir, e eu respondia-lhe: ‘não pode, não pode, bandeira amarela’, mas ele tanto insistiu, que acabei por tentar levá-lo no bote. Claro que o bote andou dois metros, virou, e o Sr. Henrique Duarte de malinha numa mão e charuto noutra, foi ao fundo e o senhor Henrique volta com o charuto na mão. Era engraçado o espírito que se vivia e a mecânica, isso fazia parte das férias. A minha ligação às pessoas veio muito por aí, porque havia já uma confiança plena e absoluta naquilo que estava a fazer. Era quase o Luís Evaristo é que sabe. Confiavam, e estamos a falar de famílias com crianças, criava-se essa dinâmica de confiança com as pessoas. E era giro porque havia dias que os ia buscar ao barco, puxava o barco para cima, e depois servia-os à mesa. Esta é que é a verdadeira mística do Evaristo. Tens que ser muito fiel àquilo que acreditas para não deixares que a alma se perca.

Depois entra um novo sócio. Com a opinião positiva do meu pai, acabei por ‘contratar’ o meu sócio. Iniciámos um processo de trabalho em conjunto, cada um com as suas valências, ele um homem de backstage, de bastidores, muito mais ligado à parte operacional, e eu ligado à parte comercial, relações públicas, contacto, recursos humanos, motivação das pessoas e iniciámos o processo profissional que depois é do conhecimento público. As nossas referências não eram de Albufeira, a única que existia era o restaurante A Ruína. O Evaristo nasce, desde o primeiro momento, com o conceito de peixe, sem menu. Isto era a essência: uma montra de peixe e outra com marisco. Onde é que nós nos profissionalizámos? Melhorámos, como é óbvio, no serviço, nos pequenos detalhes, que no princípio não eram valorizados nem relevantes. Isto passou de uma mercearia para um supermercado, sem desvirtuar, porque a fórmula do Evaristo era a referência para o peixinho fresco e pela grelha que tinha. E obviamente que nós acrescentámos a tudo isto uma mais-valia, a disponibilidade que tínhamos para nunca existir um não. Os clientes começaram a vir de outros lados. As referências estavam todos lá do outro lado, na Quinta do Lago e Vale do Lobo, estavam no Gigi, estavam no Passos. Na altura, a minha referência era o Gigi. Ele chegava a Quarteira e toda a gente o conhecia. Fui lá para ‘mancar’ onde é que comprava o peixe. E cheguei a um ponto de conseguir que os fornecedores, pelo menos dois ou três, me vendessem determinado tipo de peixe para conseguir que o Gigi não o tivesse. Porquê? Não era para afetar o negócio do Gigi, mas era para valorizar a minha montra de peixe. Tive que me virar. Ele tinha os clientes ao pé dele, eu tinha que os trazer para aqui, tinha que me diferenciar. Ninguém conhecia o Luís. O Luís Evaristo surge porque o Paulo China mandava para cá clientes. O Paulo e todos aqueles clientes iniciais, o José Marques da Silva, o Henrique Duarte, Raul Leitão, famílias do Porto. Era o passa a palavra e nós tínhamos sempre um ónus de responsabilidade, porquê? Porque éramos muito gratos a essas pessoas e cada uma delas dizia que vinha da parte do não sei quantos. Nós não podíamos falhar. Se a malta fazia 40 quilómetros para vir aqui não os podíamos desiludir. Quem é que vinha almoçar para Albufeira? Tínhamos o Pássaro Azul, a Manuela, a Ruína... Mas nesta zona não tínhamos nada. E nós estávamos a começar. Tivemos que perceber o que é que os outros estavam a fazer e como é que nos podíamos superar. Assim surge a história de servir o peixe na tábua, arranjar o peixinho na mesa, ou fazer uma sangria que se diferenciou. A sangria que se fazia na altura era uma coisa básica. Maçã, laranja e limão. Nós é que começámos a carregar tudo lá para dentro. Era morangos, uvas, quatro referências de álcool, claro que se diferenciou. Nós quase que não vendíamos vinhos, vendíamos sangrias. E foi sempre o somatório destas coisas. Conseguimos criar produtos que se tornaram referência, que eram os cartões de visita. A lula, fomos os primeiros a desenvolver aquela receita de lula, as amêijoas para a esquerda ou para a direita é a amêijoa à Bulhão Pato. Mas era a lula, o entrecosto, coisas básicas, simples, venciam pela qualidade do produto porque não adulteravas o produto.

Procurava diferenciar-se como? Tinha uma montra de peixe riquíssimo. Mas qual era o esforço para ter essa montra de peixe? Quando já tinhas um Gigi que controlava toda a gente lá em Quarteira, que assobiava e apareciam todos. Ele tratava bem todas as pessoas e eu ia ver como ele fazia. Sempre foi uma referência para mim. Não era um concorrente, era a referência. Até que a determinada altura que ele já estava farto dos portugueses, e corria, no bom sentido, com alguns deles, porque já se achavam quase como se fossem eles os donos, e o Gigi, se calhar, já não tinha paciência, mas eu engolia os sapos todos e tinha a paciência toda. Tinha era que sobreviver. Nós temos que sentir qual é o nosso papel e qual é o nosso propósito. Queres sentir-te o dono? Queres sentir que tu é que mandas nisto? Sim, senhor. Money talks, shit walks. Vencemos pelo trabalho e pela máxima que sempre me norteou: não vendemos comida, vendemos experiências, e a experiência é nós conseguirmos que a pessoa faça uma viagem no momento em que aqui está. Isto não está nos livros. É especial porque nós temos conseguido ter a capacidade de perceber o que motiva as pessoas para escolherem ir a um sítio. Qual é o propósito? Qual foi o motivo? Porque ele vai lá para quê? Vai para pedir a namorada em namoro? Vai porque é um almoço de negócios? Vai lá porque são dois amigos? Isto é que é a experiência. Isto não vem nos livros de hotelaria, nos manuais dos XPTOs, isso não vem lá. A verdadeira essência é nós percebermos que cada pessoa que aqui vem, vem viver uma história. E como é que a gente vai fazer parte dessa história? Tenho que perceber se vens aqui para vender algum produto à pessoa que está contigo, ou que vens aqui para ele pensar que se comprar um iate vai-lhe dar um estatuto de dono do mundo.

E qual é o seu papel nesse negócio? Se está aqui num almoço a vender um iate, tenho que me perceber que é um almoço de negócios. E tenho que me aperceber qual é o papel daquela pessoa. E tenho que fazer aquela pessoa sentir-se a última Coca-Cola do deserto. Isto é que é desvendar a coisa. Aquela pessoa vai voltar aqui 20 vezes. Porquê? Porque o Evaristo fez parte integrante do objetivo que o trouxe aqui. Isto é serviço. Isto é experiência. Como vir aqui pedir a namorada em namoro ou pedi-la em casamento... A forma como eu sirvo tem que ser igual para todos. A sangria tem que ser bem feita para todos. O resto é diferente. Tenho que perceber qual é o nosso papel naquela engrenagem. E o nosso papel é ser invisível, e fazer brilhar quem tem que brilhar. Ele, se for ele, que está a pedir em casamento, ela, se for o aniversário dela, ele, se estiver a fazer um negócio, isto é hotelaria. E as pessoas que trabalham aqui têm que perceber o valor deles nesse papel. 50% é o sítio, 50% é o que tu vives, é a alma. É o sentimento.

A comida também deve ter alguma importância! Sem dúvida, mas o peixe que eu tenho está disponível para qualquer um comprar. Claro que é preciso arranjar alguém que saiba grelhar bem o peixe. Estamos a falar num tempo em que ainda trabalhávamos na ‘Tasquinha’ antiga. Depois começámos a dar jantares, que não existia, começámos a ter a filosofia de não sermos nós a fazer o horário das pessoas. Começámos a ter a filosofia de alguém chegar aqui e dizer que queria comer na praia. E nós perguntávamos: ‘Na praia ou na rocha?’ Ou seja, mente aberta totalmente. O não, não existe.

E o fecho também era determinado pelas pessoas? Sempre, não havia horários. Não havia horários, não limitávamos. A cozinha fechava quando se servia o último prato, as pessoas estavam de férias e não éramos nós que fazíamos os horários. É preciso perceber que o Evaristo está no cu de Judas, não é das melhores praias, porque tem muita rocha...

E até que... O nosso trabalho começou a ser reconhecido, mas esse reconhecimento foi uma consequência do empenho, da dedicação, disto tudo que estou a dizer. Foi muito sacrifício físico, mental e emocional, muitas coisas passaram para segundo plano. Tudo. Coloquei sempre tudo em segundo plano, o workaholic... acho que a minha primeira manifestação opressiva compulsiva foi pelo trabalho e acho que o reconhecimento e o sucesso vêm dessa dedicação, desse empenho. Nunca fiz nada para ser famoso, nunca fiz nada para ser o rei disto ou o rei daquilo, coisas que me chamam, mas que nunca me intitulei, foi apenas consequência, não foi propósito. Fazia para vencer e sempre fiz as coisas com total noção e a acreditar que não sou diferente de absolutamente ninguém, mas tenho as mesmas oportunidades que um americano, que um chinês, nunca tive aquela mentalidade provinciana para resumir a minha capacidade ao tamanho do meu país.

O que foi o sucesso? O Evaristo ganha uma repercussão muito grande e com notoriedade com expressão nacional. Sucesso e reconhecimento são duas coisas distintas, o Evaristo foi um sucesso porque a procura aumentou, nós passámos no período de verão a trabalhar a 100%, ainda antes do reconhecimento, quando digo reconhecimento, falo de projeção mediática.

O Evaristo torna-se num espaço frequentado pelo poder económico, político, desportivo... A procura aumentou em quantidade e em qualidade, porque este passar de palavra começou a ter consequências, todas as pessoas que inicialmente vinham aqui tinham uma network de contactos muito vasta, o Zé Marques da Silva trouxe o A, o B trouxe o C depois vêm as famílias como os Pereira Coutinhos, os Salgados. Pessoas do desporto, da política, presidentes das maiores empresas. Porquê? Porque eles eram frequentadores do Algarve e procuravam experiências diferenciadoras. Não vieram cá porque o Evaristo sítio era famoso, elas é que fizeram o Evaristo famoso. Isto saiu do anonimato porque os jornalistas descobriram o Evaristo, sejam jornalistas do social ou de gastronomia, descobriram o Evaristo de uma forma natural. Nunca pagámos uma publicidade, não convidei um jornalista para vir aqui. Foi como nós nos conhecemos, tu é que vieste à procura de falar com o banheiro. Foi consequência, aquilo que passou a ser do conhecimento público antes de o ser já acontecia.

A praia do Evaristo, bem como a Casa do Castelo e terrenos próximos, foram mudando de mãos. Como ficou nesse ‘filme’? Os detentores da sociedade da concessão foram sempre mudando. Mudaram os acionistas mas nós continuámos sempre a fazer a gestão. O meu pai vendeu ao Binstock, que depois vendeu à União de Bancos Suíços, que depois vendeu ao Vítor Santos, Bibi. E nós fizemos sempre a gerência, continuámos sempre a fazer gerência para os proprietários.

Estamos a falar da praia e da Casa do Castelo? Estamos a falar de 1992 até 2000. A Casa do Castelo nasce na mão da União de Banco de Suíços, e nasce porque nós já éramos os gerentes efetivos, nós, eu fui sempre o procurador gerente, geria isto de procuração desde esse período, em meu nome, sempre, até ao dia em que peço para alterar para o nome do meu ex-sócio. Em 1998, a União de Banco Suíços, para quem nós geríamos o Evaristo, por reconhecerem capacidade profissional hoteleira e por perceberem que nós tínhamos capacidade de mobilização de um público muito específico, convidaram-nos para desenvolver um projeto de entretenimento na Casa. Porque a Casa era uma casa de habitação, foi do Binstock depois passou para a União de Banco Suíços, e a União de Banco Suíços ‘usou-nos’ numa estratégia de dinamização para poder alienar todo este ativo, casa, Evaristo, Quinta do Castelo. Da mesma forma que fomos para Portimão. Aquilo que para o cliente era uma experiência única, maravilhosa, foi um trabalho contratado para nós desenvolvermos com um propósito.

Dinamizar o espaço para o vender. Ponto final. Foi feito com esse propósito. E o nosso objetivo foi conseguido.

Nessa altura fazem o restaurante novo no mesmo espaço. O restaurante é uma coisa em andamento, a Casa do Castelo é uma consequência, mais uma vez, daquilo que mostrámos como trabalho aqui.

A discoteca Casa do Castelo não corre bem no primeiro ano. Não é não corre bem. A Casa do Castelo foi feita, mais uma vez, com referências. Se na restauração de praia era o Gigi, nas discotecas era o José Manuel Trigo, do T-Clube, além de outras referências lá fora. Eu não tinha estudos, o meu estudo é a universidade da vida, pagar para aprender, ver, experimentar, sentir, perceber as coisas. Mas tinha perfeitamente a noção de como é que se monta um negócio. Não estudei, mas ia lendo. A Casa do Castelo vem como consequência de um trabalho que estávamos a desenvolver no Evaristo. Aquilo que a gente idealiza, tendo como referência, que primeiro tínhamos de fazer uma coisa altamente aspiracional, segundo, tínhamos de fazer isto para o mesmo segmento de clientes que tínhamos no Evaristo, e tínhamos de fazer isto para uma quantidade maior de gente porque em termos de taxa de ocupação, estamos a falar de uma coisa que tinha de ter lá 2.000 ou 3.000 pessoas. No primeiro ano pecámos em muitas coisas por não termos corrigido aquilo que já não funcionava nos outros sítios.

Como por exemplo? A tentativa de abrir de inverno foi um flop total. A nível da política das entradas, o cobrar os consumos obrigatórios. O nosso concorrente também não cobrava. Os erros que estavam a ser praticados foi o corretivo que fizemos para o segundo ano. Obviamente que termos feito o casamento do Luís [Figo] deu uma grande projeção de reconhecimento à Casa do Castelo.

Diz-se que comprou a mailing list do T-Clube. Não comprei a lista de contactos, contratei uma empresa, de Luís Ferreira de Almeida, para fazer o mailing juntamente com o mailing que nós já tínhamos, mais o mailing do Eduardo. Não comprei nada no mercado negro, contratei um serviço a uma agência das relações públicas, que tinha uma base de dados perfeitamente organizada que era uma coisa que não tinha.

A Casa do Castelo torna-se um grande sucesso e acaba por ser vendida, voltando a ser uma residência particular. [Em determinadas festas chegaram a estar mais do que três filhos de Presidentes da República do espaço lusófono, sendo necessário ‘levá-los’ ao hotel para ‘passarem’ pelas operações stop, assim como amigos]. O objetivo foi atingido, houve alguém que manifestou esse interesse e o negócio foi feito. O comprador [Vítor Santos] ainda nos deu mais um ano de contrato, ao qual ficámos muito gratos, porque desde o início sabíamos que a Casa do Castelo tinha um princípio, meio e fim. A nossa missão foi cumprida, entregámos aquilo que nos comprometemos a entregar, que foi fazer um projeto com alta notoriedade, reconhecido, com sucesso e colocar isto tudo no mapa. A coisa extravasou, não foi só a quinta, acho que a própria zona toda ganhou muito com isso na altura, porque muita gente comprou casa, muita gente alugou a casa, muita gente passou para a Galé, para este lado, a Casa do Castelo acabou por ser uma referência, ficou para Albufeira, ficou para o Algarve, ficou para Portugal.

Chegou a ter festas em que um dos convidados chegou de helicóptero. Muitos convidados chegaram de barco, de helicóptero... a Maria João Bastos veio de helicóptero porque fazia questão de estar presente, e tivemos a capacidade de poder fazer isso acontecer, era a única forma de ela poder estar cá presente.

Nessa altura desenvolveu muitas parcerias, apostou forte no marketing. Apaixonei-me pelo marketing e pela comunicação, posso dizer que hoje, com muita segurança, que sou um marketeer sem formação, mas sou porque percebi claramente qual era o nosso papel dentro de uma engrenagem de comunicação e que tipo de uso é que se devia dar a estes projetos. Desenvolvi propostas de valor com a Casa do Castelo em que nós autofinanciámos o nosso orçamento de conteúdos que tínhamos que ter – uma discoteca tem que ter o DJ, a festa, a decoração, o animador. Ou seja, é a experiência que vais promover para o teu cliente e aquilo que tu necessitas para além da experiência como um todo para teres mais impulso, para teres mais procura em determinados dias. No fundo, aquilo era uma abordagem 360º que permitia associar marcas e essas marcas fazerem co-branding com a Casa do Castelo, bebendo notoriedade da Casa Castelo, logo criando posicionamento e dando notoriedade às suas marcas, aos seus produtos. Desenvolvi um conceito altamente profissionalizado. A minha receita de sucesso é a mesma, não vale a pena vir aqui com grandes discursos.

Mas chegava às marcas e dizia que a festa tinha tido determinado alcance porque tinha passado na televisão e por aí fora. A fórmula e a receita já existiam, o que eu fiz foi desenvolver este produto e este pacote, desenvolvi-o para o entretenimento. Não inventei a fórmula, consegui foi usar esta fórmula e transformar uma suposta festa numa discoteca num conteúdo de comunicação para as marcas. Marcas dissociadas da atividade, porque as marcas que se associavam à Casa do Castelo não tinham nada a ver com a atividade, tinham sim que ver com o público que lá ia.

Marcas de carros... Sim, mas consegui abordar e fazer com que essas marcas passassem a mensagem que pretendiam. Tivemos a Jeep, a Alfa Romeo, a Allianz, uma companhia de seguros, na altura em que a Marlboro podia comunicar, foi dos maiores investimentos que jamais fez num evento, foi connosco e com a Kadoc. Tivemos também algumas marcas como a Mateus Rosé a lançar o Drink Pink, ou o Saldanha Residente, um shoping de Lisboa a fazer a sua festa de lançamento. Não vendi uma festa de discoteca, vendi uma solução de comunicação, utilizando a discoteca como plataforma.

Depois da Casa Castelo seguiu-se o Sasha, em Portimão. Qual era o objetivo, além de ganhar dinheiro? Em Portimão há uma estratégia de desenvolver um produto após o fecho da Casa do Castelo. Não havia local, mas existia a ideia de conceito, e tinha que ser algo que bebesse mais uma vez num cenário único e espetacular, porque se tiveres aqui um padrão em todos os projetos que desenvolvi há um fator comum, a localização é sempre única. Portimão aparece em quê? Na altura, Portimão tinha uma zona de areal que era gerida pelo município e não pela APA, nessa zona de areal eram autorizados todo o tipo de eventos que fossem de interesse turístico e promocional. Em Portimão desenvolvi a primeira parceria pública ou privada com um projeto de entretenimento que foi o Sacha.

E porquê Portimão? Mais uma vez tinha que ter um projeto na tendência e a tendência que estava a nascer era os beach clubs, não aqui, mas estava-se a ter o grande impacto dos Niki Beach, dos Piru Beach. Depois isso acabou por se fazer noutros sítios mas durante aqueles três anos era o único sítio em Portugal que te autorizavam uma coisa única, uma discoteca a céu aberto num areal. A seguir vem a Manta Rota, o Manta Beach.

Quantos anos durou o Sacha? Três anos. Mais uma vez aquele projeto foi feito com um propósito, integrado numa estratégia global de reposicionamento da Praia da Rocha. Todo aquele projeto foi monitorizado e auditado por uma entidade independente. Temos estudos e inquéritos que eram feitos regularmente, porque o propósito da parceria era que se levasse determinado número de pessoas, 34 mil para ser específico, de um segmento Y e que tivesse no mínimo 400 notícias. Este era o propósito da parceria. Obviamente depois auditado para perceber o impacto económico que isto tinha no município. A forma também foi original como se fez o acordo, que ao contrário de chegar lá e pedir um cheque em branco e um patrocínio, fizemos uma abordagem totalmente diferente. Na altura, muitos dos concorrentes não acharam piada porque eu abri o livro da nossa indústria ao parecer público, em que o valor do evento era tão mais baixo quanto maior a nossa performance.

Qual foi o valor mais alto pago a um DJ no Sasha? Quarenta mil euros ao Steve Angello e tive lá todos, todos.

Hoje é preciso triplicar o orçamento? Quadruplicar, quintuplicar. Utilizei o evento Sasha para promover uma marca de entretenimento que pudesse expandir em diferentes áreas de negócio. Nomeadamente, mais uma vez, não estava a inventar nada, o meu benchmark foi o que outros fizeram, a nível global – nunca me resumi à pequenez da dimensão do nosso país, como iniciei esta conversa, e portanto não estava a fazer nada de novo, estava a seguir uma tendência, criar um beach club, notoriedade fortíssima, e depois criar uma série de áreas de negócio dentro do mesmo círculo. A visão foi, três anos a bombar, criar marca, marca, marca, marca, projetar e associá-la a festa pura e dura, para depois poder fazer, inspirado em conceitos não assumidos, mas eram o Woodson e o Sanderson em Londres, não havia ainda o Ushuaia, em Ibiza, a minha visão antecipada, sem ainda existir o Ushuaia, é criar o primeiro Party en fun hotel. Com toda a humildade, mas tenho de o dizer, a minha visão estava corretíssima, tanto que o projeto de maior notoriedade que aparece a seguir, era o projeto que quis fazer. Assumidamente, o Matutes criou o Ushuaia, um Party in Fun Hotel. Que é o quê? Qual foi a minha visão? Criar uma marca forte, associada a DJing, festa pura e dura e praia. E a seguir criar um conceito de festa, em que o hotel torna-se secundário, ou seja, o conceito do hotel em si é todo ele festa. Fazer o quê? Antecipar tudo isso para a meia-noite, que é como o Ushuaia faz, porque este negócio é muito simples. Mais uma vez, não sou eu que estou a inventar, o que eu sei é da universidade da vida. Quanto mais cedo eu agarrar a tua carteira e promover-te aquilo que tu procuras, mais cedo eu tenho a possibilidade de ficar com tudo o que está na tua carteira. Se eu transferir o que tu procuras à noite, para as quatro da tarde, e dar-te isso tudo, seja ele álcool, mulheres, whatever, aquilo que te faça feliz, e gastares tudo o que tens disponível no teu orçamento, é aí que está a maestria do negócio. Porque já não vais para sítio nenhum se eu até à meia-noite esvaziar-te o teu orçamento, é aí que está a maestria. E essa foi a minha visão.

O que aconteceu? Sem estar consolidado financeiramente para poder estar preparado para imponderáveis, foi aquilo que aconteceu. Tive empresas consultoras a trabalhar para mim, a formatar os conceitos, a fazer contratos, fiz o lançamento, teve projeção nas televisões todas, nas revistas, lancei a marca de hotéis, sem ter um construído, mas o nosso projeto não era construir hotéis, era fazer o que os outros hotéis todos fazem, tens um hotel ancora, que é o projeto piloto onde tu lanças, e os outros são Hotel Management Agreement. Vendes o teu conceito, não é franchising. Tu és o proprietário do hotel, não és hoteleiro, investes e contratas aquela marca para gerir debaixo daquele conceito, que é assim que o mundo hoteleiro funciona, tu não tens marcas a serem donas de mil imóveis. Não, elas são donas de cem, mas na cadeia de mil hotéis, os outros novecentos são contratos de management, em que o gajo que tem dinheiro para investir, investe naquele hotel e mete aquela marca a fazer a gestão. A marca recebe um sucess-fee, recebe um management-fee, e o gajo da exploração recebe o restante, mas está a pagar para aquilo ser gerido, e o mundo funciona assim. Mais uma vez, a minha filosofia de sucesso foi sempre ter a visão, só tenho que ter a visão, tenho que ser o visionário, e aí talvez seja esse o meu talento, visionar as coisas, antecipar-me, conseguir criá-las antes do tempo, mas depois tenho que ir profissionalizá-las. Eu tinha os melhores gurus associados a mim neste projeto a nível do hotel. Era apenas o palhaço da visão, fui buscar profissionais e obviamente que investi o que tinha e o que não tinha.

O que correu mal? Vem o Suprime, eu tinha MOUs, tenho isto tudo documentado…

MOUs? Memorandos de Entendimento, para contratar a marca Sasha Hotels. Tinha com o Cape Verde Development, podem fazer a investigação, era o maior promotor imobiliário em Cabo Verde, tinha hotéis nas ilhas todas. Tinha MOUs assinado para a Palmeira no Dubai, tinha MOU assinado para Montenegro. Tinha 5 MOUs assinados, o MOU é o documento antes do contrato final, o Memorando de Entendimento, que depois resulta num HMA, que é um Hotel Management Group. Fazes um MOU para assegurares a posição e o negócio, depois finalizas o contrato, que é uma coisa com mil páginas onde não é só dizer o que as partes pagam, é aquele fulano para fazer aquele hotel, para ter a nossa marca, vai ter que ter este requisito, este requisito que vai desde como é que o empregado recebe até como é que o empregado de limpeza limpa o quarto. Tens de ter um manual. Gastei milhares de euros a preparar isto tudo, consegui fazer o lançamento, em 2009 dá-se o Suprime, Cabo Verde Development, os maiores acionistas é um fundo de pensões irlandês, é público, que borregou na Irlanda. Na Palmeira, no Dubai, foi aquele escândalo que teve de ser o Qatar a emprestar dinheiro ao Dubai, quando teve um buraco por causa do projeto da Palmeira. De repente, dos cinco MOUs que tinha, três caem por terra. Onde é que isto falha? Gastei muito dinheiro. Andei um ano inteiro a fazer um roadshow, que é um shaktank, mas profissional, que é tu contratas uma base de dados de investidores, vais a Marbella, contratas um promotor, tu vês se é um promotor que arranja passes para entrar em discotecas, ou se é um promotor que tem uma base de dados de investidores. Então o que tu fazes? Fazes uma sessão de dois, três dias, onde tu estás a fazer a apresentação do teu projeto e tens investidores que vêm, e tu tens os profissionais a fazer pitch de 20 minutos, pum, pum, pum, pum, pum, e depois chegas ao final e dizes, olha, eu preciso de levantar 100 milhões, cada ticket são 10, e esses gajos depois assinam um documento a dizer que sim, e eu andei a fazer um roadshow, fiz aqui, na Arábia Saudita – embora não tenha sido eu a ir lá – fiz em Madrid, fiz na Inglaterra. Quando caem os MOUs, todos os gajos que eu tinha potencialmente interessados, deixam de querer investir. Deixei de ter projeto. Fiquei com o bebé nas mãos e sem o dinheiro todo que já lá tinha posto.

Mas aí abriu insolvência? Não, as empresas sim, eu a nível pessoal não. Foi sugerido pelos meus advogados, na altura, porque conheciam a minha capacidade de empreendedor, face ao buraco financeiro, que eu com a capacidade que tinha conseguiria resolver. Demorei demasiado tempo, tentei, até que cinco anos depois é que pedi a insolvência pessoal.

Depois teve o problema com a droga e esteve internado… Já falei tudo o que tinha a falar sobre isso. Foi em simultâneo, nunca reconheci que tivesse qualquer tipo de disfuncionalidade, neste período frágil, causado por isto tudo e que me provocou danos emocionais muito fortes. Fui anti qualquer tipo de consumo de substâncias proibidas até 2006. Aquilo que para mim supostamente era uma coisa social e experimentalista, acabou por não o ser. É como pôr as coisas neste termos: não bebes vinho, agora começas a beber vinho, mas de repente já estás a beber todos os dias ao almoço e ao jantar e não te apercebes e, de repente, tens um período menos bom e bebes vinho desde as 9 da manhã até à noite. Deparo-me com esse descontrolo total, 2010 foi um ano bastante complicado. Emocionalmente fui-me abaixo, completamente… Isto afetou as empresas todas, tinha a agência de comunicação em Lisboa, tinha a empresa de eventos em Lisboa... isto depois provocou um terremoto em tudo e contaminou tudo. De repente, passas de um cenário em que estás num processo de crescimento e num processo sempre brindado com o sucesso, como consequência do teu esforço, para um cenário que não estás preparado para o qual nunca o viveste. Obviamente que o teu ego no meio disto tudo torna-se o teu pior inimigo porque são tantos anos a fazer coisas e a fazer coisas com sucesso que passas a ouvir o teu próprio feedback. O meu ego retirou-me o medo, e o medo saudável é uma coisa importante, que é o que mantém a cautela. Fui um destemido, fui um louco, fui um gajo que o ego traiu. Obviamente que a única forma que eu estava bem durante aquele ano, e é aí que depois percebo a doença que tinha, era não estar em contacto com a minha realidade, porque a minha realidade era lixada, estava falido, com um escândalo em cima. Não sou uma vítima de nada, sou vítima de mim próprio, do meu ego, isto é que é a realidade. Mas as pessoas confundiram tudo, não fali com os usos [consumo de cocaína] que tive, ok? Um negócio é uma coisa, agora a minha doença é uma coisa distinta. Depois de tentativas de outros me fazerem ver as coisas e ver que eu não estava bem, acabei por admitir que não estava bem, pedi ajuda, e foi a melhor coisa que fiz, porque consegui resolver isto tudo, resolver as minhas cenas, porque a droga é consequência, olha, é como o sucesso, é consequência da dedicação que eu dou, o consumo, aquele uso, é consequência de uma doença. Eu já era um adito compulsivo a trabalhar, aliás, continua a ser a minha adição, trabalho como um louco.

Depois regressou à noite com o antigo Kadoc? O projeto Kadoc aparece na minha vida em 2016/17, eu precisava, já estava maduro em termos emocionais. Passei o meu período de reconstrução emocional – foram cerca de 19 meses, 8 em internamentos no meu curso e mais 11 em voluntariado – e depois voltei para a sociedade. Quando voltei, passei por um processo de ter que lidar com tudo o que deixei, no sentido de dívidas, de problemas jurídicos, ou seja, a minha vida em todas as áreas ficou destruída. Foi ter que lidar com essa realidade, viver com essa realidade no dia-a-dia, principalmente viver com a realidade pessoal e familiar, e quis estar o mais perto possível da coisa mais preciosa que eu tenho que são os meus pais, e recuperar o máximo possível o tempo que lhes resta a tentar dar-lhes alegrias, com pequenas vitórias, com pequenas conquistas, e daí eles... Fui convidado para fazer parte de vários projetos, mas recusei. Mais uma vez, se corresse bem, iria demonstrar a mim mesmo que as minhas capacidades estavam intactas, mas tinha que ir para um desafio semelhante a Alverca e pô-lo na Liga dos Campeões. Acho que foi aquilo que fiz e tenho feito no Lick/Bliss, antiga Kadoc..

E como reconstrói o Evaristo? Como regressa à base? O Evaristo faz parte da minha essência, não só profissional, a minha essência é isto, eu sou isto. Quanto a esta situação do Evaristo, 2025, há um processo em curso administrativo para a resolução da entrega do contrato definitivo de concessão. Enquanto este processo não acontece, o município tem que garantir que a praia não fica abandonada sem qualquer tipo de apoio. Obviamente que nós tivemos de criar essas condições, e criámos, e temos de ter um negócio associado a isso, como é óbvio. Gosto de fazer isto, a minha essência de fazer coisas, de provocar coisas nos outros. Tem os ingredientes todos para poder fazer aquilo que acho que fui talhado para fazer. Estou de uma forma bonita e pelo bem, estou com pessoas que considero, porque têm princípios, e estou aqui com eles para, em conjunto, devolvermos ao Evaristo aquilo que o Evaristo já foi. Tenho bem claro para mim qual é o meu propósito, qual é a minha missão. Estou onde deveria estar nesta altura da minha vida. E estou com a alma toda, estou com a força toda, estou com o espírito todo. E é isto.