quarta-feira, 15 abr. 2026

Europa em encruzilhada: o futuro joga-se entre Kyiv e Moscovo

Para Portugal, o desafio é maior: ou assumimos o papel de âncora atlântica da Europa, ou ficamos reduzidos a passageiros de segunda classe num comboio que já vai descarrilando.

As medidas que entram em vigor na Ucrânia e na Rússia a partir de Setembro de 2025 revelam duas realidades que, embora ligadas pela guerra, caminham em direções radicalmente diferentes. De um lado, Kiyv procura reforçar a resistência nacional com reformas sociais e educativas; do outro, Moscovo intensifica a repressão, aprofunda o controlo sobre os cidadãos e institucionaliza retrocessos sociais.

Na Ucrânia, a guerra obriga a escolhas difíceis, mas também a medidas que procuram equilibrar segurança e coesão social. Um dos exemplos mais visíveis é a obrigatoriedade de câmaras corporais para funcionários dos Centros de Recrutamento, uma resposta às críticas sobre abusos no processo de mobilização. Trata-se de um passo que procura garantir transparência e credibilidade numa área particularmente sensível.

Outro sinal da militarização inevitável do país é a introdução de formação militar obrigatória nas escolas. A disciplina substitui a anterior “Defesa da Ucrânia” e será obrigatória para rapazes e opcional para raparigas. A mensagem é clara: cada cidadão deve estar preparado para defender o país.

Mas não é apenas de guerra que se fala. O governo de Kiyv anunciou também bolsas de estudo reforçadas, apoios à habitação para deslocados internos e bónus salariais para professores. São medidas que procuram assegurar que, mesmo em cenário de conflito prolongado, há futuro para os jovens e alguma estabilidade para as famílias.

No mesmo dia em que a Ucrânia reforça a transparência, a Rússia aprofunda o controlo. Novas leis tornam obrigatória a gravação de cidadãos ao comprar cartões SIM, proíbem a publicidade e utilização de VPNs, e impõem que todos os smartphones venham equipados com uma aplicação de vigilância e com a loja de aplicações russa, RuStore. Além disso, os bancos passam a poder congelar contas sem decisão judicial, deixando automaticamente os clientes sem acesso a serviços móveis.

A repressão estende-se à cultura e à educação. O ensino de inglês é reduzido, filmes com “valores não tradicionais” não terão distribuição e “agentes estrangeiros” ficam proibidos de dar aulas. A estratégia é clara: cortar pontes com o exterior e moldar uma sociedade mais dependente do regime.

Mas talvez o sinal mais perturbador do caminho escolhido por Moscovo seja outro: panfletos dirigidos a mulheres casadas com militares, onde se recomenda que vítimas de violência doméstica não falem em público, usem maquilhagem para disfarçar os hematomas e, em última instância, peçam perdão ao agressor. Eventualmente falsos, como a propaganda russa dizem ser, o facto indesmentível é que desde 2017 que, na Rússia, bater em mulheres não é considerado crime, salvo em casos de ferimentos graves.

O contraste é evidente. A Ucrânia, mesmo sob a ameaça existencial da guerra, procura mecanismos que reforçam a confiança e o futuro da sociedade. A Rússia, em contrapartida, aposta num Estado cada vez mais controlador, repressivo e fechado.

Se a guerra é também uma batalha de narrativas, Setembro de 2025 deixa uma imagem clara: Kiyv, apesar de todas as limitações, tenta projetar esperança; Moscovo resigna-se a impor medo.

Para os europeus, estas diferenças não podem ser um detalhe distante. São o espelho da luta entre uma Europa que se quer aberta, livre e próspera, e uma Rússia que aposta no medo e na violência como forma de governo. Apoiar a Ucrânia não é apenas uma questão de solidariedade; é também uma forma de defender o modelo de sociedade em que queremos viver.

Porque é que isto é importante? Porque para lá da cimeira do Alasca os dias passam e não há sinais de aproximação de Putin à paz. Pelo contrário: a guerra na Ucrânia cristalizou-se num impasse violento e prolongado, em que o Kremlin ganha tempo à custa da destruição de um país vizinho e do desgaste europeu. Enquanto isso, Donald Trump continua a prometer “resolver” o conflito em poucas semanas, mas a sua ambiguidade continua a ser um risco: tanto pode endurecer sanções e pressionar Moscovo, como ensaiar um acordo que deixe a Europa entregue a si própria. É precisamente este o dilema europeu: acreditar que Washington continuará a ser o garante da nossa segurança ou assumir, de uma vez por todas, que o tempo da dependência terminou.

A Europa fala, há anos, de “autonomia estratégica”. Mas os números não mentem: continuamos dependentes em energia, frágeis na produção de armamento e lentos no cumprimento de compromissos em defesa. Enquanto isso, a Rússia, apesar de todas as sanções, reorganiza a sua economia para a guerra total. A China, discreta mas eficaz, mantém-se como fornecedor indireto de tecnologia e munições.

A pergunta impõe-se: se amanhã Donald Trump decidir privilegiar um acordo direto com Vladimir Putin, quem garante a segurança de Varsóvia, Vilnius ou Bucareste? E, por arrasto, de Lisboa?

Portugal tem, neste cenário, obrigações e oportunidades. A primeira é clara: cumprir e ultrapassar o mínimo dos 2% do PIB em Defesa, mas como lembra Ana Miguel dos Santos (DN 2 de Setembro) , não basta fixar percentagens: importa discutir o propósito. Não se trata de gastar mais por gastar, mas de investir melhor: reforçando meios navais e aéreos, criando uma capacidade séria de ciberdefesa e assumindo o Atlântico como trunfo estratégico.

A Península Ibérica, em particular, pode desempenhar um papel decisivo. Se Espanha tem a base industrial para escalar produção, Portugal precisa de a construir: fábricas de munições, mais drones, sistemas de comunicação, tudo aquilo que o Leste europeu exige de forma urgente. A segurança não é uma despesa, é um investimento existencial e cada euro não aplicado em defesa hoje pode significar uma fatura impagável amanhã.

O maior erro europeu seria esperar que Trump resolva a guerra ou que Putin acorde iluminado para a paz. A realidade é outra: só haverá segurança com músculo industrial, tecnológico e militar europeu. Para Portugal, o desafio é maior: ou assumimos o papel de âncora atlântica da Europa, ou ficamos reduzidos a passageiros de segunda classe num comboio que já vai descarrilando.

A escolha é clara: menos dependência e mais produção, menos discursos e mais ação. E, sobretudo, passar da percentagem ao propósito: defender não apenas território, mas a própria sobrevivência de uma Europa livre e de um Portugal seguro!

Coronel