Os portugueses vivem um paradoxo invulgar. Revelam, por um lado, uma insatisfação crescente com o desmantelamento, mais ou menos subtil, do Estado Social.
Desorientados e desesperados, passaram, contudo, muitos deles, a apoiar os que pretendem miná-lo ainda mais.
Nada sobre ele guardando nos baús da memória antiga e não se podendo, igualmente, reivindicar de alguma vez ter contribuído para a sua realização, a nova/velha extrema-direita tanto critica a governação atual, que acusa pelo mau funcionamento do Estado Social, como preconiza, como ela, desdobrar e delegar os serviços públicos na iniciativa privada.
Como, em regra, quem os dirige são, hoje, afinal, os que sempre defenderam a sua gestão privada, percebe-se mal que tal proposta de mudança se funde, assim, na artificiosa contraposição da eficiência dos diferentes métodos de gestão.
Os que, por sua vez, idealizaram e criaram tais serviços públicos na órbita do Estado têm, também, críticas, outras, a fazer ao caminho – interessado e interesseiro – projetado pelos atuais responsáveis por tais serviços.
Todas essas críticas – vindas, embora de lados diferentes e com conteúdos e sentidos distintos – confundem-se, porém, no espaço mediático, desgastando a sua imagem e servindo, por fim, os que, questionando o seu modelo atual, de tais serviços se querem, afinal, aproveitar.
Os que preconizam a sua privatização são, porém, apontados como guiando-se, no fundamental, por neutros critérios técnicos e de gestão e nunca, verdadeiramente, como políticos engajados num certo modelo de sociedade.
Os outros, os que insistem que compete à sociedade ser solidariamente responsável pelo financiamento e funcionamento do Estado Social, são, pelo contrário, acusados de agirem unicamente por motivos ideológicos.
Contudo, tanto uns como os outros se movem – legitimamente, aliás – por motivos ideológicos: o que, verdadeiramente, os distingue são os diferentes projetos de sociedade que defendem, os interesses que prosseguem e os valores que elegem.
As soluções técnicas que preconizam não passam, precisamente, disso: soluções para materializar o modelo político por que se opta.
Confundindo, frequentemente, soluções técnicas, modelos políticos e razões ideológicas, os portugueses são induzidos num logro.
Este consiste em levá-los a pensar que as soluções ‘técnicas’, reivindicadas pelos partidários da privatização, só não resultam porque outros, as leis e a Constituição, não permitem, por motivos ideológicos, que isso aconteça.
O sistema político que os primeiros defendem é, assim, tido como ‘natural’ e o que os segundos preconizam é mostrado como uma construção teórica que não se enquadra na vida como ela é e que, segundo os primeiros, como tal, deve continuar a ser.
Urge, assim, uma discussão política e ideológica clarificadora e ampla sobre os modelos de sociedade e o Estado Social.
Só essa discussão permitirá explicar o sentido e as consequências das medidas técnicas preconizadas por uns e por outros, para o conformar.
Só um tal debate permitirá, na verdade, evidenciar a pertinência de cada proposta num patamar mais eloquente, em que o presente e o futuro próximo se tornem evidentes numa perspetiva ideológica e política e não apenas técnica.
Até hoje, porém, os debates realizados e apresentados, como tratando-se de uma discussão política séria sobre os caminhos da sociedade, não passaram, afinal, de reality shows em que os mais descaradamente palhaços são os que mais brilham.