No dia 5 de agosto, a Índia e as Filipinas estabeleceram uma parceria tão importante quanto negligenciada. Num encontro bilateral entre o primeiro-ministro indiano Narendra Modi e o Presidente filipino Ferdinand Marcos Jr. em Nova Deli, foram assinados treze acordos entre os dois países no âmbito de uma nova «parceira estratégica».
No documento oficial publicado no website do Ministério dos Negócios Estrangeiros das Filipinas podem ler-se os detalhes do acordo. Primeiro, pode ler-se, foi declarado o «estabelecimento de uma Parceria Estratégica entre as Filipinas e a Índia» que «marca um novo capítulo no sentido de concretizar todo o potencial da cooperação bilateral, regional e internacional entre os dois países» e que se baseia «num compromisso mútuo de reforçar as relações bilaterais para a paz, estabilidade e prosperidade contínuas dos dois países e da região em geral, e serve de base para os dois países traçarem uma cooperação mutuamente benéfica e orientada para o futuro»; depois, ao focar-se na cooperação, o documento desdobra-se em nove vetores essenciais: «cooperação política», «defesa, segurança e cooperação marítima», «cooperação económica, comercial e de investimento», «cooperação em ciência e tecnologia», «conectividade», «cooperação consular», «cooperação mútua em matéria jurídica e judicial», «cultura, turismo e intercâmbio entre povos» e, por fim, cooperação «regional, multilateral e internacional».
Antes de anunciarem a parceria, a Índia e as Filipinas levaram a cabo um exercício naval conjunto no Mar do Sul da China. E é principalmente por esta questão que a parceria é importante, demonstrando o jogo de cintura diplomático da Índia. A China, uma superpotência, reivindica a soberania do Mar e tem enfrentado a resistência dos países circundantes – leque do qual se destaca as Filipinas, com as tensões ente Manila e Pequim a escalarem em mais que uma ocasião. Assim, a aliança Índia-Filipinas é um sinal de Nova Deli para os chineses. Modi disse que o «fortalecimento das relações de defesa é um símbolo de profunda confiança mútua e, como nações marítimas, a cooperação marítima entre os dois países é natural e essencial», acrescentando que o país está «comprometido com a paz, a segurança, a prosperidade e com uma ordem baseada em regras na região Indo-Pacífico», apoiando também «a liberdade de navegação de acordo com as leis internacionais». É importante relembrar que o Tribunal Permanente de Arbitragem, em Haia, já declarou que as ambições chinesas carecem de «base legal» e a Índia junta-se assim, pelo menos a nível retórico, aos Estados Unidos na defesa da liberdade dos mares. Também a declaração conjunta já citada, fica claro, ainda que não totalmente explícito, o ataque às pretensões chinesas quando é referida a «preocupação com a situação no Mar do Sul da China, particularmente no que diz respeito a ações coercivas e agressivas que afetam a paz e a estabilidade regionais».
Posicionamento ambíguo
Mas, enquanto reúne esforços com as Filipinas para conter a ameaça chinesa na região do Indo-Pacífico e se assume como defensor da liberdade de navegação e das regras internacionais, Modi não está, ao contrário do que possa parecer, alinhado com o Ocidente noutras questões. Primeiro, a Índia é um dos membros fundadores dos BRICS. Segundo, o ministro dos negócios estrangeiros chinês, Wang Yi, visitou Nova Deli depois dos acordos da Índia com as Filipinas, e a relação entre os chineses e os indianos parece estar cada vez mais estreita depois do reatar das tensões na histórica disputa fronteiriça na região dos Himalaias. Modi também visitará o presidente chinês, Xi Jinping, em outubro, numa viagem que marcará o regresso de Modi à China após um interregno de sete anos. E talvez a conclusão mais importante que saiu da reunião entre as delegações chinesa e indiana é a de que a «Índia reafirmou o seu compromisso oficial com o princípio de ‘Uma só China’ e com ‘Taiwan é parte da China’», como escreveu o jornalista chinês Shen Shiewi.
Esta aproximação à China dá-se também num momento em que a relação com Washington atravessa um momento delicado depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, ter anunciado a imposição de uma tarifa de 25% às importações indianas.
De forma curta, a Índia declara, no início de agosto, que se preocupa «com a situação no Mar do Sul da China, particularmente no que diz respeito a ações coercivas e agressivas que afetam a paz e a estabilidade regionais» e, duas semanas mais tarde, reforça a ideia, junto do chefe da diplomacia chinesa, que Taiwan é uma parte integrante do território chinês.
Assim, o papel da Índia no tabuleiro internacional merece uma análise prudente e atenta. Porque Modi, que mantém alguma afinidade a líderes ocidentais nacionalistas e conservadores como Meloni, parece cada vez mais funcionar como um ‘joker’ geopolítico.