Há, em Portugal, vinte e uma queixas formais por dia, nos últimos seis meses, de pais agredidos pelos filhos. São dados constantes dos últimos três anos. E sabemos que este número é apenas a superfície: a maioria destes casos nunca chega a ser denunciada. O silêncio, a vergonha e a impotência escondem uma realidade mais grave do que os números sugerem.
E, no entanto, ninguém fala disto. Não abre telejornais. Não gera horas de debate televisivo. Não mobiliza editoriais, campanhas ou comissões parlamentares. Onde estão os ministros, os peritos, os juristas, os ativistas, as associações de pais? Onde estão as vozes indignadas que, noutras causas, exigem leis, marchas e hashtags?
O que diz mais sobre o estado moral do país: vinte e um filhos que diariamente levantam a mão contra os pais ou a indiferença geral perante o facto?
Durante décadas, celebrámos uma pedagogia que confunde empoderamento com permissividade e cidadania com relativismo. Criámos uma escola onde tudo é negociável, onde todos têm razão, onde ninguém deve nada a ninguém. O resultado está à vista: jovens convencidos da sua excecionalidade, mas incapazes de lidar com a mais pequena frustração, a mais mínima regra, o mais básico limite.
Mas não foi só o modelo político-pedagógico escolar que falhou. Falhou uma cultura inteira. Educámos uma geração para acreditar que pode tudo, que o mundo se deve adaptar a ela, que direitos vêm sem deveres e que autoridade é sinónimo de opressão. Criámos, literalmente, pequenos tiranos: emocionalmente frágeis, mas moralmente arrogantes; incapazes de respeitar limites, mas rápidos a exigir reconhecimento; incapazes de dar, mas sempre prontos a reivindicar. E depois fingimos surpresa quando a violência explode dentro das casas. Não é surpresa: é consequência.
Uma sociedade, dita liberal-progressista, que desvaloriza a autoridade, ridiculariza os pais, fragmenta os valores partilhados e idolatra o indivíduo desligado de qualquer vínculo só pode seguir por este caminho.
O mais inquietante é o silêncio. Sempre que alguém denuncia esta degradação, a reação é imediata: alarmismo, moralismo, fascismo. Mas pensemos bem: será fascista falar de responsabilidade? Será extremismo defender a autoridade parental, valores comuns e limites claros? Ou será que o verdadeiro autoritarismo está, precisamente, nisto, numa sociedade que fabrica indivíduos incapazes de reconhecer qualquer regra, qualquer dever, qualquer hierarquia legítima?
Enquanto andamos distraídos com guerras culturais superficiais, ignoramos o que está a corroer os alicerces da nossa civilização. Vinte e um filhos hoje serão cinquenta, ou cem, ou mil. Não por acaso, mas por causa. Porque décadas de pedagogia permissiva e cultura de infantilização estão a produzir uma geração de adultos que nunca deixarão de ser crianças: frágeis, ansiosos, caprichosos, incapazes de amar ou obedecer, mas sempre prontos a exigir.
Isto não é um acidente. Isto é um projeto falhado. É o resultado direto de décadas a ensinar que a liberdade é fazer o que apetece, que os pais são opressores, que os limites são traumas e que a autoridade é inimiga da felicidade. Agora começamos a pagar a fatura: seres humanos sem travões, famílias desfeitas, violência banalizada.
Podemos continuar a ignorar os sinais. Podemos fingir que são casos isolados. Mas os números vão aumentar. A violência vai crescer. E o vazio de sentido, de valores e de laços vai aprofundar-se.
Quando chegar o colapso, já não haverá quem tenha autoridade para o deter. Nem pais. Nem professores. Nem líderes políticos. Nem tribunais. Restará apenas a tirania infantil de quem nunca aprendeu a ser adulto.