Entrou no PCP com apenas 15 anos e passou à clandestinidade antes de atingir a maioridade. Não se pode dizer que tenha tido, ideologicamente, uma vida regular. Depois de ter lutado, durante mais de três décadas, pela insurreição popular armada, é expulsa do PCP, passa pelo PSD de onde pula para a IL. É a última bandeira que se lhe conhece. Não se sabe para onde vai. Seguramente caminhará em sentido contrário ao do partido em que depositou todas as suas esperanças de adolescente. Uma história de vida empolgante. Um caso.
Como é que se passa do culto de Marx e Lenine para o culto de Nossa Senhora de Fátima? Marx apareceu na minha juventude quando o país vivia numa terrível ditadura. Tenho muito orgulho, dentro do radicalismo que era próprio de uma adolescente, em ter participado nessa luta. A censura era terrível. Íamos ver um filme e estava cortado. Sabe o que é ir ver o Casablanca sem ver o beijo final?
Não respondeu à questão da fé… A questão da fé é um importante encontro na minha vida. Mas é uma questão do foro absolutamente privado.
Foi trocar uma fé por outra? Não teve nada a ver com a minha dissidência do PCP. A minha conversão acontece 20 anos depois de ter sido expulsa. E vivo com isso muito bem, não sou nada fundamentalista. As pessoas mudam ao longo da vida. Tenho pena das pessoas que aos 60 são exatamente iguais a quando tinham 18 anos. Não aprenderam nada com a vida.
No entanto, nasceu numa família de opositores ao regime, agnósticos. Nesta matéria, que memórias guarda da infância? A minha família mais próxima era quase toda da oposição e agnóstica, nunca foi anticlerical. Os meus pais não se casaram pela igreja, eu não fui batizada, na minha casa não havia símbolos religiosos nem objetos de culto. Deus nunca esteve presente na minha educação.
O que faziam os seus pais? A minha mãe era doméstica e o meu pai engenheiro mecânico, no Porto, onde vivíamos num bairro privilegiado, Pinheiro Manso. Mas a minha terra era Sangalhos, Bairrada, onde o meu avô Henrique, do lado materno, que me marcou muito, tinha as Caves Barrocão viradas para a produção de champanhe. Apesar de ter apenas 9 anos, lembro-me perfeitamente, por exemplo, da campanha de Humberto Delgado: no dia das eleições, a família juntou-se na quinta do avô Henrique. Estavam convencidos que o general ia vencer e brindavam à vitória, com champanhe. Todos os anos havia rumores de que a ditadura ia cair. Chegou a haver o rumor de que Salazar tinha um cancro e o regime cairia com a sua maleita... (risos) Isso alimentava a esperança e a resistência. Mas esse dia acabou triste porque o resultado não correspondia à realidade.
Mas havia um lado da família mais encostado ao regime. Como foi crescer entre esses dois polos? Tinha um tio-avô que era presidente da Câmara da Anadia e representava, na terra, a União Nacional. Tínhamos lá uma quinta onde também passávamos férias. Era muito curioso, e típico daquelas famílias tradicionais da época, da zona de Aveiro, estas divisões. Ele e o avô Henrique respeitavam-se, mas provocavam-se um ao outro. Por exemplo, no dia 5 de outubro, o avô Henrique comemorava a República e cantava o hino da Maria da Fonte; e o meu tio-avô, obviamente, comemorava o regime. Mas depois davam-se todos.
Cresceu num caldo familiar que lhe permitiu fazer opções diferentes da maioria dos jovens, mas teve uma educação igual a qualquer menina burguesa. Cheia de privilégios. Tive outras oportunidades, claro. Mas andei no ensino público, no liceu Carolina Michaelis que era uma das escolas mais conservadoras da época. Mais tarde, fui expulsa. Mas tinha aulas particulares de línguas. Como todas as meninas das boas famílias do Porto, fiz ballet. Comecei com uma professora francesa, só mais tarde fui para a Academia Parnaso e, quando Permin Trecu (bailarino e coreógrafo de renome internacional) veio do Royal Ballet de Londres para Portugal, passei a dançar na escola que fundou. Era o meu professor.
Uma coisa a sério. Já era muito disciplinada? Pensava fazer carreira! Cheguei a fazer um estágio para depois poder fazer o exame ao Royal Ballet. Por isso, treinava muito. Passava sempre umas três horas no estúdio. E, fora do horário escolar, ainda me tornei numa espécie de assistente do professor e dei aulas a outras classes. Ensinei, por exemplo, a Luísa Taveira que chegou a ser primeira bailarina da Companhia Nacional de Bailado.
O seu sonho era ser bailarina? Médica ou bailarina clássica. Só não segui a carreira porque tive de passar à clandestinidade.
A diferença entre classes era abismal. Quando se deu conta disso? Foi isso o que me levou a ser mais radical. Conhecia a pobreza que existia nas aldeias da Bairrada. As minhas amigas eram muito pobres, andavam descalças ou de tamancos, não tinham água canalizada em casa. O meu avô, que era uma pessoa de grande consciência social, mandou abrir um poço e instalar uma bomba pública onde as mulheres iam buscar água de cântaro à cabeça. Uma imagem dramática. As crianças cresciam sem os pais que, para fugirem à pobreza, emigravam. Saíam do país ‘a salto’, sem conhecerem minimamente a língua do país para onde iam, e depois chamavam as mulheres. De vez em quando, ouvia dizer: o ‘fulano tal’ foi para França ‘a salto’. Os anos 60 foram uma época de grande emigração naquela zona. Mas eu também viajava muito. Fazíamos férias com regularidade na Europa, o que me ajudou a perceber que o regime salazarista era insuportável. Ficávamos na Côte d’ Azur, onde uns amigos do meu pai tinham casa, muito perto da aldeia Vallauris, onde vivia Pablo Picasso, figura importante do comunismo internacional. Chegar a França era a liberdade. Os meus pais compravam o jornal do partido comunista, L’ Humanité, e chegámos a ir assistir a concertos no Bois de Boulogne no dia da festa do jornal, do PCF, repleto de bandeiras com a foice e o martelo. Corríamos as livrarias e compravam-se livros proibidos. Depois, chegávamos cá e era esta tristeza, um país parado no tempo. Sem médicos, sem hospital. Na terra, havia a ‘endireita’.
Para quem tinha mundo, era mais difícil adaptar-se a este país beato e conservador… Por exemplo, eu tinha biquínis comprados em França e chegava cá e em todas as praias estava escrito ‘proibido biquínis’. Quando a ditadura interfere com a nossa vida pessoal é quando a revolta nasce. Usava calças no liceu e era muito mal vista. Uma vez, fui de bicicleta e os meus pais foram chamados à diretora. Fiquei proibida de pedalar. Até que fui expulsa!
Porquê? Tinha uma professora de História fantástica, uma tia do Fernando Medina, que foi presa depois de uma manifestação no Dia Internacional da Mulher. Quando saiu da cadeia, organizei-lhe uma receção. Tive um processo disciplinar e fui convidada a sair. Fui parar a um colégio de freiras.
Deve ter sido a sua primeira ‘medalha’ revolucionária. (Risos) Já era uma subversiva! Como estava a meio do ano, fui parar a um colégio de freiras. O que me deu mais tempo para me dedicar ao ballet e às lides políticas.
Entra no PCP com apenas 15 anos. O Cunhal, penso, era mais velho dois anos quando se aproximou dos comunistas. Como consegue esse feito? Fiz o contrário do que me diziam em casa. Tinha um primo que era do PC e, para não ser preso, foi para a URSS. Eu era filha única e, apesar de a família estar ligada à oposição, havia um medo imenso da PIDE. Portanto, davam-me imensos conselhos, principalmente para me afastar do movimento associativo, que era uma importante escola revolucionária, e dos cafés universitários por eles frequentados. Fiz o contrário. Passei a frequentar o “Piolho”, fiz-me sócia da Unicepe, uma cooperativa livreira do Porto onde encontrava os livros de formação política, do Cineclube, onde passavam os grandes filmes franceses, como os do Godard (Jean-Luc). Não percebíamos nada, mas comprávamos os Cahiers du Cinéma para aprendermos a gostar (risos). Fiz amigos. E espalhava que queria formar uma associação de liceus, como havia em Lisboa e Coimbra. Sabia que era nestes meios que o PCP recrutava. Rapidamente o PCP enviou um dos seus membros, Edgar Correia, dirigente associativo da Faculdade de Engenharia do Porto, para me recrutar. Passados dois meses, fui recrutada e passei a ser controlada por Albano Dias, funcionário clandestino do partido, com quem me passei a encontrar, que me fazia o ponto de situação da luta dos trabalhadores e da dureza da vida clandestina.
Quais passaram a ser as suas tarefas? Comecei a recrutar estudantes e formei a pró-associação dos Liceus do Porto, de que me tornei dirigente. Já era reconhecida como uma profissional revolucionária, o que me encheu de orgulho. Começo a receber os jornais clandestinos, nomeadamente o Avante!, que escondia, em prateleiras suspensas coladas às originais da estante do meu quarto até os passar para estudantes das escolas que controlava.
Dois anos depois, passa à clandestinidade. Continuava precoce… Teve de ser. Antes do 1.º de Maio de 1967, o Albano passa-me pacotes com panfletos para mobilizar os trabalhadores para a realização de uma manifestação. Entreguei-os a dois estudantes para os distribuírem por fábricas, mas eles, ao passarem por uma esquadra da GNR, são topados, presos e torturados. Não se sabia se iam resistir sem me entregarem e o partido decidiu que eu tinha de sair do país.
Os seus pais souberam? Não. Pensavam que eu ia para a URSS estudar. Nesse dia, já não os vejo, fico na casa de uns amigos deles que eram do MDP e faço-lhes chegar uma carta. Foi depois a minha mãe que viajou comigo de comboio para Paris.
Qual foi a reação da sua mãe? Estava em pânico, tinha medo que eu fosse presa.
Havia em França alguém que fizesse ligação ao PCP, para a receber? O José Vitoriano, membro do Secretariado do Comité Central e responsável pela organização do partido em França. Comecei por ficar instalada na casa de uns amigos dos meus pais em Bordéus e que eram do PCF. Mais tarde, fui para o pequeno apartamento de Gabriel Pedro em Paris, onde passamos a reunir e se planeou o meu regresso, mas na clandestinidade.
Conhecia pela primeira vez um operário, ainda por cima, tarrafalista. Esse mundo fascinava os intelectuais comunistas que precisavam de se despedir da sua pele burguesa. Ser intelectual para mim era uma vergonha. Eram os interesses de classe operária que nos guiavam e foi fascinante conhecê-lo. Tinha passado por várias cadeias e esteve preso no Tarrafal com o filho quando este tinha a minha idade. Ainda hoje me lembro das conversas intermináveis que tínhamos noite fora. Ficámos amigos. Eu fazia-lhe lembrar uma filha que tinha morrido naquela altura. Dizia-me: “Isto não vai com papéis, só vai à bomba”. A PIDE tinha entrado pela porta da frente da sua casa e ele fugira pelas traseiras. Conseguiu chegar a França a pé e com uma bússola para se orientar. Não queria morrer sem pôr uma bomba. O partido preparava-se para criar um braço armado, a ARA (Ação Revolucionária Armada), e mais tarde, quando já estava há alguns anos na clandestinidade, vi num jornal a fotografia dele. Era procurado por ter executado um ataque ao aparelho militar colonial. Colocou uma bomba nos cascos do Cunene, que ia partir para as colónias com armamento. Pensei: “Já pode morrer descansado!”. Morreu pouco depois em Paris.
Em 1968, mais ou menos quando regressa à clandestinidade, dá-se a invasão da Checoslováquia para esmagar a Primavera de Praga. Como comunista, isso não a abalou? Não tive nenhuma dúvida sobre a invasão da República da Checoslováquia. Éramos absolutamente pró-soviéticos. A ideia, nessa altura e hoje, para um revolucionário profissional e para um comunista, era que as vítimas do comunismo não são iguais às vítimas da direita ou da extrema-direita. As vítimas do nazismo não são iguais às vítimas do comunismo. É terrível, mas pensei assim até me tornar dissidente.
Como foi a sua entrada na clandestinidade, o que mais a marcou? Mal chego a Portugal, para despistar a PIDE, tive, entre outras coisas, de mudar de visual. Até aí usara o cabelo à Françoise Hardy e cortei-o à garçonete, como ainda o uso.
As mulheres são muito fiéis ao seu cabelo. A mudança é sempre terrível! (Risos) Foi uma tristeza. E logo um corte numa cabeleireira nada referenciada, num cabeleireiro qualquer de rua. Eu, como qualquer adolescente, era vaidosa. Deixei também de usar a minha roupa, troquei-a por coisas mais modestas que o partido arranjava. Tive nova identidade. Para o BI falso, escolhi chamar-me Helena Vaz Silva. Era uma referência e assim não cometia gafes.
A sua família soube? Só quando já estava cá dentro. Enviei-lhes uma carta através de um estudante. As regras na clandestinidade eram muito rigorosas. Um passo em falso dava direito a ter a PIDE no encalço. Durante os sete anos em que estive na clandestinidade, só vi a minha família uma vez.
Como foi a sua estreia? Entrei para a clandestinidade com Albano Nunes, que já conhecia. Ficámos numa pequena vivenda, já mobilada, em Cete, Penafiel. As casas tinham de ser iguais às dos vizinhos para não dar nas vistas. Como medida de segurança, o hall de entrada tinha de estar sempre arrumado e sem vestígios conspirativos para poder receber alguém que batesse à porta sem correr riscos. Aprendi rapidamente as regras de sobrevivência na clandestinidade. Defender a casa, era o papel das chamadas “camaradas de partido”, um papel subalterno em relação aos camaradas de organização, que ganhavam mais do que eu. Trazia uma caixa de fósforos sempre comigo para poder queimar rapidamente a documentação e fugir a tempo se chegasse a PIDE.
A solidão era o mais difícil de aguentar? Era terrível! Só saía de casa para ir à mercearia. O Albano saia para trabalho de organização e eu ficava muito tempo sozinha. Só a Georgete Ferreira, que no início era o único controleiro que o Albano recebia, era das poucas mulheres do partido a fazer trabalho de organização. Nem me deixava assistir às reuniões, o que era tremendo para o meu orgulho.
Porquê? Era completamente ortodoxa, sem pinga de simpatia. Devia-me achar burguesa de mais. Numa vez em que tivemos de mudar de casa, comprei um fogão a gás com dois bicos, pois estava farta do fogão a petróleo. Ela achou muito caro e fez-me descontá-lo no ordenado que já era miserável. Nunca mais lhe perdoei (risos). Foram os piores anos da minha vida. Era uma solidão terrível. Só saía para ir à mercearia. Eu só sonhava em ir para o trabalho de organização.
As mulheres, na clandestinidade, tinham um papel de grande subalternidade em relação aos homens. Nessa altura, eu não sabia nem estrelar um ovo. Passei a cozinhar, a lavar a roupa num tanque. Na casa dos meus pais, havia empregada interna e externa. O dinheiro que ganhava mal dava para pagar as despesas da casa. Por isso, comia-se o que havia de mais barato: nuns dias açorda, noutros frango. Passava-se fome.
Nunca pensou desistir? Não. Estava na minha luta e viveria a minha liberdade depois. Estava era ansiosa para passar ao trabalho de organização, o que só aconteceu em 1972, quando fui controlar a UEC. Mas não me conformava e comecei a pedir mais trabalho.
Conseguiu? Começaram a dar-me algumas tarefas. Uma delas mostrava que tinha conquistado a confiança do partido: pediram-me para bater à máquina as mensagens que chegavam dos presos políticos. Era assim que se combinavam as fugas e que se ficava a saber o que se passava lá dentro, quem traía e quem se portava bem. As mensagens chegavam em pequenos rolinhos de papel mortalha, escritos sem entrelinhas. Saíam da prisão nas solas dos sapatos, nas bainhas das roupas, e voltavam a entrar, pelo mesmo processo, desta vez com as notícias do que se passava cá fora. Era um trabalho terrível, de muitas horas. Ficava com dores de cabeça e nos olhos.
Como é que isso era feito? Escrevia na mortalha com um lápis muito fino e letra desenhada. Uma vez houve uma situação muito dramática. Um preso, que estava em desespero, pedia autorização para se suicidar. O partido diz que nem pensar e recebo ordem para lhe escrever e dar ânimo.
Conseguiu? Consegui, senti-me muito orgulhosa.
Nunca teve a PIDE à perna e conseguiu chegar ao 25 de Abril sem ter sido presa. Mas apanhei grandes sustos. Uma vez, um funcionário que conhecia a nossa casa e até a minha verdadeira identidade, foi preso. Com medo que falasse, tivemos de mudar de sítio. Fomos cada um para o seu lado até que as coisas acalmassem e o Albano arranjasse uma nova casa. Num anúncio de jornal, descobri para alugar um quarto na zona do Porto. Com a história de que era estudante e que tinha de fazer os exames na cidade, convenci o senhorio. Um dia, estou na cozinha, o homem entra porta dentro e diz-me: “Venho buscar a arma porque aconteceu qualquer coisa para Lisboa.” Fico apreensiva. Quando regressa, confidencia-me que tinha acontecido qualquer coisa com o Salazar. Só depois soube que Salazar tinha caído da cadeira. Foi um susto. Vi logo que tinha ido parar a casa de um PIDE. A minha foto circulava e, se ele a visse, estava tramada.
Como escapou dessa? Tinha uma forma de contactar a organização através de um estudante de quem tinha o telefone. Liguei, disse a senha e marcámos encontro. Explico-lhe que tem de ir a Coimbra enviar-me um telegrama a dar conta de que a minha mãe estava muito mal. Recebo o telegrama combinado e, muito aflita, mostro-a toda a gente. Saí sem levar as minhas coisas.
Pensava em como reagiria se fosse presa? Pensava nisso todos os dias e, nas reuniões com os controleiros, havia sempre um momento que se dedicava a isso: falava-se dos camaradas que tinham falado na cadeia e ensinava-se a como resistir à tortura. Claro que nunca se sabia como nos portaríamos às mãos da PIDE.
Houve pessoas que foram abatidas pelo PCP depois de falarem? As pessoas que falavam não eram abatidas, algumas até foram readmitidas depois do 25 de Abril. Mas para os que mudavam de lado, os traidores, a regra era abatê-los.
Em 1972, passa a dirigir a recém-formada UEC (União de Estudantes Comunistas). O movimento estudantil em Lisboa é um setor muito importante e tem uma missão difícil: convencer os estudantes a irem para a guerra quando uma das bandeiras de luta dessa geração era precisamente pôr fim à guerra colonial... Essa foi uma decisão histórica, um pouco trotskista, tomada por Cunhal em 1969 e que veio a ter consequências muito importantes no 25 de Abril: os estudantes comunistas não desertam, vão infiltrar o próprio exército colonial. Só desertam na frente da batalha. Foi o caso, por exemplo, de Manuel Alegre.
Uma decisão muito contestada no movimento estudantil. Os maoístas, e os grupos radicais de esquerda, acusam o PC de ser pró-colonial, mas os movimentos de libertação apoiam o PCP. E foi muito importante haver oficiais milicianos no seio das Forças Armadas porque os UEC que iam eram todos oficiais milicianos.
Sabia que ia acontecer a revolução de Abril? Havia setores militares dominados pelo PC. Tinha-nos chegado o programa do MFA, sabíamos a palavra de ordem, que seria a cantiga de Paulo Carvalho, “E depois do adeus”, e mais ou menos a que horas seria. Agora, nada estava garantido. Aquilo não era dominado por nós. Aliás, avisámos o Cunhal que ia haver uma revolução e ele, que estava em Paris, não acreditou. Achava que era um golpe militar de direita. Tanto que convoca uma reunião do Comité Central para Moscovo que depois veio a realizar-se em agosto em Alhandra (risos).
Como perguntava o outro, onde estava no 25 de Abril? Estava com o Carlos Brito, que controlava o sector intelectual, numa casa clandestina da UEC em Tires. Íamos ter uma reunião com dois funcionários, a quem não contamos nada. Mas não era possível trabalhar naquelas circunstâncias. Ligámos o radio, para ver se chegava o sinal, e jogámos às cartas. Até que soou o “E depois do adeus”. Aí, contamos o que se estava a passar e abraçamo-nos todos.
Carlos Brito, com quem veio a casar e de quem tem dois filhos, já estava na direção do partido há quase uma década e era um dos seus operacionais, nessa altura, no ramo militar. Estavam apaixonados? Casei com ele, é o pai das minhas filhas, tenho muito respeito por ele e lamento que tenha sido muito maltratado recentemente. Quando inauguraram o Museu da Resistência, em Peniche, onde ele esteve preso e foi brutalmente torturado, não o convidaram. Está a ver o que é o relativismo? Foi apagado da História.
Mas isso é do seu foro privado e por isso não vai falar nisso. Exatamente.
Depois da festa, veio o luto. Diz no seu livro, “Foi Assim”, que o PCP esteve por trás do 25 de Novembro, o que não é uma leitura unânime. Mas há provas. Álvaro Cunhal nunca aceitou o resultado das eleições, se o tivesse feito nunca teria havido o Verão Quente. Por equivalência à revolução russa, era muito clara a posição do PCP: a Revolução de Fevereiro está feita, a dos mencheviques; temos de passar à de Outubro. Nós não queremos uma democracia burguesa, queremos a ditadura do proletariado e só lá se chega pela insurreição armada. Portanto, fez-se tudo para desestabilizar o país. Porque é que foi criado o Grupo dos Nove? Para resistir!
Mas havia um plano? As coisas estavam coordenadas? Eram coordenadas e havia uma correlação de forças dia a dia.
Com o Otelo? Então por quem é que o Otelo foi convidado para ir a Cuba com a família e veio de lá a dizer que era preciso dar o passo em frente para a revolução armada? E quem convidou o General Costa Gomes para ir à União Soviética?
Depois viu-se: Costa Gomes ‘borregou’ e Otelo foi para a cama… Mas os aliados são assim! Lembre-se que o plano do PC foi transmitido pelo próprio Cunhal à jornalista italiana Oriana Fallaci e também numa reunião do PC da União Soviética: vamos criar as condições para a insurreição popular armada, que se lixem as eleições.
Mas havia um plano? Não se dizia datas. Mas sabíamos que, quando se desse a palavra de ordem, era preciso resistir no momento ou as forças da reação ganhariam. No dia a dia, estava-se a medir forças e à séria. Há barricadas, revistas aos carros. Ao longo de todo o Verão Quente, há assembleias do MFA e há, em agosto, o Documento-Guia do MFA que nos faz acreditar que íamos ganhar. PS e PSD resistem e organizam a manifestação na Alameda, a maior ‘manif’ de sempre. Põem o povo na rua, à séria.
Quem dá a ordem aos paraquedistas para avançarem, isso nunca se soube? Não sei, mas alguém do PC tem de saber. Eu, no dia 24 de novembro, fui chamada pelo meu controleiro à sede. Disse-me que os páras já tinham ordem para avançar e que nos iam dar armas para nos juntarmos a eles. Passei a palavra à malta da UEC e disse-lhes para aguardarem nas casas de estudantes a entrega do armamento. No dia seguir, chamam-me de novo à sede e recebo ordens para ir para a cama (risos). Na UEC houve um grande descontentamento. Achei que tínhamos recuado cedo demais. Mas, até eu me tornar dissidente, Cunhal nunca aceitou a derrota. Continuava a acreditar na insurreição popular pela via armada. Só com as eleições de Boris Ieltsín, quando na USSR são derrubados os ortodoxos em quem ele confiava, reconhece que perdera. Já eu estava fora do PC há muito tempo.
Por que se dá a sua rutura com o PCP? Depois de ter sido eleita para a Comissão Política do Comité Central, fui de férias à URSS. Fiquei perto da Ucrânia, em Sochi, na costa do Mar Negro, no centro da nomenclatura. Aí, conheci quadros do KGB e dos Serviços Externos que trabalhavam nos Estados Unidos e que também lá estavam de férias, com quem conversei e fiz amizades. Como estavam fora tinham a noção que era falso o desenvolvimento económico do país e garantiram-me que o regime ia abanar. Quando volto, tenho várias conversas com Cunhal sobre isso. Ele concordava que alguma coisa estava a acontecer na URSS e estava entusiasmado. Mas depois faz um braço de ferro comigo. Cheguei das férias doente, estava com tuberculose, e fiquei muito tempo isolada em casa. Aproveitei para ler. Li pela primeira vez livros sobre as vítimas dos regimes comunistas. O principal foi um de Alexander Soljenítsin. Pela primeira vez, fiquei com dúvidas.
Foi isso que fez o clique? Em parte. Em 1987, Cavaco Silva ganha com maioria absoluta. Na campanha, vi bandeiras do PSD por todo o lado. Avisei Cunhal que eles iam vencer com maioria absoluta. Não acreditou. Diz-me “nem pensar, então eu falo todos os dias com os camaradas da cozinha que andam na rua, nos transportes públicos, e dizem-me que no país está tudo PC!” Quando foi conhecido o resultado eleitoral, digo ao Cunhal que o é preciso mudar a linha política do partido, abandonar o processo da insurreição popular armada e democratizar o partido
Como é que ele reage? Disse-me que eu estava a perder a perspetiva revolucionária. Tivemos uma terrível discussão. Estava-se a organizar um comício e fui alugar o Pavilhão dos Desportos. Quando regresso, já não tinha o gabinete que ficava mesmo em frente ao dele, no 6.º andar, que era um piso só para alguns dirigentes do Secretariado e da Comissão Política. Tinham-me mudado de andar e o meu cartão não abria a porta. Na sede, deixaram de me falar. Ia tomar café e fazia-se um vazio à minha volta.
É aí que é expulsa. Mas nessa altura já toda a gente sabia o que acontecia aos dissidentes comunistas. Muitos foram apagados da História e a Zita, com o seu longo passado, sempre silenciou isso. Mas eu não tinha ainda abandonado os ideais que tinha abraçado desde sempre e, como dirigente do PC, tinha o direito de me bater pelas mudanças. Foi por isso que decidi defender-me, para não ser apagada da história. Senão, hoje, já não seria antifascista. De que é que eu sou acusada no julgamento que durou três dias? Tudo questões pessoais: que me tinha aburguesado, tinha empregada doméstica, vivia com um médico rico e, imagine, que fazia ginástica no Ginásio Clube Português! Nenhuma acusação política ou ideológica. Foi tão violento que sai de lá para o hospital com uma hemorragia.
Foi difícil fazer o luto? Fica-se doente, muito triste. A minha vida estava toda ali! Só pensava no que ia fazer dali em diante. O que vale é que eu tinha filhos, família. A maior parte dos meus amigos do PC deixou de me falar. Tinha sido uma grande humilhação pública. Procurei emprego, sem êxito. A minha imagem estava por todo o lado. Então, publiquei o meu livro. O conteúdo, no fundo, tinha sido a minha defesa no julgamento. Senti obrigação de falar porque influenciei muita gente. Há dois tipos de dissidentes desde 1917: os que saem fazendo barulho e os que saem silenciosos. Eu optei por fazer barulho. E isso fez-me bem. Como fiz a guerra, foi mais fácil recuperar. Comecei a dar entrevistas. De repente, começa a Perestroika. Fazia todo o sentido. Estava do lado certo da História.
Acreditou, como diz no seu livro, que o PCP a podia abater? Acreditei que me podia acontecer o que tinha acontecido com outros dissidentes. Era óbvio que corria riscos físicos.
Quando entra no PSD, muitos acusam-na de oportunismo. O que acho espantoso é que em 2025 ainda haja comunistas em Portugal. Eu ouvi o doutor Marques Mendes, candidato pelo PSD às presidenciais, dizer que teve muito orgulho quando cumprimentou Fidel Castro. Marcelo Rebelo de Sousa foi igual. Por cima destes cumprimentos estão fuzilados, presos, repressão, partido único. Como é possível? É um fascínio pelos líderes sanguinários de esquerda!
Falemos sobre os novos tempos na política. O Livre cresce, o Bloco e o PC descem. Como analisa este fenómeno? É porque o Livre é um partido mais moderno? Não. A esquerda toda, a começar pelo PS, está a sofrer as consequências de ter sido poder, de ter feito uma geringonça e ter toda uma política desadequada àquilo que são as necessidades do país. Só agora se aperceberam do erro. Era óbvio que, com o PC e o Bloco como aliados, o resultado seria este. O Livre também é um partido totalitário. No ano em que teve apenas uma deputada, ela fez uma figura tristíssima e hoje o Livre não traz nada de novo à sociedade portuguesa, bem pelo contrário. Basta ver a posição que têm sobre Israel e a Palestina. O mundo não vai passar por aí e o eleitorado está a mostrar isso.
Donald Trump tem na cabeça alguma coisa que se aproveite? O que levou Trump à vitória foi ter acabado com os direitos wokistas que tinham sido criados pelos democratas, por gente como Joe Biden e Kamala Harris, que nem sabia responder às entrevistas. Recentemente estive na América, numa viagem longa, e, quando perguntava a alguém por que votara em Trump, a primeira coisa que vinha ao de cima era “pelo combate ao wokismo”. As pessoas estavam fartas de quotas para pretos, para brancos, para amarelos, para gays, para trans. As pessoas não podem ser divididas por etiquetas. Todos são cidadãos, tenham a cor que tiverem.
Essa foi a forma encapotada de Trump tentar esconder a sua homofobia, racismo e xenofobismo. Não. As pessoas têm toda a liberdade para decidirem a sua vida sexual, ninguém tem nada com isso. Agora, não venham criar privilégios ou discriminações em função do sexo e da cor da pele. Em democracia, todos somos iguais, o direito de voto é universal. E não pode ser estratificado. Não se pode entrar na universidade em função do sexo ou da cor da pele. Isto é liquidar a democracia. A democracia ocidental é fundamentada exatamente na universalidade dos direitos. Subescrevo absolutamente a posição da autora do Harry Potter, que, por causa da discriminação das mulheres no desporto, com um grupo de lésbicas, recorreu para o Supremo Tribunal inglês. Haver um homem a dizer que se sente mulher e por isso concorrer no boxe feminino, e levar a medalha de ouro, é inaceitável. E o Supremo deu-lhe razão. Vale a pena ler o acórdão onde se fala de um violador de mulheres que estava numa prisão masculina e, de repente, sente-se mulher e é mudado para uma prisão feminina. Por exemplo, falando da minha área, dos livros, chocou-me sempre o que vinha a fazer a esquerda wokista que tentou rever livros fundamentais da história da literatura como se fossem escritos hoje. Considerar o Tintim racista é um disparate completo e perigoso.
O Chega é um partido democrático ou antidemocrático? O Chega é um partido que veio ocupar um espaço político na democracia que a direita deixou livre. Quando os políticos dessa área deixam livre esse espaço, e se dizem também de esquerda, dá nisso. Tudo começou com Rui Rio que considerou que o PSD era de esquerda. Rui Rio não era liberal. Portanto, ficou um partido igual ao PS. Com isso, deixou esse espaço enorme à sua direita e não há espaços vazios em política. O Chega preenche-o e tem sido eficaz.
Criticou o “não é não” de Montenegro. Acha que ele traiu agora esse princípio? Como se viu, aliás, neste momento Montenegro já não diz “não é não”. Pegou nalgumas bandeiras que eram do Chega, e que o PSD lamentavelmente tinha deixado, e agora apresentou, tanto na legislação laboral como na questão dos imigrantes, uma série de propostas que o Chega teve de votar ou então perdia a cara. E isso é uma posição muito mais inteligente do que a ideia do “não é não”, que não permite fazer nada ao PSD.
Montenegro está certo ao aliar-se ao Chega para produzir leis de controlo da imigração? Ele não se aliou ao Chega. Pegou numa das bandeiras desse partido porque a imigração era uma questão óbvia que tinha de ser tratada. Não faz sentido nenhum que, em Portugal, tenham entrado um milhão e 500 mil imigrantes, na sua maioria provavelmente muçulmanos e antiocidentais. Há é uma esquerda radical que é contra os valores do Ocidente. Nós temos uma civilização judaico-cristã que permitiu que muita gente viesse para cá – e felizmente que é assim. Não estamos a discriminar pessoas, mas tem de se garantir que o país tem condições para as receber de forma decente. Há pouco tempo estive na Gare do Oriente: as pessoas ali vivem pior do que os animais. Somos um país do Ocidente, um país civilizado, não podemos aceitar isto. Os miúdos que andam a entregar refeições de bicicleta, dos vários Uber Eats cá do sítio, dão-nos jeito a nós porque assim estamos em casa e recebemos o almoço tranquilamente. Mas esses miúdos podem ser atropelados e nem contratos de trabalho têm. Que sindicatos é que os defendem? São um novo proletariado. É miserável que a Europa esteja assim.
Disse numa entrevista ao Sol que o PSD tinha morrido. Ainda pensa assim? O PSD está a atravessar uma situação muito difícil porque um governo minoritário não é capaz de fazer grandes reformas. A vitalidade do PSD vem sempre da sua capacidade reformadora. Se o PSD, ao fim de um ano, ainda não fez nenhuma grande reforma (apenas esta legislação da imigração agora), nomeadamente no SNS que precisa de ser reestruturado para corresponder àquilo que são as necessidades do país, então está morto!
Continua uma ‘Passista’? Penso que Passos Coelho teve capacidade de reformar o país num momento muito importante e isso notou-se na capacidade depois de recuperar economicamente o país depois da bancarrota. A minha matriz básica, de base, é de figuras como Aníbal Cavaco Silva, Sá Carneiro e Passos Coelho. Cavaco Silva, e antes dele Sá Carneiro, foi um grande reformador. Esses três grandes líderes deixaram história. Montenegro só se afirma se fizer reestruturações a sério, se transformar o PSD numa força política importante, firme, que corresponda a uma visão liberal capaz de atrair jovens e atrair a nata da população. Vamos ver se com esta questão de rever o “não é não” leva Montenegro a caminhos que sejam verdadeiramente reformadores. Não me parece.
Já foi do PCP, já foi do PSD e mudou para a área da IL (de que foi mandatária eleitoral, embora não filiada). E agora? A motosserra do argentino Milei é a solução? Fui mandatária de Carlos Magalhães Pinto no momento que que o PSD tinha como dirigente o Rui Rio que se definiu como centro-esquerda e se aproximou do PS revertendo parte daquilo que era o fundamental nas políticas tradicionais do próprio PSD. Tornou-se num partido estatista bastante próximo do socialismo. E eu mudei-me. E sim, penso que a motosserra de Milei está a dar resultados na Argentina. E isso é um rude golpe para aqueles que consideram que o futuro é socialista. Não é socialista!
Acha que esta vaga de extrema-direita, que passa por Trump, Le Pen, Ventura, veio para ficar ou é uma coisa passageira? Veio para ficar e está a aumentar. Já falou na Argentina, mas não só, na própria Europa. Portanto, estamos a caminhar para uma situação em que a direita tem de ser direita. A direita não pode ser esquerda ou então perde a confiança dos eleitores de direita.
Depois da saída do PCP dedicou-se aos livros. Primeiro na Quetzal, depois na Bertrand onde foi diretora editorial, e agora na Alêtheia de que é fundadora. Como é que as editoras conseguem resistir ao digital, às cópias pirata? Não conseguem. É como os discos com as Spotify. Antes, ia tomar um café com uma amiga e falávamos do que estávamos a ler. Agora perguntam-me que série da Netflix estou a ver. Com a covid então foi a desgraça. Aquela ministra da Saúde, supostamente socialista, a Marta Temido, conseguiu proibir durante meses a venda de livros. Em França, em Madrid, as livrarias estavam abertas. A cena era completamente caricata. Nos hipermercados, na zona dos livros, havia uma fita vermelha a tapá-los. A FNAC podia vender eletrodomésticos mas não podia vender livros. Num momento, em que as pessoas estão presas a casa não havia livros para passar o tempo. Com isto, foi muita gente para o desemprego. A esquerda portuguesa radical é profundamente ignorante. A Marta Temido nunca deve ter lido um livro.
O que é que a vida, ao fim de 76 anos, lhe ensinou? Ensinou-me, primeiro, que a tolerância é muito importante quando se discute política. Penso que a sociedade política está um bocadinho crispada e muito pouco tolerante. Aos que estão mais à direita chama-se logo “fascista” e esta faz o mesmo a quem está mais à esquerda. Esta expressão foi inaugurada por Estaline. Essa crispação tem de ser combatida. Também já rotulei pessoas por discordarem das minhas opiniões. Hoje, penso que há sempre alguma coisa de positivo nos contrários, nas opiniões dos outros. Agora, não é possível ser comunista e ser tolerante. Isso não existe.