quarta-feira, 20 mai. 2026

Joaquim Oliveira. 'Citizen Kane' do futebol português

1947-2025 Morreu o magnata dos direitos televisivos desportivos em Portugal
Joaquim Oliveira. 'Citizen Kane' do futebol português

O futebol português está de luto pela morte de Joaquim Oliveira, empresário conhecido pela criação da Sport TV e antigo dono de vários jornais e rádios nacionais. Uma vida de altos e baixos que agora acaba, não sem polémica e entre sucessos e insucessos.

Fundador e presidente do Conselho de Administração da Olivedesportos (1984), Dragão de Ouro (1990) – apesar de haver quem o definisse como adepto do Sporting Clube de Portugal –, dono do jornal O Jogo (1994), fundador e presidente do Conselho de Administração da Sport TV (1998), Cidadão Honorário da sua cidade natal, Penafiel (2014), e ‘imperador’ da Lusomundo Media (à qual pertenciam, há 20 anos, o DN, o JN, o 24 Horas, o Tal & Qual, TSF, as revistas Volta ao Mundo, Evasões e Notícias Magazine, e a Grande Reportagem).

Estes são apenas alguns dos vários títulos que identificaram, ao longo das últimas décadas, Joaquim Oliveira, o empresário português de Penafiel que morreu no sábado, 16 de agosto, aos 78 anos, e que era sinónimo do panorama nacional desportivo.

Uma «figura importantíssima» do futebol nacional, como o definiu em comunicado Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), Joaquim Francisco Alves Pereira de Oliveira fez com que o seu nome fosse indissociável do desporto rei no nosso país, destacando-se no mercado dos direitos televisivos em Portugal. «Em 1984, fundou a Olivedesportos, empresa pioneira na comercialização de direitos televisivos, publicidade e marketing desportivo, e foi protagonista central na modernização da comunicação desportiva no país». Quem o diz é a própria família, num comunicado enviado à imprensa, para lamentar a morte do empresário nascido a 12 de fevereiro de 1947, na freguesia de São Miguel Paredes, que foi também condecorado em 2014 com o título de Cidadão Honorário da cidade que o viu nascer, no Norte.

A morte de Joaquim Oliveira não passou despercebida e recebeu a merecida homenagem, com a Liga Portugal e a FPF a decretarem um minuto de silêncio cumprido em todos os jogos deste fim de semana de competições organizadas pelos dois organismos.

A história do empresário – que é irmão do antigo selecionador nacional e, antes, futebolista interncional António Oliveira – está repleta de altos e baixos, momentos de glória e episódios que levantaram algumas sobrancelhas. Estava ligado ao Futebol Clube do Porto, ao Sporting Clube de Portugal e ao Sport Lisboa e Benfica, tendo feito aliás parte da SAD dos três clubes, entre outros, como foi o caso do Sporting de Braga, do Belenenses e do Penafiel. Ficou conhecido por ter ajudado muitos clubes em tempos de crise. 

Em 2024, foi sequestrado na sua própria casa, em Cascais, mas graças à sua mulher, que conseguiu acionar um alarme sonoro a partir de outra divisão da mansão, o assalto foi interrompido e infrutífero, segundo o relato da altura feito pelo Correio da Manhã.

Há quem diga que levava ele próprio os cartazes publicitários para os estádios onde detinha estes direitos – incluindo nos estádios onde Portugal jogou o infame Mundial de 1986, no México – e que, num dado momento, o forte poder económico permitiu-lhe dominar este negócio junto dos maiores clubes nacionais.

Era conhecido pelas longas conversas que gostava de ter de madrugada, ao telefone, especialmente depois do fecho das edições dos vários jornais que detinha, como O Jogo. Quem o disse foi Rogério Gomes, antigo diretor-adjunto desta publicação, citado pelo jornalista Samuel Alemão, num artigo de perfil do empresário publicado há cerca de duas décadas.

Naquela altura, a discrição de Joaquim Oliveira foi um dos temas centrais. Agora, cerca de 20 anos depois, a realidade mantém-se: são raros os relatos biográficos disponíveis nos jornais, televisões e rádios, sobre o empresário, para além de detalhes como o local e a data do seu nascimento e as suas relações familiares.

Porém, nem tudo na vida de ‘Quim Oliveira’, como era conhecido em Penafiel, foram rosas. A sua juventude foi passada, maioritariamente, a trabalhar ao balcão do restaurante que a mãe, Lucinda Rosa – ‘Roseirinha’, como era conhecida – e o marido, Joaquim Ribeiro de Oliveira, exploravam em Penafiel, para além de uma pensão no andar de cima do estabelecimento. O pai do empresário manteve-se desconhecido, levando mesmo a que, até aos cinco anos, Joaquim Oliveira tivesse apenas os apelidos do avô materno, tendo sido batizado Joaquim Francisco Alves Ferreira.

Nos finais da década de 1960, a Guerra Colonial levou Joaquim Oliveira até ao Norte de Angola, de onde regressou a Portugal em 1970… mas não por muito tempo. Depois de conhecer o país, optou por tentar a sua sorte em Luanda, onde fez proveito da experiência conquistada no estabelecimento da mãe e optou por abrir a cervejaria São João. Em 1975, durante o processo de descolonização, regressou a Portugal e abriu vários estabelecimentos no Norte do país. Depois, em Lisboa, associou-se ao irmão, António – de alcunha ‘Oliveirinha’ –, antigo jogador do Sporting e do FC Porto e antigo selecionador nacional, e, em 1982, abriram ambos uma charcutaria no antigo Centro Comercial Stromp, junto ao Estádio José de Alvalade.

Mas o grande negócio ainda estava por vir: em 1984, nasce a Olivedesportos, em parte pela influência do então presidente do Sporting, João Rocha, e também em sociedade com o irmão. Primeiro, o plano era investir na publicidade e, dez anos depois, foi definido o rumo final desta empresa: os direitos televisivos. É aqui que começa o grande império de Joaquim Oliveira e, com ele, as grandes polémicas que marcaram a sua carreira. A relação entre os irmãos, por exemplo, terá ‘azedado’ ao fim de perto de duas décadas, alegadamente depois de o atleta ter discordado da forma como os lucros da empresa estavam a ser divididos.

A mesma reportagem do jornalista Samuel Alemão, acima citada, refere alguns momentos mais tensos da sua vida. «Utilização de meios da RTP em proveito próprio», «Satélites substituídos», «Contratos não cumpridos», «Pagamentos antecipados a clubes em dificuldades» são algumas das críticas que terão sido apontadas pelo antigo presidente do Sporting, João Rocha, empresário que chegou a deter boa parte dos direitos televisivos do futebol português na Diáspora, e que delegou em Oliveira a missão de percorrer os clubes da Primeira Divisão, em busca de negócios.

Fala-se também de uma tática ‘infalível’: emprestar dinheiro aos clubes que estavam aflitos a troco de poder e influência. Aliás, o próprio admitiu que este era o seu segredo para o sucesso do negócio. Numa entrevista ao Expresso, em 1994, vaticinou: «Pagar mais e melhor que os outros».

Aquele contexto temporal também ajudou ao sucesso de Oliveira, numa altura em que, com a aparição das televisões privadas, tornava-se apenas uma questão de tempo até que o mundo dos direitos televisivos para as transmissões desportivas se tornasse num negócio lucrativo. O crescendo culminou com a fundação da Sport TV, o primeiro canal televisivo em Portugal dedicado exclusivamente a conteúdos desportivos, em parceria com a RTP e a PT, em 1998.

Joaquim Oliveira é possivelmente uma das figuras que melhor personifica a popular dicotomia: amado por alguns, odiado por muitos. Basta navegar pelas reações populares à sua morte, tanto fora como dentro das redes sociais. «É muito capaz de ir para o céu, mas devia pagar subscrição durante dois anos. Com obrigatoriedade de ver a Benfica TV», escreveu um internauta, ecoando uma crítica repetida ‘ad eternum’ ao homem responsável pela modernização e pela comercialização dos direitos televisivos do futebol e não só.

Aos 78 anos, em consequência de uma pneumonia grave, o empresário morreu, deixando para trás um império e um legado incontornável no mundo desportivo em Portugal, bem como no mundo da comunicação social e das transmissões televisivas.