A ex-deputada e antiga vice-presidente da Assembleia da República Teresa Caeiro, também conhecida entre os amigos por ‘Tegui’, morreu a 14 de agosto, aos 56 anos. Dez dias antes e poucos dias depois de ter anunciado que tinha se desfiliado do CDS, após 30 anos de militância – com o argumento que o projeto partidário não ter «evoluído, não ter identidade própria» –, tinha-lhe ligado a pedir uma entrevista. Ficou de dar-me uma resposta nos dias seguintes, uma vez que o filho estava de férias e queria passar mais tempo com ele. Despedimo-nos num tom de brincadeira: «Não me chame de Dra. Só em Portugal é que nos tratamos desta forma. Não faz sentido nenhum usarmos estes títulos. É só Teresa», simplificou. Infelizmente, a conversa adiada não terá hipótese de se realizar.
Licenciada em Direito pela Universidade de Lisboa, começou a trabalhar como tradutora no Tribunal de Justiça da União Europeia, mas foi na política que deu cartas, tornando-se rosto conhecido dos portugueses.
Através do escritório de advogados onde trabalhava, defendeu o jornal O Independente em vários processos e, no final dos anos 1990, Paulo Portas, já líder do CDS, chamou-a para assessora jurídica do grupo parlamentar do CDS-PP, na Assembleia da República. Seguiu-se a função de chefe de gabinete do mesmo grupo parlamentar. Mais tarde, no Executivo de Pedro Santana Lopes, tomou posse como secretária de Estado das Artes e do Espetáculo, cargo que exerceu até 2005 – e não da Defesa, como tinha sido anunciado horas antes. Após a sua saída do Governo criticou ferozmente a política que estava a ser seguida na pasta da Cultura pela então ministra Isabel Pires de Lima. Falou num setor cultural que exige estabilidade, previsibilidade e planeamento a médio prazo, acusando o Ministério de agir de forma dirigista, interferindo na programação das instituições culturais quando essa responsabilidade cabia aos seus diretores.
Depois da vitória eleitoral do PS de José Sócrates, nas legislativas de 2005, tomou assento na Assembleia da República, sendo reeleita deputada em 2009 e 2011, pelo círculo eleitoral de Leiria. Foi vice-presidente da Comissão Política Nacional do CDS-PP, desde 2008 até 2012.
Enquanto deputada, criticou a proposta do Governo de reduzir o IVA em certos espetáculos culturais deixando de fora outros eventos, como as touradas, defendendo que a política fiscal não deve ser usada como «arma ideológica». Por outro lado, era defensora de maior apoio ao interior do país, evitando políticas centralistas que beneficiavam apenas Lisboa e grandes centros urbanos, e pedia a intervenção do Estado português em causas humanitárias, coerente com a tradição democrata-cristã do seu CDS.
No partido, tinha voz própria e notabilizou-se em questões como a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a adoção por casais gay.
Sempre foi muito próxima de Paulo Portas. «Houve uma altura em que isso me perturbava um bocadinho. Houve uma altura em que talvez me sentisse menorizada. Hoje em dia não tenho problemas nenhuns com isso. Ele foi um excelente líder e não tenho problemas em ser conotada com o portismo», confessou numa entrevista a Anabela Mota Ribeiro.
Após sair do Parlamento, trabalhou como jurista na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, onde ainda se encontrava em funções. Ao longo do seu percurso foi também comentadora política na SIC Notícias e atualmente fazia comentários na Antena 1.
Vida pessoal
Filha e neta de militares, Teresa Caeiro assumiu nessa mesma entrevista que sendo a filha mais velha assumiu cedo o peso da responsabilidade e que lhe sempre foi esperado um determinado tipo de comportamento. «Sempre me foi imputada muita responsabilidade e eu sempre a assumi. Se me perguntasse o que é que gostaria agora de receber... O que é que gostaria que se abatesse sobre mim? A irresponsabilidade. Receber cada dia como ele é. Não pensar nem no dia de ontem, nem no de amanhã, mas, por uma vez, no de hoje. Seria uma dádiva», confessou.
Tinha cinco anos e estava em Cabo Verde quando se deu o 25 de Abril; com nove anos foi viver para Bruxelas, onde permaneceu até aos 19 anos. Voltou a Portugal em 1988, para ingressar na Faculdade.
Na mesma entrevista, revelou que tinha amigos muito diferentes uns dos outros. «São pessoas do espetáculo, são pessoas da política, são pessoas da advocacia, os chamados betos... É um mosaico», salientou. Mas, apesar de chamar a atenção para a vantagem de poder contactar com vários mundos, foi essa diversificação que lhe abriu as portas para «uma grande instabilidade».
Chegou a confessar que não se imaginava a fazer política para o resto da vida. Era uma atividade em que «não somos donos do nosso tempo», dizia, reconhecendo que não conseguia fazer uma boa gestão da vida familiar. «Ninguém consegue e quem diz que sim está a mentir. É impossível ser tudo, a super-mulher que vai ao ginásio às 7h, é uma ultra mãe, lê livros todas as noites, é a melhor no seu trabalho, concorre a prémios e passa metade do mês a viajar pelo mundo. Alguma coisa fica para trás», afirmou.
Admitiu que não gostava de passar pela vida sem ser mãe e apesar de ter idealizado ter uma família enorme acabou por só ter um filho de uma relação com o professor e investigador Vasco Rato. «Um filho muda tudo, faz reequacionar tudo, as prioridades. Sabe a sensação de estar apaixonada, de ter o coração aos pulos? Mas, ao contrário das relações amorosas, com a criança isso vai crescendo, e queremos estar mais e mais com essa pessoa», referiu na mesma entrevista.
Em 2011 casou-se com Miguel Sousa Tavares, de quem acabaria por separar-se seis anos depois. Na altura, os feitios incompatíveis foram apontados como uma das principais razões para a rutura. No entanto, nos últimos dias foram surgindo diversos rumores de que teria sido vítima de violência doméstica, o que foi entretanto afastado pela família. «A família da Teresa lamenta profundamente e repudia os rumores e falsidades que circulam sobre a sua vida pessoal e íntima. A Tegui, como carinhosamente lhe chamamos, nunca foi vítima de violência doméstica. A família pede neste momento decoro, contenção e que a sua memória seja respeitada», diz uma declaração assinada pelos pais, filho e irmã.
Poucas horas mais tarde, foi a vez de Sousa Tavares reagir à polémica. «Acho extraordinário que tenham escrito o que escreveram, em tanto lado e por tanta gente, sem nunca terem falado comigo. Não me ligaram, como não ligaram à família e amigos da Teresa», lamentou o escritor ao 24Horas, garantindo que vai levar o caso a tribunal, para defender a sua honra e a da ex-deputada do CDS: «Vou fazer o que tenho de fazer, não só para defender a minha honra, mas também a memória da Teresa».
Reações
As reações à sua morte não se fizeram esperar. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa lamentou a morte precoce, afirmando que Teresa Caeiro «deixa uma enorme saudade do seu contributo ao serviço do país e do trato sempre afável». Também vários antigos colegas de partido e de outras bancadas políticas manifestaram o seu pesar nas redes sociais. Já o presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, disse que Teresa Caeiro deixa, na democracia portuguesa, «uma marca de humanismo, assertividade e elevação pessoal que todos reconhecem». E foram mesmo muitas as figuras públicas que expressaram o seu carinho e tristeza.