terça-feira, 09 jun. 2026

Desenhos com 500 anos reaparecem após recuo da maré no Havai

Foram descobertos em 2016, mas esta é a primeira vez que ficam totalmente expostos. Para os nativos, os antigos petróglifos trazem uma mensagem importante. Para os EUA é importante preservá-los
Desenhos com 500 anos reaparecem após recuo da maré no Havai

Um tesouro arqueológico emergiu recentemente da areia na costa de Waianae, em Oahu, no Havai, perto do Centro de Recreação do Exército de Pililaau. Trata-se de um painel de petróglifos – representações gravadas pelo Homem na pedra –, que ficaram visíveis graças ao recuo da maré. As ondas sazonais do oceano acabaram por remover a areia que normalmente esconde essas esculturas históricas.

Ao todo, o conjunto conta com 26 petróglifos, que estão concentrados ao longo de um grande painel de 35 metros na faixa de areia. Estes representam figuras humanas estilizadas, e até alguns símbolos enigmáticos, que foram gravados no arenito da praia há mais de 500 anos. Segundo a Revista Galileu, a última vez que os desenhos ficaram expostos foi entre 2016 e 2017, quando foram descobertos acidentalmente por um casal que passeava pelo local.

Possíveis significados

Nessa altura, foi possível observar 18 representações humanas e oito formas abstratas. Escreve a mesma publicação que algumas das figuras variavam entre 15 centímetros e dois metros, «um tamanho incomum para esse tipo de arte rupestre no Havai». Oito delas apresentam traços que podem indicar características masculinas, enquanto outras mostram poses dinâmicas, possivelmente ligadas a rituais e cerimoniais. Essas representações, muitas das quais se assemelham a figuras antropomórficas de palitos, não são apenas uma representação visual da arte havaiana, mas também «um importante elo cultural com a profunda história da ilha».

A maior figura, por exemplo, parece estender uma mão em direção ao céu e a outra em direção ao chão (um suposto símbolo do nascer e do pôr do sol). Os investigadores locais acreditam, por isso, que o painel pode representar «uma história tradicional havaiana relacionada à agricultura e aos ciclos do sol». «Embora seja difícil determinar uma data exata, com base em sítios próximos, eles podem ter mais de 600 anos», acredita Laura Gilda, arqueóloga responsável pelo estudo do achado, num comunicado divulgado pelo Exército dos EUA. A especialista acrescenta que a sua equipa já documentou as gravuras para partilhar com os membros da comunidade indígena local, garantindo também que o sítio permaneça protegido contra danos causados por visitantes curiosos. Os petróglifos só são revelados ocasionalmente, «após as mudanças sazonais das marés e as flutuações das ondas deslocarem a areia da praia, expondo a obra de arte».

Uma mensagem ancestral

Mas para Glen Kila, nativo havaiano que traça a sua linhagem até às famílias aborígenes desta comunidade costeira do Havai, «o ressurgimento destas maravilhas tradicionais carrega um significado mais profundo». Ao The Independent, o homem disse acreditar que são os seus ancestrais a tentar enviar uma mensagem. «Isso está a avisar a comunidade que o nível do oceano está a subir», afirmou. O especialista na cultura e história local de Waianae acrescenta que a sua interpretação «ressoa profundamente com a população local, especialmente num momento em que a subida do nível do mar e as mudanças climáticas são grandes preocupações para as comunidades insulares».

A área ao redor de Waianae tem um profundo significado pessoal para Kila, cujos antepassados foram expulsos da terra quando os militares tomaram a região na década de 1930. Nessa época, a sua família trocou terras nas montanhas por uma plantação de café para que pudesse permanecer perto da baía. 

Numa entrevista incluída no relatório do Exército, o homem de 72 anos lembrou que cresceu em Waianae sem televisão. «O oceano e as montanhas eram o nosso local de brincadeiras», disse. «O centro recreativo do Exército era proibido ao público, e o paredão era a barreira entre os nativos havaianos e os militares», lamentou, frisando que se os nativos andassem em cima do muro, eram espancados e empurrados pela polícia militar. Apesar disso, Kila enfatiza o sentimento de orgulho pela sua ligação à terra: «Éramos orgulhosos e sabíamos de onde vínhamos, por isso, nunca alimentámos qualquer ódio pelos militares. Acreditávamos que, um dia, a terra tornaria a ser nossa», admitiu. Ao visitar os petróglifos no início desta semana, Kila disse à Associated Press que a proteção dos desenhos pelo Exército representa «uma mudança nesse relacionamento comunitário».

«Ao proteger sítios culturais como esses petróglifos, honramos a herança do Havai e construímos laços comunitários mais fortes», afirmou Dave Crowley, responsável pelo Programa de Gestão de Recursos Culturais da Guarnição do Exército dos EUA no Havai, em comunicado. A sua equipa utiliza tecnologias como fotogrametria 3D para registar digitalmente os sítios, além de promover visitas culturais para grupos nativos havaianos e treinos de conscientização para militares. Os modelos 3D permitem que o público explore os petróglifos virtualmente.

Crowley lidera uma equipa de arqueólogos, historiadores e especialistas culturais que gerem os recursos culturais em mais de 168 mil acres, dois mil edifícios históricos, oito distritos históricos, três Marcos Históricos Nacionais e mais de 1.800 sítios arqueológicos em 22 instalações em Oahu e na ilha do Havai.

À medida que os petróglifos continuam a emergir e desaparecer com as mudanças das marés, há uma crescente urgência em torno da sua preservação. «As autoridades estão a trabalhar para descobrir como partilhar os petróglifos com a comunidade e, ao mesmo tempo, protegê-los», garantiu Laura Gilda.