Começou por explorar as madeiras e metais, mas quis ir mais longe na sua arte. Descobriu o vidro por acaso e num momento de desespero criativo. Acabou por revolucionar a expressão artística com a sua técnica única de destruí-lo. É fascinado por retratos e é isso que grava com a ajuda do martelo que com vários toques – de várias intensidades –, criam profundidade, expressão e emoção.
Acredita que o rosto é a «tela da alma» e, através do seu trabalho, procura captar a essência dos seus retratados. Partir vidro é visto normalmente como algo depreciativo, muitas vezes associado ao vandalismo. Mas a destruição pode ser bela e Simon Berger prova exatamente isso construindo verdadeiras obras de arte estilhaçando vidro, queimando madeira e rasgando tecido. Ou seja, ensinando-nos a olhar para um objeto criativamente, vendo além daquilo que está à nossa frente.
Da madeira ao vidro
Considera-se um «artesão autodidata». Uma das suas primeiras obras de arte foi um presente para a sua esposa. «Na época, estava a experimentar tinta spray. Usei-a para criar um retrato dela», partilhou numa entrevista à revista de arte Shot. «Ver a alegria nos seus olhos ao recebê-lo tocou-me profundamente. A forma como apreciou a pintura foi um momento revelador para mim. Foi uma experiência bastante inesperada e verdadeiramente única. Foi aí que percebi que queria seguir a carreira de artista», lembrou, acrescentando que «ser capaz de criar algo que comove as pessoas é uma das razões pelas quais continua a explorar e experimentar novas técnicas e materiais».
Cresceu em Herzogenbuchsee, Suíça, e depois de acabar o secundário, formou-se como carpinteiro. A primeira paixão foi a madeira. «Foi ela que inspirou as minhas primeiras criações urbanas. Também adoro mecânica e, foi enquanto trabalhava na carroçaria de automóveis e, especialmente, em para-brisas, que a minha arte em vidro acabou por nascer», explicou numa outra entrevista à agência de notícias Stirworld.
Segundo o próprio, já criava obras de arte há seis ou sete anos na época, mas ainda não tinha encontrado o seu nicho. «Eu era conhecido regionalmente, mas queria mais», admitiu. Descobriu o vidro por acaso, numa situação de «emergência criativa». «Um projeto não estava a correr como eu esperava e pensei que deveria haver uma maneira de encontrar uma forma de expressão artística com uma técnica completamente nova. Depois de muita reflexão, ocorreu-me a ideia de usar vidro», lembrou. «Fiquei encantado ao ver que funcionava como eu tinha imaginado. Aprecio particularmente a arte na qual colocamos força ou energia em ação. Essa energia é sentida nas criações. O vidro tem uma longa tradição, mas ainda tem muito potencial para ser repensado e usado de forma inovadora», revelou.
O fascínio pelo retrato
Alguns dos seus trabalhos mais procurados são os retratos hiper-realistas, sobretudo de mulheres. «Os rostos humanos sempre me fascinaram. No vidro, eles ganham destaque e atraem o observador magicamente. É um processo de descoberta, da nebulosidade abstrata à perceção figurativa», explicou Berger.
Procura fotos «adequadas» de rostos e tenta representá-los com um martelo no vidro. «Nem todos os rostos e nem todas as fotos são adequados para isto. Com o tempo, desenvolvi uma sensibilidade para o efeito de diferentes rostos e diferentes emoções no vidro. Em vidros de segurança, as emoções passam particularmente bem. A técnica consiste simplesmente em explorar a profundidade do material com um martelo. Quanto mais próximos e curtos os golpes, mais fortes são os contrastes e as sombras», adiantou.
«Há muitos anos, lembro-me de ter visto um retrato pintado por um artista francês (...) a maneira como este conseguiu transmitir-me tanta profundidade e emoção, impressionou-me. Essa é uma das razões pelas quais continuo a trabalhar com retratos. Quando comecei a expor o meu trabalho internacionalmente, percebi o quão universal é – o rosto humano é quase como uma linguagem global não verbal que a maioria das pessoas consegue entender», desvendou à Shot. «O retrato existe há muito tempo e acredito que continuará a ser explorado. Às vezes, é deixado de lado por ser um tema super explorado, mas tive uma experiência interessante que me provou o contrário», continuou. Na sua exposição individual na Galeria Aurum, em Bangkok, Berger notou que os seus retratos pareciam diferentes dependendo do dia. «Eles eram um reflexo do meu próprio humor e estado de espírito. De certa forma, um retrato também é um espelho que oferece uma oportunidade para autorreflexão. Ao escolher um tema, procuro sempre um rosto que me fascine. Pela sua beleza, pelos seus traços faciais característicos, mas também pelas histórias pessoais que essas pessoas podem contar», explicou.
À mesma revista, o artista disse que levou anos para entender as leis de como o vidro se quebra. «Como qualquer outro artista (...) é preciso várias tentativas e erros, acidentes felizes e frustrantes, para realmente descobrir como trabalhar com um material», garantiu. «Neste caso, devo respeitar certos limites. Se eu bater num painel de vidro com muita força e sem controlo, o vidro vai quebrar de forma diferente do que se eu bater nele com mais leveza. No princípio, estava sujeito à natureza do vidro, e somente conhecendo-o profundamente cheguei ao ponto em que posso usar essas subtilezas para criar as rachaduras que desejo», partilhou.
Um dos aspetos mais fascinantes para Berger é criar obras para o público ao vivo. «A experiência de estar presente na produção da obra cria uma forte conexão emocional com a arte», explicou à mesma publicação. Dependendo da distância à que se está da obra, o retrato «emerge ou dissolve-se», adianta o artista. O objetivo é que «os espetadores se envolvam com ela de múltiplos ângulos e pontos de vista». «A destruição transforma-se numa forma de desenho, enquanto a rutura se torna a marca»: «Dessa forma, a obra resiste a um significado fixo – em vez disso, vive em fluxo, redefinida continuamente pela luz, pelo contexto e pelo tempo», afirmou.