sexta-feira, 23 jan. 2026

Era a casa mais bonita da aldeia…

A destruição do lugar, dos campos, dos bosques (carvalhos, castanheiros, sobreiros, vidoeiros), dos quintais, dos animais, das hortas, das vinhas, casas e alpendres é sem dúvida um acontecimento de grande violência psíquica porque coloca-nos perante a perda irreparável do tempo vivido.

1.Um homem esgotado e destroçado pela luta contra o ciclo de fogo, recusava olhar para a realidade brutal que lhe entrava por todos os sentidos e, falava para a jornalista de que era a casa mais bonita da aldeia, das flores, das árvores, dos recantos, do aconchego da casa nas horas de lazer e de convívio.  A emoção tomou conta dele e de olhos baixos suspendeu as palavras para dar lugar a um silêncio de dor e de tristeza profunda. Um silêncio que ocupou a destruição e o vazio de uma vida. Lugares que foram engolidos pelo fogo. Casas que foram consumidas num abrir e fechar de olhos pelas chamas. As memórias de tantas vidas, agora ali, espalhadas por entre as cinzas pretas do fogo, lembrando que ali morou uma família, com as suas “relíquias” agora transformadas em cacos negros de sofrimento.

Todos aqueles recantos, moveis, fotografias, objectos domésticos transformados em pó, eram a materialização de uma memória que fazia a mediação entre o tempo vivido, o passado e o presente. Funcionavam como objectos-narrativas que evitavam o esquecimento e sublimavam a dor da partida, com a simbolização ritual de uma ausência vivida em memória corporizada nos objectos que de geração em geração, compunham o ecossistema doméstico -, as memórias de uma família.

Depois do incêndio ficou o vazio, a ausência sofrida, a recuperação da narrativa que recorre a um antes de, para saltar sobre os destroços do depois de. A procura do lugar que não existe fisicamente, mas que se pode rememorar através da imaginação que nos possibilita um habitar na ausência. Olhar para o chão consumido pelas chamas e desenhar com o dedo, ali um quarto, acolá a cozinha, a sala, com as palavras enroladas pela dor fica o silêncio de um olhar triste e resignado. A dor da ausência que nos coloca perante a representação da não-presença. A relação entre o passado-vivido e o passado-recordado que remete num instante para a suspensão do tempo-memória / do tempo-vivido. O relógio parara no exato momento em que as chamas levaram a vida toda.

A destruição do lugar, dos campos, dos bosques (carvalhos, castanheiros, sobreiros, vidoeiros), dos quintais, dos animais, das hortas, das vinhas, casas e alpendres é sem dúvida um acontecimento de grande violência psíquica porque coloca-nos perante a perda irreparável do tempo vivido. Remete também para a deslocação da perda de memória física e material, simbólica e espiritual. A memória não é mais celebração, mas esquecimento enquanto ritualização do sofrimento da perda pela destruição do fogo.  Estaremos perante aquilo que Halbwachs (1987) classificou como recordações traumáticas, associadas a experiências psicanalíticas onde o recordar é sintomaticamente associado aos fantasmas da tragédia presente e da dor incessante.

O passado memória sofre um grave acidente. Coloca em causa a relação entre identidade e memória do lugar, recordação e relatos fundacionais perdem a sua possibilidade de afirmação de fidelidade à memória e à história.

Existe sempre a possibilidade de um recordar. Mas o recordar que tem por causa a violência da destruição, não é um recordar para criação de memória, mas a única possibilidade de acesso a uma memória ferida pela dor e pela desolação do fogo que nos bloqueia a imaginação e nos convoca para um esquecimento terapêutico.

Este homem, natural de Vila Viçosa, concelho de Arouca transmitiu de uma forma poética e verdadeira, a dor que lhe comprime o peito e faz cair a lágrima, quando a tragédia bate à porta e nos leva a vida toda. Uma vida feita de tempo longo e cheio de acontecimentos, de vontades e de teimosias. Foi essa vida imaterial que se perdeu e que nunca mais se poderá reconstruir.

2. Vamos precisar de muito tempo para reclamar desta tragédia a retrospectiva criadora que nos irá devolver a memória e o acontecimento. Será necessário que os políticos de forma séria e coerente tomem as medidas certas e no tempo oportuno que é o nosso tempo. Será necessário fazer planos, simples e comprometidos com todos os que foram vítimas da árvore do fogo. Em conjunto convocar saberes e energias, meios e disponibilidades e juntos reconstruir o que for possível e criar o que o futuro nos interpela. Sem pressas, sem amadorismos, sem demagogia política. Nunca abandonar aqueles que perderam tudo ou quase tudo, esses necessitam que os poderes públicos sejam solidários e responsáveis, próximos e actuantes. 

É necessário aprender com estes incêndios. Não podemos ficar reginados à luta contra o fogo. Temos que tirar vantagem destes incêndios para reorganizar as nossas aldeias, os nossos montes e planaltos – dar um novo sentido antropológico ao território. Para isso, é preciso coragem e determinação política, não podemos ficar a assistir à tragédia, sem intervir e sem decidir. Este é o momento de tomar as decisões necessárias, convocando tudo e todos, num compromisso alargado pela defesa da nossa vida e do futuro dos nossos territórios. Encontrar outra forma de vida e outro modo de organização económica para as nossas vilas, aldeias e comunidades.

Perante a magnitude da tragédia é preciso implementar uma agenda contratual para o desenvolvimento local, que envolva todos os moradores e respectivas instituições e forças vivas, convocar a massa critica e os conhecimentos necessários, numa operação de investigação-acção-participação, com recurso a metodologias participativas e colaborativas. O envolvimento das comunidades em todo o processo é garante de sucesso na resolução do problema. Temos que convocar todos sem excepção, numa base de democracia popular, abrir a discussão, envolvendo e comprometendo. As soluções para o problema terão de nascer da comunidade para os órgãos decisores e nunca imposta de cima para baixo. Temos que democratizar e legitimar as decisões e a construção de soluções. Os modelos verticais e burocráticos não deram resultado, são dispendiosos, gastam-se centenas de milhões de euros, são frios e distantes das pessoas e dos problemas. Em Lisboa e em Bruxelas as soluções são raras e geralmente ingratas para os que dependem do território. A aposta no reforço de meios para a prevenção não é solução, mas adiar a solução gastando cada vez mais milhões sem evitar a tragédia dos incêndios. A tragédia prova que temos razão.

A solução é única e exclusivamente política e nacional, passa por uma agenda para o desenvolvimento das economias locais/rurais/montanha, com uma aposta na economia endógena, dependente dos recursos locais e ambientais. Associando-lhe uma política de repovoamento do interior, com a deslocação de meios humanos e materiais, com o retorno à economia local. Valorizando e incentivando a agricultura biológica, a floresta resiliente e sustentável, um ordenamento que dinamize a vida social e cultural em torno de comunidades densas e equilibradas.  Reconstruir as instituições estatais de proximidade que foram desmanteladas em benefício de um Estado mínimo e deixando ao mercado a função de regulação e de especulação, de destruição e de desvalorização dos territórios de baixa densidade. Os resultados estão bem plasmados na floresta do fogo.

Um programa de desmantelamento das monoculturas florestais evasivas, como o eucalipto. Com políticas de valorização e conservação das águas e suas fontes. Uma valorização das comunidades de pastores, com o retorno do gado autoctene aos montes e planaltos. Evitar que o espaço local (rural/montanha/vale) seja capturado pelas monoculturas do turismo e das economias extrativistas. Dar particular atenção às fontes poluidoras com origem em fontes poluidoras domésticas, empresariais, minas, lixeiras, etc. Promover uma política de remoção de todas as fontes poluidoras. Requalificar a vida em comunidade, reforçando os laços societais de proximidade e de solidariedade. Possibilitando uma maior humanização da vida social, económica e cultural.