- A cada dia que passa, a Faixa de Gaza transforma-se num cemitério - um lugar onde a dignidade humana é dilacerada junto aos corpos das vítimas. O que ali acontece já ultrapassou os limites de uma tragédia política: é uma tragédia humana. É um genocídio. Um inferno humanitário que nos chega todos os dias por relatos - como os de Francesca Albanese - e por imagens que não podem ser ignoradas.
Mais do que números frios de mortos e feridos, estamos a falar de vidas apagadas sem sequer uma hipótese de florescer. Crianças que deveriam estar a aprender a escrever os seus nomes lutam por comida para sobreviver. Mulheres que dão à luz em abrigos improvisados - sem anestesia, sem privacidade, sem segurança. Médicos denunciam o cenário de horror. Homens carregam corpos de filhos, pais, irmãos - muitas vezes sem saber se conseguirão enterrá-los.
A questão de Gaza não é recente. Há décadas que o conflito persiste. Homens como Yasser Arafat, Yitzhak Rabin e Shimon Peres tentaram a paz. Sabiam que o reconhecimento dos direitos dos palestinianos era condição essencial para alcançar uma solução pacífica e justa.
O reconhecimento do Estado da Palestina que muitos estados começam a aceitar, embora simbólico, é um passo que deveria ter sido dado há anos - talvez décadas - quando ainda havia margem para construir um caminho político realista para a paz.
Os discursos multiplicam-se: «lamentamos profundamente», «é preciso encontrar a paz», «ambos os lados devem cessar as hostilidades», nenhuma destas frases estanca o sangue ou alimenta os famintos. É preciso ação!
O reconhecimento do Estado da Palestina é essencial. Assim como é crucial, nesta fase, a suspensão do acordo comercial entre a União Europeia e Israel, como instrumento de pressão pelo cessar-fogo. Não se trata de tomar partido cego, nem de ignorar as complexidades do conflito israelo-palestiniano. Mas há verdades que não podem ser relativizadas: nenhuma causa justifica a matança de civis inocentes. O sofrimento da população de Gaza não é ‘colateral’ - é central.
Gaza precisa de um cessar-fogo. De corredores humanitários. De medicamentos, alimentos, água potável, abrigo. Mas, mais do que isso, Gaza precisa de justiça. De reconstrução. De esperança. E, sobretudo, de um olhar humano que vá além dos cálculos geopolíticos e das narrativas de guerra.
Portugal, ao reconhecer o Estado da Palestina, envia uma mensagem clara: o povo palestiniano tem direito à autodeterminação, à dignidade e à paz. Que esse reconhecimento tardio sirva não apenas como reparação simbólica, mas como pressão real por mudanças concretas. - Por estes dias, o Governo português faz anúncios alarmantes quanto ao nosso destino coletivo, na esperança que estejamos distraídos em pleno verão. As alterações à legislação laboral representam um retrocesso em vários domínios, e destaco aqui um particularmente grave: o enfraquecimento da proteção à parentalidade.
Duas medidas chamam especialmente a atenção pela sua insensibilidade: a exigência de prova de amamentação a cada seis meses é, além de absurda, humilhante; e o fim da dispensa de trabalho noturno ou ao fim de semana para pais de filhos até aos 12 anos representa um verdadeiro ataque à conciliação entre vida profissional e familiar.
Ambas são medidas contrárias à ideia de família. São atentados à dignidade e ao equilíbrio que levou anos a construir.
Portugal avançou, nas últimas décadas, na proteção da parentalidade. Licenças partilhadas, horários flexíveis, dispensa para amamentação - todos esses mecanismos representaram passos importantes rumo a uma sociedade mais justa e equilibrada. O que está em causa não é apenas a organização do trabalho. É a própria ideia de que é possível ser mãe ou pai, cuidar de uma criança, e ao mesmo tempo contribuir com dignidade no mundo profissional.
Estas medidas afastam-nos da construção de uma sociedade equilibrada. E mostram um país que parece disposto a sacrificar o seu futuro - as suas crianças, as suas famílias - em nome de uma lógica de produtividade desumanizada.
Eurodeputada e Vice-Presidente do Grupo S&D