sexta-feira, 08 mai. 2026

A II Guerra Fria

A estratégia chinesa de apoiar a guerra russa, desviando os EUA do Pacífico, deixa claro que estamos numa nova Guerra Fria.

As reuniões entre a União Europeia e a China culminaram ontem com a visita de Ursula von der Leyen e de António Costa a Xi Jinping. Numa cimeira que marcou o quinquagésimo aniversário das relações diplomáticas União Europeia-China, ficaram não só evidentes as divergências entre as partes como também se cristalizou a estratégia silenciosa, mas perspicaz, da China. Aliás, esta última tem-se tornado cristalina nos últimos anos. As palavras de Wang Yi, chefe da diplomacia chinesa, a Kaja Kallas há cerca de três semanas, foram apenas uma confirmação oficial.

Independentemente de o foco da reunião entre os líderes da UE e a cúpula chinesa ter sido a questão comercial e o seu, nas palavras de Von der Leyen, desequilíbrio, a questão fundamental é a do conflito na Ucrânia. É a avaliação deste último que nos permite entender as movimentações superiores, que podem passar despercebidas ao olho menos atento, que decorrem no grande tabuleiro da geopolítica.

Não é surpresa para ninguém que o esforço de guerra de Moscovo não seria o mesmo, e talvez nem seria possível, sem o apoio, por vezes tácito, por vezes explícito, da China. É Pequim que, através do seu estatuto de superpotência, confere alavancagem diplomática a Vladimir Putin e abre um corredor económico que funciona como uma grande boia que permite ao líder russo manter-se à tona. Se a abordagem da China fosse diferente, a Rússia estaria praticamente isolada, restando-lhe apenas o apoio de Estados menores como o Irão ou a Coreia do Norte, também eles Estados pária, e as sanções americanas e europeias asfixiariam irremediavelmente o Kremlin que se veria forçado a chegar a um acordo e a fazer concessões.

Agora, a questão central é a seguinte: qual o motivo do apoio, mesmo que por vezes tímido, da China? A resposta é relativamente simples, mas tem algumas nuances que importa abordar. Primeiro, vejamos a afinidade ideológica. Outrora o grande elo entre Pequim e Moscovo, independentemente de arrufos circunstanciais, o socialismo parece estar fora da equação atual. As semelhanças entre Putin e Xi ficam-se pelo autoritarismo e pelo ímpeto revisionista da ordem internacional liderada pelos Estados Unidos. O que não é de somenos.

É precisamente este último ponto que nos leva à segunda nuance: a Rússia, que neste momento não pertence ao leque das superpotências, é para a China um peão importante na luta contra o seu grande rival. Independentemente de Pequim se tentar distanciar desta evidência por motivos óbvios, as palavras de Wang Yi colocam um ponto final nas dúvidas, principalmente daqueles no Ocidente que olham para a China como uma pomba da paz imaculada, que escolheu não se conspurcar no lamaçal russo-ucraniano. De acordo com o South China Morning Post, um jornal de Hong Kong, «o ministro chinês dos Negócios Estrangeiros (…) disse à principal diplomata da União Europeia (…) que Pequim não queria ver uma derrota russa na Ucrânia porque temia que os Estados Unidos mudassem toda a sua atenção para Pequim». Não poderia ficar mais claro que isto.

Que estamos numa II Guerra Fria parece já inquestionável. Duas superpotências com regimes diferentes, com esferas de influência conflituantes que dão azo às chamadas proxy wars, que se digladiam em guerras tecnológicas e comerciais, e entre as quais o cenário de guerra quente, ainda que improvável, não pode ser descartado. As atenções estão na Ucrânia e no Médio Oriente, mas será uma questão de tempo até que se voltem para a zona crucial de decisão: o Pacífico.

Henry Kissinger dizia em 2019 que estávamos no «sopé de uma Guerra Fria». Em 2025 parece que chegámos ao topo.