Depois do interregno de doze anos durante o pontificado de Francisco, que optou por renunciar aos privilégios reservados ao chefe da Igreja, Leão XIV retomou a tradição do retiro de férias em Castel Gandolfo. É aqui, à beira do lago Albano, que os papas passam férias há séculos.
Situada a 40 quilómetros da capital, os visitantes de Roma podem seguir os seus passos para encontrar um clima mais fresco, arquitetura monumental e paisagens deslumbrantes.
A área em redor do Lago Albano tem sido um refúgio favorito dos governantes romanos desde a época de Domiciano, no século I, imperador cujo consulado ficou marcado pela repressão e o despotismo, confirmado pelo facto de se ter tornado o único da história sobre o qual foi emitido um voto de damnatio memoriae. Talvez aos problemas que eclodiram durante o seu governo não tenha sido alheio o gosto pelas longas ausências da capital. Mas isso foi há dois mil anos…
Depois dos imperadores, vieram os papas. «As Vilas Pontifícias de Castel Gandolfo erguem-se sobre as ruínas da sumptuosa vila romana do imperador Domiciano (81-96 d.C.), a Albanum Domitiani, que se estendia por 14 quilômetros quadrados até o lago de Albano», escreve o Vatican News. «Sobre as ruínas, na Idade Média, foi construído um castelo pela família genovesa dos Gandolfi, que passou para os Savelli em 1596. Posteriormente, esses últimos, insolventes, foram expropriados pela Câmara Apostólica e, em 1604, Castel Gandolfo foi incorporado aos bens da Santa Sé».
Foi, pois, no início do século XVII que Castel Gandolfo se tornou o retiro de verão preferido dos líderes do Vaticano.
O Papa Urbano VIII construiu o palácio papal em Castel Gandolfo em 1624. Ampliada ao longo dos pontificados seguintes, a propriedade foi crescendo até atingir seu tamanho atual de 55 hectares - maior do que a própria Cidade do Vaticano.
Os papas anteriores - com a notável exceção de João Paulo I, que apenas esteve à frente do Vaticano durante 33 dias, em 1978 - usavam-na regularmente no verão, atraindo grandes multidões de peregrinos que vinham aos domingos para ouvir a sua bênção do meio-dia proferida no pátio interno do palácio.
Corte com a tradição e abertura ao público
Quando o Papa Francisco decidiu que permaneceria em Roma durante o verão, a cidade sofreu um impacto económico inicial com a decisão. Sem o Papa por perto, o turismo decaiu significativamente.
O pontífice teve então a iniciativa de transformar o palácio papal e os jardins num museu aberto ao público durante todo o ano, o que agora traz um fluxo constante de turistas a Castel Gandolfo.
No interior, os visitantes podem percorrer várias salas, incluindo um tribunal, uma sala para a Guarda Suíça e a sala do trono, todas com obras de arte e mobiliário ornamentado.
No terreno há uma quinta em funcionamento, jardins impecavelmente cuidados, um observatório gerido por astrónomos jesuítas (para aqui transferido em 1934, quando se constatou que Roma já «não oferecia mais a escuridão noturna necessária para as observações do céu», como assinala o Vatican News) e, mais recentemente, um centro educativo ambiental inspirado na encíclica de Francisco de 2015, Laudato Si (Louvado Seja).
A visita de Francisco
Mas há mais programas para fazer em Castel Gandolfo além de visitar a residência papal. A localidade de oito mil habitantes foi eleita uma das mais belas aldeias de Itália, por isso, mesmo apenas passear pelas ruas íngremes, praças e cafés é um prazer.
Com a sua posição elevada na encosta, a cidade também oferece vistas esplêndidas sobre as águas azul-cobalto do Lago Albano.
Outra das atrações locais é a Igreja de San Tommaso da Villanova, projetada pelo genial arquiteto barroco romano Gian Lorenzo Bernini.
Uma última curiosidade: embora recusasse mudar-se para aqui durante o verão, Francisco esteve em Castel Gandolfo aquando da sua visita a Bento XVI, que aconteceu já depois da eleição de Bergoglio e não antes, como surge no filme Dois Papas, que foi rodado no local. Quem não tenha oportunidade de se deslocar à localidade italiana, poderá pelo menos espreitar os aposentos do palácio papal e os seus magníficos jardins no filme do realizador brasileiro Fernando Meirelles.
Texto editado por José Cabrita Saraiva