terça-feira, 20 jan. 2026

I(nevitável). Dos 100 aos 10, uma vida na redação

Não queria ser diretor do diário e acabei por ser o que mais tempo esteve em exercício. Herdámos um nome feito na praça e procurámos acrescentar algo mais ao projeto, apesar de a vida na redação se comparar cada vez mais ao filme "Os Dias da Rádio".
I(nevitável). Dos 100 aos 10, uma vida na redação

Penso que foi no final de maio de 2015 que recebi um telefonema a convocar-me para um almoço no Mar do Inferno, no restaurante da icónica D. Lurdes, em Cascais. Estranhei o convite, pois o sábado servia para recuperar de uma semana agitada de trabalho, e quando me ligaram tinha saído há poucas horas do Lux - a noite funcionava como uma sessão de terapia para mim. Quando me comunicaram que queriam que eu fosse o diretor do i, recusei veementemente, pois estava no SOL desde a fundação, tínhamos sido acionistas, e antes trabalhara no Expresso durante cerca de 20 anos - aí comecei como estafeta, fui secretário de redação, jornalista, sub-editor do Viva, editor do Vidas, e da revista Única, além de diretor interino do Blitz, de junho de 2005 a fevereiro de 2006. Como é fácil de perceber, nunca tinha trabalhado num diário e não tinha qualquer fascínio por tal. O meu ritmo e o meu foco estavam no semanário, e numa versão mais ‘magazinesca’, apesar de ter sido noticiarista durante muitos anos na secção de sociedade do Expresso, e das edições africanas do SOL.

Como o almoço só terminava com a minha concordância, não tive outra hipótese que não aceitar. Depois de uns dias de férias em Londres, onde recebi um telefonema que me deixou ainda com mais vontade de não aceitar o cargo, acabei por aterrar na redação do i, em Queijas, a 1 de junho de 2015. Eu que sempre tinha trabalhado com equipas ‘feitas ou refeitas’ por mim, entrei num ambiente hostil, tirando meia dúzia de exceções com a Ana Sá Lopes à cabeça e o inesquecível António Ribeiro Ferreira.

As capelinhas Via o i como um jornal que fazia coisas diferentes, fora da caixa, com secções inovadoras, mas que lhe faltava, na minha opinião, como é óbvio, alguma agressividade e alguma união. Para se ter um exemplo, o infográfico, excelente, diga-se, trabalhava ‘colado’ ao Desporto, sendo as outras secções um pouco deixadas para trás. Independentemente de todas as histórias que vivemos, reconheço que cometi alguns erros ao querer mudar o funcionamento do jornal, pois alguns procedimentos não faziam qualquer sentido para mim. Nos jornais, como na vida, devemos fazer as mudanças necessárias, mas cedendo ali para se ganhar acolá. A ficha técnica do i, a 2 de junho de 2015, contava, só na redação, com três diretores, uma chefe de redação, uma editora-executiva, um redator principal, nove editores, um editor-adjunto, três coordenadores e 20 jornalistas, além de duas secretárias. No mesmo edifício, estava a redação do SOL, de onde transitei, que tinha três diretores, uma editora, 13 coordenadores, uma redatora principal, 19 jornalistas e três secretárias, além do restante pessoal de apoio, tão necessário para a feitura dos jornais.

Já nessa altura, as redações dos jornais pareciam ginásios antes do verão, com a política do emagrecimento a ser levada ao extremo. A falta de publicidade e a diminuição de leitores que compram o jornal em banca - e estou convencido que cada vez há mais leitores, mas à borla, via redes sociais, chegando mesmo ao cúmulo de piratearem edições completas - assim o determinava. Mas olhemos então as fichas técnicas do SOL, a 16 de setembro de 2006 e para a do i, a 7 de maio de 2009, altura em chegaram às bancas pela primeira vez. O então semanário da Rua de São Nicolau, bem na Baixa de Lisboa, tinha quatro diretores, dois editores, 12 coordenadores, dois redatores principais, 25 jornalistas, 19 iniciados, vulgos estagiários, onde estava, entre outros, Margarida Davim, 19 colunistas e cartoonistas, entre os quais Marcelo Rebelo de Sousa, Margarida Marante ou Miguel Portas, seis assistentes de direção e secretariado, e nove pessoas na fotografia, infografia e designers gráficos - excluindo as chefias.

Já a ficha técnica da primeira edição do i, a 7 de maio de 2009, é ainda mais encorpada do que a do SOL: Seis diretores, três editores executivos, uma redatora principal, e dois grandes repórteres. Depois, entre editores, coordenadores e jornalistas, contabilizam-se mais 48 nomes. Na secção de fotografia constavam cinco nomes, no departamento de arte, seis, e na infografia cinco e três na revisão de textos. E não vamos ser completamente exaustivos, pois ainda há mais nomes na ficha técnica.
Avancemos até finais de março do corrente ano, altura em que deixei de ser diretor interino dos dois jornais. A ficha técnica, comum ao dois, contava com três diretores - dois editoriais e um de Arte -, dois redatores principais, uma editora executiva, duas editoras, duas jornalistas na política, uma na sociedade, uma na economia, um na cultura, dois no online, e um no desporto. Na fotografia, infografia, grafismo e pós-produção contam-se sete pessoas, além das duas assistentes de direção e de redação. Com tão poucos, já tinha sido inevitável transformar o i em semanário, optando-se por edições quase monotemáticas, algo de que sempre discordei, mas que acabei por aceitar, em nome de um suposto bem comum.

O milagre das notícias O emagrecimento das redações, e não se pense que foi só no SOL e no i - é transversal a quase todas as redações, com a exceção de uma - obrigou os resistentes a darem muito mais de si, apesar da diminuição da qualidade de vida. Nos 10 anos que fui diretor, diretor executivo ou diretor interino do i assisti a verdadeiros milagres de alguns jornalistas que praticamente não dormiam para conseguirmos fazer um diário, o i, e um semanário, o SOL. Quando rebentou a covid, a redação dos dois jornais tornou-se numa espécie de castelo, onde fazíamos as notícias, cozinhávamos as refeições e, muitas vezes, descansávamos entre edições. Tínhamos, como é óbvio, receio de algum apanhar a covid e a transmitir aos familiares que não saíam de casa.

Antes de chegar à direção, muitos outros diretores estiveram no cargo e fizeram do i uma referência na comunicação social, com a ajuda de muitos e bons jornalistas.

Como boa parte dos ex-diretores também escreve nesta edição, deixo para eles o tempo anterior a 2015, onde algumas entrevistas, investigações, notícias, infografias e desenho gráfico marcaram a comunicação social portuguesa. A mim, resta-me agradecer a todos os jornalistas e demais trabalhadores do jornal que me ajudaram a levar este barco até às bancas, durante quase dez anos, muitas vezes com grande sacrifício pessoal. Jamais os esquecerei. Muitos ficaram meus amigos, outros tornaram-se inimigos, desejando-me o que Maomé não desejou ao toucinho, outros nem se lembram, nem eu me lembro deles, mas o que também me ficará para sempre são os emails que recebia periodicamente a elogiar o trabalho da equipa e a pedirem-nos para continuarmos.

A terminar, não posso deixar de lembrar duas capas que nos deram muito gozo fazer. No dia em que Portugal jogou a final com a França para o Europeu de 2016, liguei da parte da manhã para o diretor gráfico, o Francisco Alves, a dar-lhe a sugestão de pormos o Cristiano Ronaldo na ‘pele’ de Astérix. Como o craque português saiu cedo, lesionado, ficámos, teoricamente, sem a ‘nossa’ capa. Aí o Chico disse-me se não achava que podíamos pôr o Astérix com a bandeira portuguesa na mão, no caso de Portugal vencer o jogo. E assim ficou. A outra foi a capa que retratava as centenas de viagens de Marcelo Rebelo de Sousa. Lembrei-me do livro Onde Está o Wally? e disse ao Chico para colocar Marcelo em todo o lado, ao que ele me retorquiu: ‘Não achas melhor pormos Onde não está o Marcelo?’. E assim ficou. A mais polémica, de eu como responsável de fecho, terá sido a de Lula (da Silva) na Grelha, mas essa história fica para outras núpcias. Adeus i, olá Inevitável no SOL.