segunda-feira, 18 mai. 2026

Ricardo Leão a caminhar para a maioria absoluta

Apesar das polémicas e de alguma contestação junto dos socialistas, o autarca de Loures está a caminhar a passos largos para conquistar maioria absoluta nas próximas eleições, admitem fontes do PS ao Nascer do SOL.
Ricardo Leão a caminhar para a maioria absoluta

O autarca de Loures promete continuar ‘sem dó nem piedade’ contra a expansão de barracas no seu concelho. Esta expressão já tinha sido usada em novembro ao referir-se aos distúrbios urbanos associados à morte de Odair Moniz, o jovem cabo-verdiano baleado pela PS e volta assim a criar momentos de tensão no PS. É certo que de polémica em polémica, Ricardo Leão está a caminhar a passos largos para alcançar a maioria absoluta nas próximas eleições autárquicas, de acordo com várias fontes socialistas ouvidas pelo Nascer do SOL.

A mais recente diz respeito à demolição de 64 habitações precárias, afetando 161 pessoas, no bairro Talude Militar, mas apesar das fortes críticas, Ricardo Leão promete não baixar os baixos, defendo que as «construções ilegais são inaceitáveis» e que esta não foi nem será a última intervenção da câmara neste sentido. Já em relação a Talude Militar disse que apresentou uma queixa-crime ao Ministério Público (MP) denunciando uma «teia criminosa» de «comercialização de barracas» neste bairro. «Estão a comercializar barracas a dois mil e três mil euros cada cinco metros quadrados, com garantia de luz e água», disse Leão, numa cimeira organizada pela SIC Notícias, afirmando que entre março e julho quadruplicou o número de habitações precárias no Talude Militar.

O nosso jornal sabe que esta denúncia refere-se dois casos de pessoas que pagaram estes valores em abril e em maio em troca de um terreno, materiais de construção, água e luz e teve como base um relatório da polícia municipal. Entretanto, a câmara vai acenando com o número de apoios que tem dado às famílias que viviam no bairro (ver tabela).

Uma das fontes ouvidas pelo Nascer do SOL_recorda o peso que Ricardo Leão tem dentro do PS porque, em termos internos, a Concelhia de Loures é forte e conta com muitos militantes. E não hesita em admitir que nas próximas eleições, «a maior alegria do PS vai ser Loures» quando o autarca vencer com maioria absoluta. «Na área metropolitana de Lisboa, o PS vai passar para terceiro em Cascais com Nuno Piteira Lopes a ganhar e com o Chega a ficar em segundo. Também em Sintra vai ficar em terceiro lugar havendo ainda dúvidas de quem sairá vencedor, se Marco Almeida ou se Rita Matias. O PS vai ficar muito mal em Oeiras, vai perder Lisboa, vai ganhar na Amadora e vai ganhar em Odivelas na linha de água. Só em Loures é que o PS_irá superar todos os resultados», salienta.

Já quanto às polémicas,  a mesma fonte socialista afirma que, apesar de existirem dentro do partido algumas pessoas a criticar há muitas que apoiam o que está a fazer. «Até há quem diga que está a fazer o que tem de ser feito. O problema é que há algumas vozes no PS que querem ser mais papistas que o Papa, do ‘nós somos os defensores da esquerda, nós somos os defensores dos valores’», mas admite que não é isso que desmoraliza o autarca. «Ricardo Leão está tudo menos preocupado com que os socialistas pensam porque sabe que o eleitorado dele gosta e também sabe que nas últimas eleições legislativas o resultado que teve foi bom. No fundo, ele quer ganhar eleições e sabe como ganhar», recordando o quão difícil foi reconquistar a autarquia e tendo em conta que tem dois mandatos pela frente.

E recorda que o que está a fazer em Talude Militar já foi feito noutros concelhos. «Foi feito em Oeiras e em Cascais há uns anos. E ao mesmo tempo que estavam a ser destruídas barradas em Loures, o mesmo estava a ser feito na Amadora sem estas polémicas», salienta.

Quanto à posição do secretário-geral do PS, que disse compreender as dificuldades das autarquias que se deparam com construções precárias, mas pediu soluções equilibradas «com humanismo e sensibilidade social» na resolução dos diferendos, a mesma fonte reconhece que José Luís Carneiro pode estar «desconfortável com o círculo mediático e que o PS não precisa de ter mais dores de cabeça», mas também lembra que o líder «tem mais com que se preocupar».

Uma outra fonte socialista refere que Leão «vai marcar a agenda em termos autárquicos» e está a levar a uma situação, em que «a direita está um bocadinho sem saber o que é que há de dizer», recordando que «a primeira pessoa a dizer que vinham aí mais barracas foi Isaltino Morais».

E chama a atenção para o facto de a maioria dos socialistas «estar com ele», afastando a ideia de haver internamente uma corrente mais à esquerda ou mais à direita. «São pensamentos diferentes, mas o Ricardo tem peso interno, a maior parte está com ele e não vai parar até ganhar as eleições com maioria absoluta», salienta.

Tensões não são inéditas

A declaração do presidente da Câmara de Loures que, em novembro, defendeu ações de despejo «sem dó nem piedade» de inquilinos de habitações municipais que estivessem envolvidos em tumultos, após a morte de Odair Moniz criou momentos de tensão junto dos socialistas, mas acima de tudo, Ricardo Leão foi usado como arma de arremesso entre Pedro Nuno Santos, na altura, líder do partido e António Costa.

Apesar de reconhecer que a intervenção tinha sido «um momento menos feliz», o ex-secretário-geral saiu em sua defesa ao considerar que um momento menos bom não o define e o autarca só pediu a demissão da liderança da Federação da Área Urbana de Lisboa (FAUL), depois do do ex-primeiro-ministro juntamente com o deputado e membro da Comissão Política Concelhia de Lisboa, José Leitão e o ex-eurodeputado Pedro Silva Pereira ter publicado um artigo de opinião intitulado ‘Em defesa da honra do PS’ no Público.

Nesse artigo criticaram as declarações do presidente da Câmara Municipal de Loures e defenderam que «além de violar grosseiramente as competências reservadas da Assembleia da República e dos tribunais, iria [os despejos] atingir, de forma manifestamente desproporcionada, o direito fundamental à habitação dos próprios e, por maioria de razão, dos inocentes que, integrando o respetivo agregado familiar, seriam colateralmente punidos apenas por residirem na mesma habitação», acrescentando que «quando um dirigente socialista ofende gravemente os valores, a identidade e a cultura do PS, não há calculismo taticista que o possa desvalorizar. É esse o legado do Partido Socialista que sentimos agora o dever de recordar e defender. Em defesa da honra do PS».

Também Alexandra Leitão, na altura, líder partidária da bancada socialista não poupou críticas ao afirmar que o «regulamento municipal não pode nunca introduzir penas acessórias e ainda bem que é assim».

Um episódio que, além de ter custado a Leão a liderança da federação também criou internamente um momento de tensão entre os socialistas, entre os que o criticavam e os que defendiam o autarca com unhas e dentes. Uma atitude que, já nessa altura, muitos admitiriam que conseguiria assegurar no concelho o mandato por mais quatro anos, vencendo com maioria absoluta com o apoio do PS.