O Matuto anda numa luta ontológica com os... fios eléctricos. A história conta-se duma penada. Ela arribou, na semana passada à “Casa das Pontes”, toda catita, bonitinha e embrulhadinha. Era desejada há muito. Finalmente chegou: a vitrola que iria devolver os discos de vinil à sua antiga glória. A euforia do Matuto, nas ‘Pontes’, foi notória. Aquela azáfama! Estardalhaço de papel rasgado misturado com o amarfanhar de plásticos e o encavalitar de colunas de som e agulhas de grafonola. O som suave e límpido, encheu a “Casa das Pontes”. O momento foi devidamente assinalado na História do planeta, com o Dave Brubeck e o Paul Desmond a interpretarem “Take Five”. Dona Sirlei, gentil esposa do Matuto, foi convidada a juntar-se às solenidades: “precisa esconder esses fios todos” – foi o sermão. Esculacho, fubeca, carraspana, espinafração, raspança, rebordosa, diatribe, ensaboadela... Arrasou com a parafernália do Matuto! Daí, a escaramuça existencial. Como tourear este emaranhado de fios? Os filamentos energéticos saem de buracos na parede e entram nas tomadas com liberdade eléctrica. Como resolver o dilema? – medita o Matuto.
(De repente - não mais que de repente - a chuva cai inteira na cidade. Neste país que tão generosamente acolheu o Matuto no seu seio, é raro chover no Inverno. Há 3 meses que o ar ardia seco nos olhos. Mas o milagre aconteceu! Na rua, a meninada pula e salta na enxurrada, patina na lama e nas esquinas solta barcos de papel, animada pela festa breve. Quando ri o petiz, Deus está feliz! No jardim das ‘Pontes’ as árvores engordam de verde; as mimosas pingam alegria; o som da chuva sobre a pedra, sobre o telhado, sobre as vidraças, sobre as folhas, sobre a terra sedenta; a chuva é bela, no som, no cheiro, na pele, na forma, na água; a água é bela. O Óscar – a lagartixa residente das ‘Pontes’ – retirou-se lépido para os seus aposentos. Lá fora o horizonte fica mais denso e o Matuto cá dentro sente que a “Casa das Pontes” se transforma numa caverna primitiva, vivendo o prazer primário de estar protegido porque, afinal, somos bichos urbanos necessitados de abrigo. É a visão da chuva que nos dá esta mansa sensação de animal na toca.)
Mas voltemos aos fios. O Matuto sabe de fonte segura que os fios começaram a povoar a paisagem quando Samuel Morse inventou o telégrafo. Era preciso esticar fios a cada cem metros, e assim nasceu essa bizarria urbana: o poste. O Morse foi pioneiro em pendurar fios num poste, mas aí o pessoal aproveitou e vai de meter fios em tudo o que é poste. É a malta da electricidade, é o técnico da internet, é o fulano dos alarmes, o tipo da telefonia, os cabos de alta e baixa tensão, feitos de cobre ou alumínio, com ou sem isolamento, de cor azul para neutro, verdes/amarelos para ligação à terra, vermelhos e pretos para as fases (pesadelo daltónico!)...
O Matuto, na sua parcimónia, considera os fios à vista, como mais um dos males da existência, e não acha que venha daí grande mal ao mundo. Reminiscências do cordão umbilical que nos liga à terra-mãe – calcula o Matuto. Todavia, convencer a Dona Sirlei desta verdade universal, são outros quinhentos. O Matuto, claro, tentou esconder os fios. Usou fita adesiva, passadores, canaletas, gambiarras dignas do MacGyver em fim de carreira. Tudo em vão. Os fios, como as rugas, sempre voltam à superfície. Dona Sirlei está em modo julgamento de Nuremberg. O Matuto, tentou argumentar que os fios são expressão moderna do sublime: uma instalação artística de tecnologia em transe, um bordado elétrico do século XXI. Mas Dona Sirlei, pouco sensível à estética pós-industrial, continuou implacável. O Matuto então percebeu que estava diante de uma força maior do que a corrente alternada: a estética conjugal. Afinal, o casamento é também um sistema de cabos — todos invisíveis, todos serenamente interligados. Enfim, a vida é como é: uma fiada de episódios. Tudo o mais é vaidade, ou aflição de espírito.