quinta-feira, 22 jan. 2026

Quanto vale a TAP? A resposta determina a venda

Valor de mercado será base da oferta dos interessados na aquisição dos 49,9% do capital da TAP. Governo tem avaliações atualizadas mas só serão divulgadas após apresentação de propostas de compra.
Quanto vale a TAP? A resposta determina a venda

Quanto vale a TAP? Esta é a pergunta do momento e cuja resposta será definidora é decisiva no âmbito da privatização, uma vez que é com base neste valor que será feita a oferta pelo interessado, ou interessados, na aquisição dos 49,9% do capital da transportadora aérea portuguesa. E também o número com o que o Governo parte para a negociação.

Saber este valor parte da avaliação que é feita da empresa, e neste momento, esta varia.

No programa É ou não é, da RTP, o secretário de Estado das Infraestruturas, Hugo Espírito Santo, referiu que o executivo “tem as avaliações atualizadas” e que estas servem para o que o Governo afirme “não vamos vender a um valor que consideremos inaceitável ou abaixo daquilo que achamos que é justo pela companhia”.

O ministro das Finanças, Miranda Sarmento, já havia referido que estas não serão divulgadas antes de serem apresentadas propostas para a compra de forma a não prejudicar a posição negocial do Estado.

Referência para a negociação

A avaliação, determinante para o valor de mercado, é uma referência para a negociação, mas ao longo do processo e em função do interesse manifestado a companhia área poderá ter um valor diferente.

Mas é público que as avaliações atuais são inferiores às realizadas em 2023. Isto porque, no ano passado, houve a eliminação dos cortes salariais. Em 2024, primeiro do pagamento dos salários sem cortes, a TAP teve custos com pessoal de 817 milhões de euros, um aumento de 400 milhões face aos 417 milhões de 2022.

A isto acresce o impacto financeiro das processos judiciais perdidos a favor dos trabalhadores devido a questões salariais do pessoal de voo (noticiados na mais recente edição do Nascer do SOL) e ainda a dívida de 178 milhões de euros à Azul, depois de o anterior Governo ter assumido que o financiamento desta à TAP é um empréstimo obrigacionista e não um suprimento.

Assim, as avaliações efetuadas pela consultora EY e pelo banco Finantia, de acordo com o CM, têm um valor compreendido entre os 100 e os 400 milhões. No conjunto das duas, o valor médio é de 250 milhões. No final de 2022, a EY tinha atribuído à empresa um valor entre 923,8 e 1,14 mil milhões, enquanto o Banco Finantia considerou que a TAP valia entre 759 e 1,11 mil milhões. Em média, uma avaliação entre 800 e 1,1 mil milhões de euros.

Quando aprovou o plano de reestruturação da TAP, em 2021, Comissão Europeia avaliava a companhia aérea num valor entre os 855 milhões e 1,5 milhões. De acordo com a página da TAP na Wikipedia, o valor de mercado – baseado na concorrência de mercado e lei da oferta e da procura – da companhia aérea é de 980 mil milhões.

Um outro ponto em cima da mesa na venda do 49,9% do capital da TAP é a questão das sinergias, uma vez que o Governo estima que a venda da TAP poderá gerar sinergias ao futuro comprador. De acordo com o Hugo Espírito Santo esta estimativa é de 300 milhões de euros e que “no múltiplo de 2, 3, 4 significa até cerca de mil milhões de euros”. O governante refere que essas sinergias só ocorrem num modelo em que haja “um parceiro comprometido connosco” e que o valor “de prémio associado é majorado uma vez tendo as sinergias capturadas”.

De acordo com Hugo Espírito Santo, quanto mais valor e mais sinergias a própria TAP tem, mais valiosa é a participação no capital. Para o Governo, o que conta na avaliação dos candidatos são os elementos que constam do plano estratégico: o crescimento do negócio de aviação, incluindo o seu compromisso com o novo aeroporto de Lisboa, o crescimento dos restantes aeroportos, plano de manutenção e engenharia e produção de combustível sustentável.

Rotas e aviões

No mercado do transporte aéreo de passageiros, muito concorrencial e competitivo, é determinante para a aferição do valor de mercado duma empresas o número de rotas e número aviões a operar, para além da saúde financeira e capacidade operacional da empresa.

A TAP Air Portugal opera com uma frota de cerca de 100 aeronaves e oferece voos para mais de 90 rotas, ligando Lisboa a sete destinos domésticos e 81 internacionais em 31 países.

Segundo o site FilghtConnections, e com base no número de voos programados para este mês, os voos mais populares operados por TAP Air Portugal são ligações de Lisboa (e vice-versa) para o Porto, Paris, Madeira, Madrid, Londres, Barcelona e Roma. Muitos destes passageiros são oriundos da América do Norte, e do Sul, em trânsito pelo hub de Lisboa para outros destinos na Europa.

No primeiro trimestre de 2025 – período dos mais recentes números públicos disponíveis - a TAP transportou 3,5 milhões de passageiros, tendo operado cerca de 27 mil voos.

Receitas e Custos

As receitas operacionais totalizaram 823,4 milhões e as receitas 734,1 milhões. As receitas de manutenção totalizaram 44,3 milhões e as receitas de Carga e Correio atingiram 38,9 milhões.

Os custos operacionais recorrentes totalizaram 942,6 milhões, o EBIDTA (resultado operacional, mais depreciações, amortizações e perdas por imparidade) recorrente totalizou 2,9 milhões.

A 31 de março de 2025, o balanço apresentava uma posição de caixa e equivalentes de caixa sólida, no valor de 1.203,2 milhões, na sequência da entrada da última tranche de capital no valor de 343 milhões.

Como é a força de trabalho que põe a TAP a voar?

A TAP emprega 8.148 trabalhadores distribuídos por 21 países em quatro continentes, segundo o relatório mais recente da transportadora, de 2024.

A esmagadora maioria, 7.876, está baseada em Portugal, mas a presença internacional da transportadora estende-se a países tão diversos como os Estados Unidos (33 colaboradores), Brasil (80), Alemanha (12), Angola (19) ou Senegal (9). Ao todo, a companhia conta com profissionais de 35 nacionalidades.

A companhia aérea destaca, no mesmo relatório, uma aposta nas políticas de inclusão e igualdade de género, num setor ainda marcado por disparidades, especialmente em áreas como a pilotagem, manutenção técnica ou tripulação de cabine.

Atualmente, 43% dos trabalhadores da empresa são mulheres, número que se traduz em 40% dos cargos de direção, 45% das funções de gestão e 33% dos lugares nos órgãos sociais.

Outro dado relevante diz respeito à juventude da força de trabalho: 49% das contratações realizadas são de trabalhadores jovens. O objetivo é reforçar o rejuvenescimento e dinamismo da empresa.

Estrutura salarial: dos 922 aos 11.303 euros

Em relação aos salários, estes variam significativamente conforme a função exercida. Os vencimentos mensais oscilam entre os 922 euros, para algumas categorias técnicas, e os 6.387 euros nos quadros superiores, com escalões intermédios bem definidos para outras profissões, de acordo com dados do SITAVA - Sindicato dos Trabalhadores e Aviação, uma das estruturas com maior número de adesão de funcionários da TAP.

Destacam-se os pilotos e os tripulantes de cabine, cujo rendimento é influenciado por categorias, anos de serviço e tipo de aeronave. Um comandante de longo curso, com cerca de 20 anos de experiência a pilotar um Airbus A330, por exemplo, ultrapassa os 11.300 euros mensais. Um oficial de piloto, com um ano de experiência no A320, receberá cerca de 4.000 por mês.

Em remunerações anuais, segundo dados reunidos pelo Polígrafo, um oficial piloto júnior (A320) ganha aproximadamente 84.000 euros, enquanto um comandante de A320 com 15 anos de experiência pode receber cerca de 207 mil. Já no A330, os comandantes, com 20 a 30 anos de serviço, podem chegar aos 260 mil euros por ano.

Os comissários de bordo, de acordo com os sindicatos, recebem entre 2.000 e 2.115 euros líquidos por mês.

Além destes, a tabela salarial da TAP inclui ainda carreiras como técnico comercial (de 1.089 a 2.649 euros), controlador/planeador de escalas (de 1.089 a 2.529 euros), oficial de operações de voo (1.464 a 4.071 euros), técnico de operações aeroportuárias (de 1.089 a 2.529 euros ), analista programador (de 1.406 € a 3.071 euros), técnico de operações informáticas (de 1.185 a 2.638 euros) e técnicos de manutenção e engenharia [TMA, TMFP, TPPC, TRTMA e TAM] (de 922 a 4.214 euros).

A dimensão e complexidade da força de trabalho da TAP ganham renovado interesse no contexto da anunciada privatização de 49% do capital da companhia. A nova configuração acionista, apesar de o Estado continuar a controlar 51%, poderá vir a ter impacto direto na gestão interna da empresa, nas suas políticas de pessoal e na sua presença internacional.