Guerra pelas universidades

Em nome da procura pela luz, a Universidade transformou-se num espaço de obscurantismo. A mudança é, por isso, urgente

Donald Trump regressou à Casa Branca há seis meses. A rutura com a administração democrata parece inquestionável, à exceção de alguns temas, e a política internacional embarcou num processo de reconfiguração. A abordagem dos Estados Unidos aos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente, bem como aos próprios aliados, faz lembrar a realpolitik da era Nixon, com as suas circunstanciais diferenças, é claro, com o país a querer assumir-se de novo como a grande potência dissuasora que impõe a paz pela força sem cair nas armadilhas que tramaram o neoconservadorismo de Bush (filho). 

Mas há outro aspeto fundamental, onde a rutura com a administração Biden se torna cristalina, em Trump 2.0: a “guerra às universidades”. O termo é amplamente utilizado, o que não invalida a sua flagrante imprecisão. 

As universidades, entendidas como instituições de ensino preocupadas com a formação de cidadãos e que empreendem uma incessante busca pela verdade, não são o objetivo das cruzadas de Trump. Nem poderiam ser. A Universidade é uma das pedras angulares do enorme edifício, construído através de conhecimento acumulado ao longo de gerações, a que damos o nome de civilização ocidental. É a instituição fundamental que incute nos jovens o gosto pela liberdade, pelas grandes obras, pelo debate, pelo pluralismo, enfim, pela engrenagem responsável por nos fazer progredir enquanto sociedade. 

Mas, nas últimas décadas, a Universidade – principalmente nos Estados Unidos, mas também na Europa – parece estar a transformar-se no contrário. Em nome da procura pela luz, torna-se num espaço que tem sido progressivamente colonizado pelo obscurantismo. Um espaço no qual a ideologia suplanta a verdade, onde o debate sério, por vezes duro, cede passagem a um clima irrespirável de cancelamento e censura, e no qual os professores, cuja função primacial passou a ser acordar os seus discípulos para as injustiças do mundo ocidental dominado pelo heteropatriarcado branco, despem o manto académico e vestem-se de ativistas. 

Não é novidade para ninguém que os intelectuais, na sua maioria aqueles que têm ou tiveram um fraco contacto com a realidade, sempre mostraram um certo grau de desprezo pelo liberalismo clássico, acreditando que poderiam ser capazes de construir uma sociedade a partir da sua torre de marfim. E foi também por isto que se criaram movimentos que vão corroendo as bases da Universidade e que, com a conivência ou apoio do poder político, nos têm brindado com a multiplicação de departamentos DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão) altamente discriminatórios e que ferem de morte a aristocracia natural baseada, nas palavras de Thomas Jefferson, na máxima «virtude e talento».

Concordando ou não com o método seguido por Trump, que parece não ser o melhor nem o mais bem articulado, é necessário reformar profundamente as instituições do ensino superior. E como o Estado, que neste caso tem responsabilidades porque as financia com dinheiro dos contribuintes, pode ter abordagens menos apropriadas, é necessário que os próprios académicos, com o apoio da sociedade civil, façam a sua parte. E, felizmente, estão a fazer. A Declaração Manhattan, recém-publicada no The Free Press, encabeçada por Cristopher Rufo e assinada por mais 42 personalidades norte-americanas – de Jordan Peterson a Niall Ferguson, de Ayaan Hirsi Ali a Victor Davis Hanson – é um excelente ponto de partida.

Assim, parece seguro dizer que esta luta, que vai do poder político à academia, passando pela sociedade civil, é, em última instância, um combate para recuperar uma instituição crucial do nosso progresso coletivo. Por outras palavras, não é uma guerra às universidades, mas sim pelas universidades.