terça-feira, 15 set. 2026

Erin Patterson. De obcecada por crimes a criminosa

Interessava-se por crimes e por cogumelos. E foi exatamente pelos dois que Erin Patterson foi parar à prisão e arrisca não voltar a sair de lá. Matou os sogros e mais um familiar do marido num jantar aparentemente inocente com um dos cogumelos mais venenosos do mundo. Sabia o que fazia, diz o Tribunal.
Erin Patterson. De obcecada por crimes a criminosa

Erin Patterson era, aparentemente, uma mulher normal. Ainda que tenha tido uma infância aparentemente conservadora, veio de uma família de classe média-alta. Era casada, mãe de dois filhos e muito ligada à Igreja. Gostava também de culinária e o seu gosto e paixão por cogumelos era conhecido. Mas, em 2023, a sua vida deu uma volta de 180 graus e os ‘podres’ desta australiana, escondidos há muitos anos, vieram à superfície.

Vamos então começar pelo início. Em agosto de 2023, a Austrália recebe uma notícia chocante: três adultos morrem depois de terem ingerido cogumelos venenosos e um quarto elemento fica em estado grave na sequência da mesma refeição. Consegue sobreviver. A ‘chef’ culinária desse dia foi precisamente Erin Patterson, num almoço onde estiveram presentes cinco pessoas: Gail e Don Patterson foram almoçar a casa da nora Erin Patterson em Leongatha, a sudeste de Melbourne, a 29 de julho. Levaram também o casal Wilkinsons – Heather, irmã de Gail, e o marido Ian.

Algumas horas depois da refeição, todos os quatro convidados começaram a sentir-se mal e foram para o hospital local, julgando ser uma gastroenterite grave. Mas os médicos perceberam logo que se tratava de algo muito pior e foram todos transferidos para outro hospital para receberem um tratamento melhor.

Foi em vão: Heather e Gail morreram e um dia depois morreu também Don. Ian esteve internado durante muito tempo e precisou de um transplante de fígado para sobreviver.

A investigação começou de imediato: acidente? Propositado? A principal suspeita era, obviamente, Erin Patterson, até porque foi ela a preparar a refeição. Quando a polícia começou a investigar, pensou que seria uma intoxicação alimentar mas os resultados de exames e autópsias confirmaram que a causa de morte tinha sido por envenenamento, por terem comido cogumelos venenosos, nomeadamente o Amanita phalloides – conhecidos como cogumelos chapéu da morte – que é extremamente tóxico. A australiana serviu aos familiares bife Wellington com puré de batata e feijão verde. Sempre se declarou inocente e a sua defesa referia que ela «entrou em pânico por, sem querer, ter servido veneno aos familiares que amava».

A investigação

Mas a investigação começou a mostrar pormenores mais macabros. A 3 de novembro, Erin Patterson é presa e acusada de três e cinco tentativas de homicídio. As acusações adicionais de tentativa de homicídio, alegando tentativas anteriores de envenenar o seu ex-marido, Simon Patterson, são posteriormente retiradas.

Para que fosse presa, surgiram algumas provas. A 18 de abril de 2023 é feita uma publicação no iNaturalist, um site de pesquisa de plantas e fungos, regista cogumelos desse género a aumentar na área de Loch. 10 dias mais tarde, os registos de telemóvel de Erin Patterson indicam uma possível visita a essa região, a que se junta a compra de um desidratador de alimentos na loja Hartley Wells Betta Electrical em Leongatha.

Entre março e maio, a australiana começa a fazer publicações sobre desidratação de cogumelos num grupo de crimes reais no Facebook, onde detalhava como colocar cogumelos em pó em diversos alimentos.

Neste intervalo de tempo, Patterson recebe também o resultado dos exames a um cancro, negativo. Mas seguiu sem dizer nada aos familiares, que acharam que estaria doente. A relação com o marido também já não era a mesma e havia afastamento.

A 21 de maio, volta a ser feita uma publicação no iNaturalist que dá conta da localização exata dos cogumelos mortais a crescer em Outtrim. E, mais uma vez, os dados do telemóvel mostram que, no dia seguinte, voltou a Loch e foi também a Outtrim.

A 16 de julho, Erin vai a um culto na Igreja Batista de Korumburra e convida Don, Gail, o marido e Ian e Heather Wilkinson para almoçar a 29 de julho. O então marido envia uma mensagem no dia antes a dizer que não se sente confortável em marcar presença e ela responde: «É realmente dececionante. Passei muitas horas esta semana a preparar o almoço para amanhã e gastei uma pequena fortuna em filé mignon para fazer bife Wellington porque eu queria que fosse uma refeição especial, já que talvez eu não consiga organizar um almoço deste género durante algum tempo. É importante para mim que todos vocês estejam lá amanhã». Mas Simon não voltou a responder.

Nos dias seguintes ao almoço todos começam a sentir-se mal. Alegadamente até Erin Patterson, que diz sentir náuseas e diarreia. Além disso, serve restos dessa refeição aos filhos. Sabe-se ainda que a australiana vomitou depois do almoço. Seria para ‘deitar fora’ o veneno? A sua justificação é outra: os convidados levaram bolo de laranja e, depois deles saírem, comeu fatia atrás de fatia, o que lhe causou indisposição.

Depois, o desidratador de alimentos é deitado ao lixo mas recuperado pela polícia. A investigação segue e Erin Patterson é presa. Algo que presumisse que pudesse acontecer porque, antes, contratou dos melhores advogados de Melbourne.

As contradições

Sempre negou os crimes e garante que não envenenou ninguém de propósito mas, ao longo do tempo, foi apanhada em várias incoerências. Mentiu sobre o desidratador e sobre onde arranjou os cogumelos, que disse ter comprado. Reiniciou o telemóvel para apagar imagens dos cogumelos e do desidratador antes de os aparelhos terem sido recolhidos pela polícia. Mas garantiu sempre que não tinha intenção de matar. Foi, nas suas palavras, uma «reação estúpida e impulsiva de aprofundar ainda mais e continuar a mentir». Apenas tinha medo, referiu.

Ian Wilkinson, o sobrevivente, testemunhou em tribunal. Disse achar estranho o convite mas ficou feliz, até porque Erin era uma pessoa prestável. E diz que percebeu o motivo do almoço no final, quando a anfitriã anunciou que tinha um cancro grave. Não era verdade.

Não só nunca teve cancro como afirmou ter vergonha do seu corpo e que tinha marcado uma consulta para fazer algo em relação a isso. Outra mentira.

Nas argumentações finais, a acusação alega que Erin fingiu estar doente após a refeição para sugerir que ela também sofreu sintomas de envenenamento por cogumelos venenosos e que deixou o hospital porque sabia que nem ela nem os filhos tinham consumido os cogumelos venenosos.

E há outro assunto a ‘tramá-la’. A passar uma fase difícil no casamento com o marido já a morar noutro local, Erin falou mal da família num grupo de Facebook. «Estou farta desta merda, não quero ter nada que ver com eles», escreveu em dezembro de 2022. «Pensei que os pais dele quisessem que ele fizesse a coisa certa, mas parece que a preocupação deles em não se sentirem desconfortáveis e não se envolverem nos assuntos pessoais do filho está a prevalecer, então que se lixem».

Erin Patterson foi considerada culpada e a sentença será anunciada mais tarde, mas pode ser condenada a prisão perpétua.

O caso atraiu milhares de pessoas no mundo inteiro, muitas que se deslocaram propositadamente à Austrália para assistir ao julgamento. Deu origem a vários podcasts, programas de televisão e, quem sabe, livros ou séries de TV.