sábado, 24 jan. 2026

O plano secreto para salvar 15 mil afegãos

Uma fuga de dados de cidadãos afegãos por parte do Ministério da Defesa britânico fez soar os alarmes do executivo em 2023. O processo de realojamento foi ativado e 4.500 afegãos já rumaram ao Reino Unido
O plano secreto para salvar 15 mil afegãos

Os Talibãs retomaram o poder no Afeganistão em 2021, quando os Estados Unidos oficializaram a sua retirada do país. Foi então que milhares de cidadãos afegãos iniciaram a sua tentativa de deixar a sua terra natal. Nada disto é novo, mas foi um incidente que envolveu o Ministério da Defesa do Reino Unido – do qual só agora se começam a saber mais detalhes – que está a merecer a atenção mediática.

O incidente em questão foi uma fuga acidental de informações pessoais de cerca de 19 mil afegãos que se candidataram para rumar a terras de sua majestade. Por isto, e para tentar remediar a fuga de dados que colocou em perigo os afegãos que estariam determinados em sair do país, em 2024, ainda durante o governo do Partido Conservador, foi estabelecida a Rota de Resposta ao Afeganistão (ARR). A ARR oferecia, de acordo com o The Guardian, o «realojamento a 15.000 afegãos num esquema secreto com um custo potencial de mais de 2 mil milhões de libras». 

O processo foi alvo de uma injunção – uma «ordem judicial que ordena a uma pessoa que faça ou deixe de fazer alguma coisa» e «um recurso equitativo emitido em situações em que a compensação monetária seria inadequada, normalmente para evitar danos irreparáveis», segundo o Legal Information Institute da Faculdade de Direito da Universidade de Cornell – por parte do Governo britânico. Foi uma medida sem precedentes. «Em pânico», escreveu o The Guardian, «os ministros e funcionários do Ministério da Defesa tomaram conhecimento da violação em agosto de 2023, depois de os dados terem sido publicados num grupo do Facebook, e solicitaram ao tribunal superior uma injunção (…) para impedir qualquer outra divulgação nos meios de comunicação social». Foi devido à injunção, entretanto levantada na passada terça-feira, que só agora estão a ser divulgados os detalhes do processo. 

Para além de dar a conhecer o caso, o Governo britânico, de acordo com uma notícia da BBC, ainda deu as seguintes informações: «O Ministério da Defesa acredita que 600 soldados afegãos incluídos na fuga de informação, mais 1800 membros das suas famílias, ainda se encontram no Afeganistão»; «O esquema está a ser encerrado, mas as ofertas de realojamento já feitas aos que permanecem no Afeganistão serão honradas»; «O esquema secreto - oficialmente chamado Rota de Realojamento Afegã – custou 400 milhões de libras até agora e espera-se que venha a custar mais 400 a 450 milhões de libras»; «A fuga de informação foi cometida por engano por um funcionário não identificado do Ministério da Defesa» e «As pessoas cujos dados foram divulgados só foram informadas na terça-feira». 

Foram também publicadas medidas de precaução para os potenciais afetados no website oficial do executivo: «Se pensa que você ou os seus familiares foram afetados, deve estar vigilante (atento). Deve ter especial cuidado se uma pessoa desconhecida o contactar», pode ler-se no comunicado que, entre outras orientações, recomenda que estas pessoas limitem «quem pode ver os seus perfis nas redes sociais», não aceitem «pedidos de amizade ou para seguir de pessoas que não conhece e em quem não confia» e ainda «considerar encerrar a conta da rede social» em caso «de qualquer atividade suspeita».

Ao abrigo do esquema secreto de realojamento já se encontram em solo britânico ou estão em vias de chegar 900 indivíduos e mais 3600 familiares. E quando considerados «os esquemas mais amplos», como revela também o The Guardian, «o governo recolocou 35245 afegãos na Grã-Bretanha, dos quais 16156 estavam entre os afetados pela fuga de dados». 

Segundo um relatório independente realizado por Paul Rimmer a pedido de John Haley, o atual Secretário da Defesa, a história acabou por não ter o fim que inicialmente se temia.  Concluiu-se, tal como citou o The Guardian, que a fuga de informações «pode não se ter propagado tão amplamente como inicialmente se receava», que «há poucos indícios de que os talibãs tencionem conduzir uma campanha de retaliação» e que o ARR «pode agora ser desproporcionado em relação ao impacto real da perda de dados». 

Haley, independentemente de ter deixado claro que se trata de um caso ocorrido durante um governo conservador, não deixou de apresentar um pedido de desculpas aos visados em plena Câmara dos Comuns: «Pode ter ocorrido há três anos, sob o governo anterior, mas a todos os que tiveram os seus dados comprometidos apresento as minhas sinceras desculpas», dizendo também que «este caso (…) nunca deveria ter acontecido». 

As afirmações anteriores, de que o ARR já desproporcionado, e a garantia de que já não será concedido asilo a mais ninguém do Afeganistão estão em linha com a postura que o primeiro-ministro, Keir Starmer, e a sua equipa têm adotado em matérias de regulação da imigração e controlo de fronteiras. É de notar ainda que o Governo não atravessa uma boa fase e que o Reform, da direita populista, lidera as sondagens.

Assim, ao fim de pouco mais de dois anos, saiu à luz um dos casos de fuga de dados mais sensíveis a que se assistiu recentemente na Europa. Ao que parece, e mesmo que o processo esteja a ser dispendioso, as consequências não foram tão graves quanto se previa no início.