quarta-feira, 09 set. 2026

Fauja Singh. O Tornado de Turbante que correu contra o luto

1911-2025 Maratonista mais velho do mundo morreu atropelado
Fauja Singh. O Tornado de Turbante que correu contra o luto

Nunca é tarde demais para começar a fazer o que se gosta». O ditado assenta a Fauja Singh, o maratonista indiano que morreu segunda-feira aos 114 anos. Singh atravessava uma estrada na sua aldeia natal, Beas Pind, perto de Jalandhar no Punjab, Índia, quando um veículo não identificado o atropelou. As pessoas da aldeia levaram-no para o hospital, onde morreu. O condutor do carro seria detido no dia seguinte. 

O Maratona Clube de Portugal (MCP) recordou a passagem de Singh pela capital portuguesa em 2006, quando, aos 94 anos, correu a Meia Maratona de Lisboa no seu percurso de atleta, que havia começado cinco anos antes. «Receber Fauja Singh (...) foi um momento inesquecível. (...) Foi um símbolo de superação, de determinação e de alegria contagiante. A sua partida deixa saudade, mas o seu exemplo permanece eterno», disse o presidente do MCP, Carlos Moia. 

Singh começou a correr aos 89 anos como forma de ultrapassar o luto e a depressão depois da sua mulher, Gian Kaur, e do seu filho terem morrido. Com o tempo, deixou de ser um alívio e tornou-se uma missão para aquele que seria conhecido com o ‘Tornado de Turbante’. 

 A morte do filho, em 1994, afetou-o de forma particularmente dura. Agricultores, estavam no campo no meio de uma tempestade quando um pedaço de metal soprado pelo vento decapitou Kuldip à frente do pai. Singh, cujos outros cinco filhos tinham emigrado, ficou sozinho.

Foi viver com o seu filho mais novo para Londres, onde conheceu alguns desportistas idosos que o encorajaram a dedicar-se à corrida. Conheceu também Harmander Singh, que viria a ser seu treinador. «Se não o tivesse conhecido não teria começado a correr na maratona», afirmou. 

Em 2000 terminou a Maratona de Londres em 6h54m, superando em 58 minutos o anterior recorde mundial de corredores acima de 90 anos. Singh conta que, antes da corrida, os responsáveis lhe disseram que não podia usar um turbante. «Recusei-me a correr sem o meu turbante. Por fim, os organizadores permitiram-me correr com ele e, para mim, essa é a minha maior conquista». A partir de então participou em mais oito maratonas, sempre com Harminder Singh, que lembra que depois da morte de Kuldip, Singh «achava que a sua vida não valia a pena sem o seu filho». 

Em 2003 completou a Maratona de Toronto em 5h40m, o seu melhor tempo. A 16 de outubro de 2011, tornou-se o primeiro centenário a completar uma maratona, cruzando a linha de chegada dessa mesma maratona em 8 horas, 11 minutos e seis segundos.

No entanto, o feito não foi reconhecido pelo Guinness World Records por não ter apresentado uma certidão de nascimento de 1911, que na altura não havia na Índia. A BBC ainda noticiou que o passaporte britânico de Singh mostrava a sua data de nascimento como 1 de abril de 1911 e que havia uma carta da Rainha Isabel II a felicitá-lo pelo seu 100.º aniversário.

Em 2012, foi um dos portadores da tocha olímpica nos Jogos de Londres e, aos 101 anos, retirou-se após completar uma corrida de 10km em Hong Kong. «Eu era o mesmo antes de entrar no mundo da corrida, mas a corrida deu uma missão à minha vida e trouxe-me reconhecimento mundial», recorda.

Nascido a 1 de abril de 1911, no Punjab, Índia, era o mais novo de quatro irmãos numa família de agricultores A infância foi marcada por desafios: a sua família pensava que tinha alguma deficiência, já que só começou a andar aos cinco anos. As pernas finas e frágeis dificultavam qualquer esforço físico. 

Enquanto jovem, dedicou-se ao trabalho no campo para ajudar no sustento familiar e antes de completar 40 anos tinha vivido a turbulência das duas guerras mundiais e experimentado o trauma da separação da índia com o Paquistão. 

«Na minha juventude, nem sequer sabia que a palavra ‘maratona’ existia», disse Singh à BBC Punjabi. «Nunca fui à escola, nem pratiquei qualquer tipo de desporto. Eu era agricultor e passava a maior parte da minha vida nos campos».

Quando a BBC se encontrou com Singh em junho, em Beas Pind, era ágil e ativo, caminhando vários quilómetros todos os dias. «Ainda faço caminhadas pela aldeia para manter as minhas pernas fortes. Uma pessoa tem que cuidar do seu próprio corpo» disse. 

Vegetariano, Singh também foi o homem mais velho a participar numa campanha da PETA e a Adidas contratou-o para a campanha publicitária de 2004, Impossible is Nothing, ao lado de David Beckham e Muhammad Ali. 

Atribuía a sua saúde e longevidade a um estilo de vida simples e dieta disciplinada. «Comer menos, correr mais e manter-me feliz– este é o segredo da minha longevidade. Esta é a minha mensagem para todos», lembrando que «o mesmo rapaz, outrora ridicularizado pela sua fraqueza, acabou por fazer história»