quarta-feira, 17 jun. 2026

Os livros de Kurtz

Apocalypse Now é um monumento cinematográfico que rapidamente e sem surpresa se tornou um filme de culto, mas que encerra uma rica carga literária a descobrir.

No final do magistral Apocalypse Now (1979), a obra-prima de Francis Ford Coppola, quando o Capitão Willard, interpretado por Martin Sheen, encontra o Coronel Walter E. Kurtz, encarnado por Marlon Brando, há uma cena em que se vêem dois livros de Kurtz sobre uma mesa. São eles, The Golden Bough, da autoria do antropólogo britânico Sir James George Frazer, e From Ritual to Romance, de Jessie L. Weston, duas das grandes influências do poema modernista The Waste Land (1922), de T. S. Eliot, editado por Ezra Pound.

É nas notas àquele que Fernando Guedes considerou «o mais visionário poema que nos legou o século XX», que Eliot afirma que o livro de Weston sobre a lenda do Graal sugeriu «não apenas o título, mas o plano e boa parte do simbolismo incidental do poema», como o recomenda para elucidar The Waste Land. De seguida, reconhece também a dívida para com o livro de Frazer, uma obra que segundo ele influenciou profundamente a sua geração.

A inclusão destes livros no filme não é acidental, muito menos inocente. Serão mais uma vez a chave para a compreensão de uma obra? A versão original de The Waste Land abria com uma citação de O Coração das Trevas, o vertiginoso e magnético romance de Joseph Conrad de 1899, em que John Milius se inspirou para escrever o argumento deste filme, projectando-o do Congo do século XIX para a Guerra do Vietname: «Naquele supremo instante, de integral conhecimento, estaria ele a reviver a vida em todo o pormenor, com os seus desejos, tentações e renúncias? Deu um grito sussurrado a uma imagem qualquer, a uma visão qualquer – gritou duas vezes, um grito que não passava de sopro... O horror! O horror!»

Foi Pound que, na sua extensa edição do poema, questionou a inclusão desta citação e a importância de Conrad. Eliot omitiu a passagem, substituindo-a por uma citação em grego e latim do Satyricon de Petrónio, em que a Sibila de Cumas afirma que quer morrer. De tal modo reconheceu o valor do trabalho de Pound na sua obra que, quando lhe ofereceu a primeira edição de The Waste Land, escreveu como dedicatória «A Ezra Pound, il miglior fabbro.», repetindo o elogio de Dante ao troubadour Arnaut Daniel. Mas o reconhecimento de Eliot ficaria gravado para sempre, porque a dedicatória passaria a constar das edições do poema impressas a partir de 1925.

Graças ao filme de Coppola, a expressão «O horror! O horror!» ficou ligada à imagem de Kurtz deitado no chão ensanguentado, suspirando as suas últimas palavras, uma cena memorável que marca o desfecho do clímax.

A referências de T. S. Eliot a esta obra de Joseph Conrad repetem-se ainda no poema The Hollow Men (1925), que Kurtz lê numa cena inesquecível do filme. Este poema extraordinário abre com a frase «Mistah Kurtz – he dead.», isto é, com o anúncio da morte de Kurtz em O Coração das Trevas. Além de o seu final «This is the way the world ends / Not with a bang, but a whimper» ser incluído num desabafo que a alucinada personagem do fotojornalista que está no meio dos homens de Kurtz, interpretada por Dennis Hopper, faz ao Capitão Willard.

Será The Waste Land, mas também Apocalypse Now, nesta perspectiva, uma visão do declínio do Ocidente ou uma constatação do lado obscuro da nossa natureza? Na biografia Young Eliot (2015), Robert Crawford considera que «se The Waste Land passou a ser visto como uma articulação do sentimento de crise da civilização ocidental, pode também ser ouvido como um grito duradouro, dando voz a uma escuridão profunda na psique humana».

Uma década após a publicação do poema e contrariando tão arrojadas leituras e dúvidas, Eliot afirmou: «Vários críticos deram-me a honra de interpretar o poema em termos de crítica do mundo contemporâneo, consideraram-no, de facto, como uma importante peça de crítica social. Para mim, foi apenas o alívio de uma queixa pessoal e totalmente insignificante contra a vida; é apenas uma peça de queixume rítmico.»